James Keivom para The New York Times
James Keivom para The New York Times

Muçulmanos organizam patrulhas em comunidades inglesas

Diante de tantas ameaças, grupo de voluntários decidiu fazer a segurança dos que partilham da mesma religião

Alexandra E. Petri, The New York Times

22 de fevereiro de 2019 | 06h00

Maeen Ali lembra quando viu pela primeira vez online a frase "Vamos punir um muçulmano por dia". A mensagem, divulgada por e-mail há menos de um ano em toda a Inglaterra, encorajava a violência com ações que iam desde arrancar o véu de uma mulher a atacar uma mesquita. A campanha de ódio fez com que a polícia de Nova York e de outras grandes cidades ampliasse as patrulhas ao redor das mesquitas e dos centros islâmicos em dias específicos.

Ali, 38, ficou extremamente preocupado com a segurança dos filhos. "Isto ferveu dentro de mim", afirmou. Imigrante iemenita, chegou aos Estados Unidos em 1990 e hoje mora no Brooklyn. "Eu disse a mim mesmo que era realmente importante reagir e proteger os muçulmanos da comunidade."

Ele é um dos 30 membros da Muslim Community Patrol & Services, todos voluntários que trabalharão no Brooklyn, com o objetivo de ampliar a sua atuação a toda a cidade. Para as patrulhas, o grupo esperava contar com  uma frota de dois carros semelhantes às viaturas policiais, com luzes de emergência vermelhas e azuis.

O grupo treinou sob a orientação de policiais de folga. "É como uma patrulha de bairro, mas com anabolizantes", brincou Noor Rabah, 31, o vice-presidente do grupo. As tarefas da patrulha, que não usará armas, incluem serviços de tradução, informações sobre nuances culturais, reportará atividades suspeitas, atuará em acidentes de trânsito e ajudará nas buscas por desaparecidos.

"Nos atentados de 11 de setembro, não foram apenas os edifícios que ruíram", afirmou Eric L. Adams, presidente do ‘borough’ do Brooklyn. "A confiança também desmoronou. Estamos tentando reconstruí-la, um tijolo de cada vez, e esta patrulha é um destes tijolos."

Os líderes informaram que o grupo é autofinanciado e usará os donativos para adquirir carros e uniformes. Os voluntários planejam trabalhar em turnos, supervisionando os horários de chegada e de saída em três escolas islâmicas, e realizando patrulhas diárias das 17h às 23h, principalmente perto das mesquitas, das paradas de ônibus e das estações de metrôs.

Os organizadores disseram que estão dispostos a conversar com os céticos, mas não pretendem responder às críticas violentas desencadeadas quando uma foto dos seus novos carros-patrulha aparecerem no Facebook e no Instagram. A hostilidade se espalhou depois que um site canadense de extrema direita, Rebel Media, postou um vídeo no YouTube. Entre os comentários online houve acusações de que o grupo era um pretexto para a aplicação da lei Shariah, e coisas piores.

Alguns membros da comunidade muçulmana também ficaram pasmos, mas por razões diferentes. O fato de os carros se parecerem com os da polícia de Nova York, que deveriam tranquilizar a população, provocou ainda mais ansiedade.

A polícia atendeu chamados de moradores preocupados depois das mensagens divulgadas na mídia social, então convocou uma reunião com membros da Patrulha da Comunidade Muçulmana para discutir parâmetros: chamar o número 911 caso seja encontrado algo suspeito, e não realizar nenhuma ação policial por conta própria. Estas patrulhas trabalham com a polícia, mas não são sancionadas nem regulamentadas pelo departamento.

Na cidade de Nova York moram, ao que se calcula, 769 mil muçulmanos. Eles representam cerca de 9% de todos os muçulmanos que vivem nos Estados Unidos, segundo a organização “Muçulmanos para o Progresso Americano”.

Em 2017, foram registrados na cidade 14 incidentes por causa de discriminação contra muçulmanos, segundo o relatório anual do Departamento de Polícia. No ano passado, foram registrados 14 incidentes contra muçulmanos nos três primeiros trimestres do ano, mostram os dados disponíveis mais recentes.

Afaf Nasher, diretora executiva da unidade de Nova York do Conselho das Relações Islâmicas Americanas, considera a patrulha mais como uma reação aos ataques contra muçulmanos, e também reflete um desejo de inserção na sociedade de maneira profunda e significativa. "Este foi uma espécie de despertar para os muçulmanos em geral", ela disse. "Vemos este movimento como uma nova maneira mais consciente dos muçulmanos de pensar em uma forma de retribuição."

Huda Quhshi, 39, proprietária do Le’Jemalik Salon & Boutique, disse que ficou feliz quando viu o vídeo de um carro de patrulha da comunidade online. A proteção adicional é bem-vinda, afirmou, principalmente para as mulheres que usam os hijabs - "verdadeiros anúncios ambulantes de uma pessoa muçulmana" - e são particularmente vulneráveis a abusos. 

Ela contou que sua filha adolescente teve que lidar este tipo de problema. "Com tudo o que está acontecendo, a gente tem a sensação de que o mundo todo está contra os muçulmanos", afirmou. "Por isso é bom saber que há alguém ali, olhando por nós."

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