Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

Mudança climática afeta teor nutritivo dos alimentos

Estudos mostram que há um futuro sombrio para bilhões de pessoas que dependem do arroz

Brad Plumer, The New York Times

04 Junho 2018 | 10h15

WASHINGTON - Pesquisadores da mudança climática começaram a se dar conta, nos últimos anos, de que o excessivo dióxido de carbono que a humanidade bombeia na atmosfera não está apenas aquecendo o planeta, também está tornando menos nutritivas algumas de nossas plantações mais importantes.

Cientistas descobriram em um novo estudo que o arroz exposto a níveis elevados de dióxido de carbono contém quantidades menores de importantes nutrientes.

As consequências potenciais deste fenômeno para a saúde humana são enormes, considerando que já são bilhões as pessoas em todo o mundo que não ingerem proteínas e vitaminas, bem como outros nutrientes, em quantidades suficientes.

“Quando estudamos a segurança dos alimentos, frequentemente nos concentramos no fato de que a mudança climática poderá afetar a produção das lavouras”, disse Lewis H. Ziska, fisiologista vegetal do Departamento da Agricultura dos Estados Unidos e coautor do estudo. “Mas a qualidade destas culturas e seu teor nutricional são igualmente importante, e nem sempre têm sido analisados de maneira mais profunda”.

No estudo, publicado em maio pela revista “Science Advances”, Ziska e seus colegas expuseram campos de arroz experimentais  na China e no Japão aos mesmos níveis elevados de dióxido de carbono que, segundo se prevê, ocorrerão mais perto do final do século em consequência da atividade humana. A maioria das 18 variedades de arroz que foram cultivadas continha um teor consideravelmente menor de proteínas, zinco e ferro do que o arroz cultivado hoje em dia. Todas as variedades de arroz apresentaram declínios drásticos das vitaminas B1, B2, B5 e B9, embora contivessem níveis mais elevados de vitamina E.

Os pesquisadores decidiram estudar o arroz porque mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo dependem desta cultura como sua principal fonte de alimento.

“Em um país como o Bangladesh, o arroz fornece 70% das calorias diárias necessárias e não há muitas outras oportunidades de conseguir esses nutrientes”, afirmou Kristie L. Ebi, professora de saúde pública da Universidade de Washington e coautora do estudo.

O documento se baseia em um estudo publicado na revista “Nature” em 2014 e conclui que elevados níveis de dióxido de carbono reduziram a quantidade de zinco e ferro encontrados no trigo, no arroz, na ervilha forrageira e na soja.

Em plantas como arroz e trigo, que realizam o que conhecemos como fotossíntese C3, o aumento dos níveis de dióxido de carbono pode fazê-las produzir mais carboidratos, diluindo alguns dos componentes mais nutritivos. Mas os cientistas ainda tentam compreender por que alguns compostos, como a vitamina B, ficam diluídos e outros não, ou por que algumas variedades de arroz sofrem declínios mais acentuados de vitamina B do que outras.

Com pesquisas mais aprofundadas, os cientistas poderiam tentar cultivar ou criar pela engenharia genética novas variedades de culturas que preservam grande parte do seu valor nutricional apesar do aumento do dióxido de carbono. Mas este poderá ser um processo extremamente complexo, aponta Ziska, considerando que todas as linhagens de arroz testadas em seu estudo mostraram declínios significativos da vitamina B.

Se os cientistas que estudam tais culturas não puderem solucionar o problema, serão necessárias mudanças mais profundas para neutralizar o efeito negativo para a nutrição no mundo todo. 

“Consequentemente, as pessoas precisarão de dietas mais diversificadas com uma variedade de fontes de alimentos de qualidade”, afirmou Kristie L. Ebi, “e este já constitui um grande desafio”.

Outra solução possível seria a redução da quantidade de dióxido de carbono que a humanidade emite.

“A ideia de que os alimentos poderão tornar-se menos nutritivos foi uma surpresa, não é algo intuitivo”, explicou Samuel S. Myers, um cientista dedicado à pesquisa do Harvard University Center for the Environment, que trabalhou no estudo publicado pela “Nature” em 2014. “Mas acho que devemos esperar outras surpresas. Estamos alterando completamente as condições biofísicas em que se baseia nosso sistema alimentar, e ainda conhecemos muito pouco sobre a maneira como essas interferências se espalharão pelo ecossistema e afetarão a saúde humana”.

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