Gordon Welters para The New York Times
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Muçulmana quer reconstruir imagem do islã

Seyran Ates faz parte da mesquita Ibn Rushd-Goethe, onde muitas mulheres são reconhecidas como imãs

Melissa Eddy, The New York Times

14 Setembro 2018 | 15h45

BERLIM - Seyran Ates lembra da dor que sentiu quando uma bala rasgou seu pescoço. Lembra de ter estado à beira da morte e de ter dito a Deus que precisava ficar entre os vivos. Na época, ela tinha 21 anos, estudava direito, trabalhava em um centro para a mulher em Berlim Ocidental e não tinha concluído sua experiência no mundo.

"Eu pedi a Deus para voltar", contou Seyran, hoje uma advogada de 55 anos, defensora dos direitos da mulher que agora estuda para tornar-se imã. "Tenho uma missão".

Mais de 30 anos depois, essa missão se materializou quando ela apareceu diante de uma congregação de homens e mulheres muçulmanos, ajoelhados lado a lado recitando orações na Mesquita Ibn Rushd-Goethe - a primeira casa de adoração muçulmana na Alemanha onde as mulheres, muitas das quais com seus longos cabelos descobertos, são reconhecidas como imãs. Todo muçulmano que queira entrar é bem recebido: homem ou mulher, sunita ou xiita, transgênero, gay ou heterossexual.

"Queremos enviar nossa mensagem ao Islã político", disse Seyran, no dia da inauguração. "Queremos mostrar que existe outro Islã, sem qualquer vínculo com o terrorismo".

A mesquita cresceu ao longo de mais de um ano, tornando-se uma congregação com 35 membros fixos - muitos dos quais são mulheres.

Três anos depois da chegada de mais de um milhão de migrantes muçulmanos à Alemanha em busca de asilo, os conflitos culturais a respeito de uma identidade religiosa, bem como a possível ameaça representada pelo Islã, provocaram a ascensão do nacionalismo.

Seyran considera a sobrevivência da Mesquita Ibn Rushd-Goethe uma prova de que os muçulmanos que vivem na Alemanha precisam e estão abertos a uma interpretação do Islã que reflita os valores da sociedade ocidental em que vivem.

"Alguns dias depois da inauguração da mesquita, apareceu um jovem e disse, 'vocês não vão durar muito. Os árabes nunca permitirão'". Ao contrário, centenas de pessoas de toda a Alemanha, da Europa e do exterior a visitaram ou assistiram aos serviços religiosos.

As páginas de Seyran e da mesquita no Facebook receberam inúmeras mensagens depreciativas, e até ameaças de morte. "Que Alá as ponha no bom caminho ou as destrua", alguém escreveu sob o pseudônimo de Xalo Bero, em um dos comentários mais amistosos.

A proteção oferecida pela polícia e paga pela prefeitura, desde que ela publicou o livro "O Islã precisa de uma revolução sexual", em 2009, passou a ser segurança pessoal depois que as ameaças à sua vida cresceram.

Nascida em Istambul, de mãe turca e pai curdo, ela emigrou com os pais para a então Berlim Ocidental no final dos anos 1960.

Seyran acabou compreendendo que não tinha direito às liberdades de que as mulheres não muçulmanas desfrutavam por causa de seu gênero. "Eu era jovem", escreveu em 2007. "Personificava a honra da família, e para toda a família, meu hímen - por muito tempo eu nem sequer soube o que isso significava - era mais importante que meu cérebro".

Ela fugiu de casa aos 17 anos, formou-se no curso secundário e estudou Direito na Universidade Livre de Berlim. Para se sustentar, trabalhou como conselheira em um centro para mulheres. Em setembro de 1984, estava falando com uma cliente quando um homem entrou no centro, puxou um revólver e disparou três tiros. Um tiro atingiu a cliente no estômago, matando-a; outro atingiu Seyran.

Sobreviveu e viu o suspeito, um pedreiro turco, ser absolvido por falta de provas. Ficou furiosa. Durante anos, lutou com as consequências psicológicas do ataque. Voltou à sua religião, mas novamente foi afastada das mesquitas conservadoras de Berlim, onde as mulheres eram obrigadas a orar atrás de uma cortina. Então decidiu que se a comunidade religiosa de que precisava não existia, ela a criaria. Levou anos planejando, levantando recursos e procurando um local adequado, um quarto alugado em uma igreja.

Seyran acredita que pode viver sem uma proteção 24 horas por dia.

"Tenho plena confiança nisso", afirmou, enquanto acenava para o musculoso policial postado fora do quarto: "Você logo ficará desempregado", brincou.

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