Jean Chung para The New York Times
Jean Chung para The New York Times

Movimento sul-coreano quer fim de rígidos padrões de beleza

Coreia do Sul tem a maior taxa per capita de cirurgia cosmética do mundo

Alexandra Stevenson, The New York Times

02 de janeiro de 2019 | 06h00

SEUL, COREIA DO SUL - Kim Ji-yeon queria fazer uma cirurgia plástica quando tinha 7 anos. Nos 13 anos seguintes, ela destruiu fotos de si mesma até que os pais pagaram uma cirurgia para corrigir seu queixo, procedimento que exige que se quebre o maxilar a fim de realinhá-lo. Então Kim começou a indagar por que motivo gastava 200 dólares por mês e duas horas por dia à sua aparência. Cortou o cabelo curto, e quebrou seus potes de maquiagem.

Aos 22 anos, Kim faz parte de um grupo cada vez maior de mulheres sul-coreanas que se rebelam contra rígidos padrões de beleza, movimento chamado ‘Fuja do espartilho’. “A misoginia é mais radical na Coreia do Sul, e a indústria da beleza contribui para agravá-la”, disse Kim.

A Coreia do Sul tem a maior taxa per capita de cirurgia cosmética do mundo. Os cosméticos e os produtos para os cuidados do rosto geraram 13 bilhões de dólares em vendas no ano passado, segundo a Mintel, o que a torna um dos maiores mercados de produtos de beleza do mundo.

Nos últimos tempos, as mulheres decidiram revidar. No verão passado, dezenas de milhares reuniram-se para protestar contra o assédio sexual, as câmeras que gravam vídeos voyerísticos e os padrões mais rigorosos com que são avaliadas em outros aspectos da sociedade, inclusive em termos de Direito.

Bae Eun-jeong, conhecida como Lina Bae, era uma estrela do YouTube que dava tutoriais de beleza. Depois de ouvir falar do movimento ‘Fuja do espartilho’, Bae, 21, resolveu analisar os comentários  em seu canal do YouTube. Muitos eram de jovens que diziam que a maquiagem lhes dera a coragem de ir para a escola.

“Eu me dei conta de que havia alguma coisa muito errada”, afirmou Bae. Em junho, ela exibiu um vídeo no qual aplica cremes, bases, delineador dos olhos e cílios postiços. Então tira toda a maquiagem e diz: “Não se preocupe tanto com a maneira como os outros a veem. Você é especial e bonita como você é”.

O vídeo teve 5,5 milhões de visualizações. Desde então, Bae cortou o cabelo curto e parou de usar maquiagem, economizando cerca de 500 dólares por mês. Agora, os seus vídeos falam de culinária e promovem a troca de ideias. Sua nova atitude provocou uma reação muito negativa. Bae e Kim, que usam o cabelo cortado como tigela característicos do movimento, contam que se tornaram alvos de abusos verbais e de ameaças de morte. Dois chefes disseram a Kim que ela não tinha um aspecto suficientemente feminino.

E a pressão social continua forte. Im Soo-hyang é a estrela do drama coreano intitulado “Minha identidade é Gangnam Beauty”, sobre uma jovem que faz uma cirurgia plástica, fala de questões de imagem, e faz referência ao bairro Gangnam de Seul onde há muitas clínicas de cirurgia plástica.

“Não posso dizer que não me importo se as pessoas prestam atenção em mim por causa da natureza do meu trabalho”, disse Im em um salão de beleza. “Olhem para mim. Fiz um penteado legal, estou usando maquiagem, fiz as unhas e visto roupas bonitas.” E acrescentou: “Não posso ser liberada”.

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