Matt Roth de The New York Times
Matt Roth de The New York Times

Movimento que revive antiga roupa chinesa conta com um milhão de seguidores

Nostalgia pelo estilo chinês antigo cresce no país e tem bênção do governo

Chris Buckley e Katrina Northrop, The New York Times

07 Dezembro 2018 | 06h00

PEQUIM - Elas entraram juntas usando suntuosos e sedosos vestidos, algumas vestindo chapéus pretos ou intrincados arranjos florais. Pareciam viajantes do tempo saídos de um ritual imperial chinês de mil anos atrás. Essas pessoas trajadas à moda antiga, reunidas recentemente em Pequim, são participantes do movimento “Hanfu”. Dedicam-se a reviver as roupas que eles acreditam que eram usadas pela maioria étnica Han antes da China sucumbir a séculos de domínio estrangeiro - e se orgulham do passado que evocam.

“O Hanfu é um movimento social, e é por isso que faço parte dele, mas há também um nível mais profundo de sentimento nacional", disse o programador de computadores Yin Zhuo, 29 anos, que participou do dia de festividades usando um longo vestido azul de capa vermelha, com uma gola de pele falsa.

O líder chinês, Xi Jinping, vem promovendo as virtudes tradicionais, o que torna o momento atual perfeito para os adeptos do Hanfu - que significa vestuário Han -, que tem permissão para crescer. Os adeptos dizem que o Hanfu tem até um milhão de seguidores, principalmente entre as adolescentes e mulheres de vinte e poucos anos.

“Reviver o Hanfu foi importante dentro do estímulo ao orgulho da identidade Han", disse Wang Letian, funcionário de uma companhia elétrica que é tido como o fundador do movimento, 15 anos atrás, quando caminhou por uma cidade na China central vestindo roupões como os do passado. As autoridades adotaram o Hanfu como parte da ideia de tradição defendida pelo Partido Comunista.

O Hanfu se baseia na ideia segundo a qual a maioria étnica Han - à qual pertencem mais de 90% da população - deveria demonstrar orgulho de suas raízes vestindo roupas como as usadas antes que os exércitos Manchu vindos do norte ocupassem a China, governando como a dinastia Qing a partir de 1644. Os imperadores Manchu, seguidos por ondas de imperialistas ocidentais e japoneses, impuseram seu o próprio estilo ao país, lançando a cultura Han num período de eclipse.

Com a difusão do Hanfu, o movimento também se fragmentou um pouco. Sites de Hanfu têm debates a respeito de quais peças de roupa são realmente consideradas autênticas. “Boa parte da história e das tradições citadas pelo movimento é inventada", disse Kevin Carrico, professor de estudos chineses da Universidade Macquarie, na Austrália. “Estão criando essa história para si mesmos.”

Os seguidores divergem a respeito do ponto principal do Hanfu: afirmação étnica, fomento dos valores tradicionais ou simplesmente lançar uma moda ousada. “Alguns são nacionalistas, mas há outros puramente interessados no lado estético da coisa, e outro grupo se interessa pelo lado das tradições antigas", disse Fu Renjun, editor de um site que promove a cultura tradicional chinesa.

A dedicação dos seguidores do Hanfu pode se transformar em chauvinismo e atitudes de superioridade em relação às minorias étnicas chinesas, como os uighures e os tibetanos. As políticas da China em relação a essas minorias foram alvo de críticas internacionais, mas muitos chineses da etnia Han se consideram protetores dessas minorias. “Nosso nacionalismo é uma energia positiva", disse Wang. “Em termos simples, os Han deveriam agir como um irmão mais velho, e só então poderemos orientar e proteger devidamente nossas etnias irmãs e minoritárias.”

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