Brett Gundlock para The New York Times
Brett Gundlock para The New York Times

Movimento jovem altera política tradicional no México

Em meio ao desencantamento com os partidos políticos mexicanos, candidatos independentes, muitos com menos de 30 anos, estão atraindo eleitores cansados de violência e corrupção

Paulina Villegas, The New York Times

14 Março 2018 | 15h00

GUADALAJARA, México - Pedro Kumamoto, 28 anos, um político independente que disputa uma cadeira no senado, saboreava o primeiro café do dia quando foi abordado por um homem de meia idade. "Sinto pela interrupção, eu queria apenas cumprimentá-lo", disse o homem mais velho, com o olhar um pouco embargado. "Peço desculpas por me emocionar, mas você é uma verdadeira inspiração".

Esse tipo de demonstração efusiva de apoio aos políticos não é comum no México, mas encontros como esse se tornaram habituais para Kumamoto, indicando o quando os mexicanos anseiam por lideranças alternativas.

Dois anos atrás, Kumamoto foi eleito como o primeiro legislador independente do congresso do estado de Jalisco, depois que uma mudança na constituição federal em 2014 permitiu a participação de candidatos sem filiação partidária. Agora, Kumamoto, que se descreve como "social-democrata", está na frente nas pesquisas de intenção de voto para uma vaga no senado federal. Ele está entre as dúzias de candidatos independentes concorrendo na eleição de 1º de julho, que parecem ser uma recusa da política habitual no México.

Entre os eleitores mexicanos existe "uma grande insatisfação com o sistema partidário tradicional e a incapacidade dos estados de responder às demandas dos cidadãos", disse Alejandro Poiré, secretário do interior do governo do presidente Felipe Calderón, cujo mandato chegou ao fim em 2012.

Dezesseis membros do Wikipolítica, um movimento jovem esquerdista, foram aceitos como candidatos independentes nas disputas federais e estaduais, incluindo Kumamoto. Muitos têm menos de 30 anos. O establishment político, representado pelo partido da situação, o Partido Revolucionário Institucional, ou PRI, que governou ininterruptamente de 1929 a 2000, é visto por muitos mexicanos como propenso à corrupção. 

"Nascer e crescer num país governado pelo PRI significou que pensávamos que só havia uma maneira de se fazer política", disse Roberto Castillo, 27 anos, membro-fundador do Wikipolítica, que agora está se candidatando para uma cadeira no congresso estadual do distrito federal.

Kumamoto disse que um dos maiores desafios é superar o ceticismo do eleitor quanto à possibilidade de mudar o status quo político. Mas, num sistema que favorece os partidos consolidados (a lei mexicana garante o fundo partidário), o desempenho dos demais independentes deve ser pouco significativo.

Neto de imigrantes japoneses, Kumamoto disse que seu ativismo teve início quando ele participou de uma ocupação pacífica aos 19 anos contra a remoção de árvores. Posteriormente, tornou-se presidente do conselho estudantil em sua universidade.

Chegando ao congresso estadual aos 25 anos, Kumamoto conquistou o apoio das municipalidades para a aprovação de leis que faziam os partidos políticos abrirem mão de boa parte de seu financiamento público. Ele conseguiu trazer à tona a questão do fim da imunidade judicial dos políticos eleitos em Jalisco. As críticas iniciais à sua falta de experiência foram silenciadas.

Agora, ele começa a inspirar outras pessoas. Num pequeno comício em Guadalajara, um cartaz dizia: "Vamos substituí-los". Nove jovens candidatos ao congresso estadual de Jalisco tinham reunido as assinaturas necessárias para disputar a eleição e estavam comemorando. Entre eles estava Alejandra Vargas, 29 anos, novata na política com diploma de engenharia industrial, que disse ter ficado surpresa quando Kumamoto sugeriu a ela que se candidatasse.

"Quando pensei na ideia, disse a mim mesma que não havia desculpas para recusar a oportunidade, já que sempre falei na participação cívica como espinha dorsal da democracia", disse Alejandra.

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