Agence France-Presse via The New York Times
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Movimento #MeToo chega a monastério na China

A acusação de assédio sexual contra um carismático abade turva os rumos do budismo no país

Ian Johnson, The New York Times

21 Setembro 2018 | 10h15

PEQUIM - Nas últimas duas décadas, a religião tem prosperado na China, e nenhuma fé foi mais beneficiada do que o budismo. O número de templos triplicou, monges e abades se tornaram personalidades públicas, e a China usou a fé para estabelecer elos com o restante do mundo, enviando monjas e monges em missões de boa vontade.

A pessoa mais ligada a esse renascimento é o Venerável Xuecheng, um carismático monge que se tornou abade de seu primeiro templo aos 23 anos e diretor da Associação Budista da China, controlada pelo Partido Comunista, aos 49 anos.

Seu uso das redes sociais e ênfase na compaixão atraíram o tipo de profissional brilhante que antes dava pouca atenção às tradicionais religiões chinesas. Muitos o consideram o mais importante reformista do budismo chinês em um século.

Mas, em meados deste ano, todos esses sucessos terrenos foram revertidos. Acusado de comportamento indecente com as monjas e de má conduta financeira, Xuecheng, atualmente com 52 anos, perdeu seus títulos e foi banido para um pequeno templo em sua província natal, Fujian. Agora, investigadores do governo ocupam o templo principal do clérigo em Pequim: eles expulsaram os monges leais a Xuecheng e agora vasculham seus registros contábeis em busca de irregularidades financeiras.

Isso faz de Xuecheng o mais importante líder nacional a ser derrubado na China pelo pequeno e insistente movimento local #MeToo, um raro caso de personalidade com elos políticos no país que caiu em desgraça por causa de acusações de má conduta sexual.

Muitos temem que seu modelo de budismo 2.0, que aceita as tendências sociais, careça da espiritualidade que atraiu as pessoas para esta fé. A queda dele também representa um potencial revés nos esforços do governo chinês para apresentar o budismo como uma espécie de religião nacional capaz de conquistar amigos no exterior e oferecer valores morais para o público doméstico.

"É impossível não ficar triste" com os acontecimentos recentes, escreveram dois monges num relatório de 95 páginas detalhando as acusações de irregularidades financeiras e sexuais contra Xuecheng. Eles pediram ao governo que agisse rapidamente ou "não ousamos imaginar para onde Xuecheng levará este grupo de budistas".

Em 2004, Xuecheng assumiu o comando de um templo quase arruinado no subúrbio de Pequim, a oeste da cidade, chamado Templo Longquan, ou Fonte do Dragão. Em poucos anos, o Templo Longquan se tornou um dos mais ativos da China.

Xuecheng se aproveitou de um sentimento muito disseminado entre os chineses ricos, que gostariam de oferecer algo à sociedade: ele assumiu o controle de uma instituição de caridade e a levou para seu templo. Ainda que os 90 milhões de membros do Partido Comunista sejam supostamente ateus, eles elogiaram o trabalho do templo por seu sacrifício altruísta no estilo comunista.

Stefania Travagnin, que ensina budismo contemporâneo na Universidade de Groningen, nos Países Baixos, disse que o budismo parece ter sido escolhido entre as demais religiões permitidas na China - Islã, cristianismo e taoismo - como a mais apropriada para representar o país no exterior.

Segundo ela, o Islã e o cristianismo têm elos fortes com muitos outros países, enquanto o taoismo é uma fé indígena chinesa que poucos estrangeiros podem compreender. O budismo é mais conhecido por causa da popularidade das versões japonesas, como o Zen.

A maioria dos enviados ao exterior era formada por monjas, que, como Xuecheng, fizeram voto de castidade. Elas receberam celulares enquanto estiveram no exterior.

Xuecheng começou a enviar às monjas mensagens explícitas, de acordo com o relatório dos monges, perguntando por exemplo se uma delas aceitaria receber carícias e fazer sexo. Quando ela se negou, ele disse que era necessário "superar" essa mentalidade. Começou a conversar com outra monja, perguntando a ela, "A quem você pertence?". A reposta: "Ao mestre", ou seja, Xuecheng.

No final do ano passado, as monjas procuraram dois monges graduados, que decidiram defendê-las. Em seu relatório, os monges afirmam também que as doações feitas ao templo eram desviadas para a conta bancária pessoal de Xuecheng.

Em fevereiro, os monges encaminharam seu relatório ao governo. Em agosto, alguém publicou seu conteúdo nas redes sociais. Posteriormente, as autoridades confirmaram que ele tinha enviado as mensagens.

Muitos de seus seguidores acreditam que ele não recebeu tratamento justo, e aguardam seu retorno.

"Xuecheng fez muitas coisas boas, demonstrava grandes virtudes", disse um seguidor de 25 anos que administra uma pousada de peregrinos perto do Templo Longquan. "Mesmo que ele seja culpado, não podemos rechaçá-lo completamente".

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