Thilo Schmuelgen|Reuters
Thilo Schmuelgen|Reuters

Movimentos de 1968 ganham nova roupagem na Europa do século 21

Uma nova geração de rebeldes está crescendo na Europa – mas, desta vez, com um levante da direita

Ivan Krastev, The New York Times

02 Março 2018 | 12h10

VIENA - Em outubro do ano passado, um grupo de respeitados pensadores conservadores de toda a Europa publicou um manifesto intitulado “Uma Europa na qual podemos acreditar”. Sob muitos aspectos, trata-se de um documento bem escrito e bem pensado, com uma dose retórica do discurso do movimento de libertação nacional dos anos de glória da descolonização.

A impressão que temos ao ler o manifesto é que os conservadores da Europa são anti-imperiais (para eles, a União Europeia é um "império de dinheiro e regulamentações"), anticoloniais ("imigração sem assimilação é colonização") e defensores do estado-nação, desprezado pelas elites pró-europeias (que, de acordo com eles, estão "cegas com suas visões vaidosas de um futuro utópico").

Acredite se puder, a revolução nativista convocada por eles se assemelha aos levantes de esquerda de 1968. Como os manifestantes daquela época, esses intelectuais não estão tentando simplesmente ganhar as eleições, mas alterar o modo de pensar e viver das pessoas. Ao mesmo tempo, porém, o que eles desejam fazer é precisamente desmontar o legado deixado por 1968 na Europa.

O conceito-chave que impulsionou 1968 foi o “reconhecimento”. Esse reconhecimento significava, basicamente, que aqueles sem poder político deveriam ter os mesmos direitos que os poderosos. A palavra-chave da revolução nativista atual é “respeito", usada por esses rebeldes do século 21 para dizer que o fato de termos direitos iguais não muda o fato de termos poder político diferente.

Se as manifestações de 1968 estavam preocupadas com os direitos das minorias, a revolução nativista de hoje é a respeito dos direitos das maiorias. Se em 1968 os países confessaram seus pecados (lembremos do chanceler alemão Willy Brandt ajoelhado diante de um monumento ao Levante do Gueto de Varsóvia), os líderes nativistas de hoje estão ocupados proclamando a inocência divina de seus países (a recente lei polonesa criminalizando referências à participação polonesa no Holocausto é um exemplo dos piores).

Os partidos populistas da direita de hoje são, acima de tudo, partidos culturais. Eles enxergam sua posição de poder como uma oportunidade para moldar a identidade nacional. Não estão muito interessados em mudar os impostos nem o bem-estar social. Para eles, o mais importante é como a sociedade se relaciona com seu passado e como as crianças são ensinadas. O debate a respeito da imigração é, acima de tudo, uma oportunidade de definir que pertence ou poderia pertencer a uma comunidade política nacional.

Mas, enquanto nos países individuais a revolução nativista assume a forma de uma luta entre liberais e conservadores, no nível da União Europeia isso é vivenciado como um conflito entre o Oeste e o Leste da Europa. Trata-se de um conflito entre duas versões do conservadorismo.

O conservadorismo da Europa Ocidental é posterior a 1968. Ele internalizou parte das tendências progressistas que moldaram o Ocidente nos cinquenta anos mais recentes, como a liberdade de expressão, ao mesmo tempo rejeitando aquilo que é visto como os excessos de 1968. Na Europa Ocidental, ativistas e líderes da extrema direita podem ser abertamente gays sem causar surpresa.

Na sua versão da Europa Oriental, o conservadorismo é uma forma mais radical de nativismo. Ele rejeita a modernidade como um todo e vê as mudanças culturais das décadas mais recentes como uma tentativa de destruir as culturas nacionais das sociedades do centro e do leste da Europa. Ser conservador na Europa Central significa ser contra os excessos extravagantes de 1968 e também contra qualquer forma de diversidade e cosmopolitismo.

Essa visão é perfeitamente representada pelo primeiro-ministro Viktor Orban, da Hungria. "Precisamos afirmar que não temos interesse na diversidade e não queremos nos misturar", disse ele em fevereiro. "Não queremos que nossa cor, nossas tradições e nossa cultura nacional se misturem com as de outros. Não queremos nada disso. Não desejamos um país diversificado. Queremos ser como há 1.100 anos, na Bacia dos Cárpatos".

A posição dele deixa clara a diferença entre a versão Ocidental e Oriental do conservadorismo europeu. No Ocidente, os conservadores acreditam que não basta obter um passaporte austríaco para ser austríaco: é necessário também adotar a cultura do país. Para Orban, ninguém se torna húngaro, apenas nasce húngaro.

E aí está o paradoxo da revolução nativista de hoje na Europa. Tanto o leste quanto o oeste do continente avançaram para a direita nos anos mais recentes, mas, em vez de contribuir para a união da Europa, essa mudança amplia ainda mais a distância entre as duas regiões.

Embora os europeus do oeste contestem os méritos da diversidade, eles vivem em sociedades culturalmente diversificadas. Os europeus do centro e do leste, entretanto, vivem em sociedades etnicamente homogêneas e acreditam que a diversidade nunca vai alcançá-los. Os conservadores da parte ocidental da Europa sonham com um continente no qual as maiorias vão definir os rumos da sociedade; no leste, eles sonham com sociedades sem minorias e governos sem oposição.

Assim, embora líderes políticos conservadores como Orban e Sebastian Kurz, o novo primeiro-ministro conservador da Áustria, partilhem visões semelhantes em relação ao controle da imigração e à desconfiança diante do conservadorismo à moda antiga, eles não são aliados naturais em se tratando do futuro da Europa.

Na verdade, eles diferem de maneira que lembra a diferença entre o Leste Europeu e a Europa Ocidental em 1968. No ocidente, era uma questão de soberania do indivíduo. No oriente, a questão era a soberania da nação.

Ivan Krastev é presidente do Centro para Estratégias Liberais, pesquisador permanente do Instituto de Ciências Humanas, de Viena, e autor de "After Europe". 

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