Josh Haner/The New York Times
Josh Haner/The New York Times

Mudança climática ameaça patrimônio cultural da Escócia

Cerca de metade dos sítios arqueológicos do país precisam ser salvos da ação humana

Jim Dwyer, The New York Times

03 Outubro 2018 | 15h15

Perto do litoral norte da Escócia, as paisagens verdes das Ilhas Orkney guardam um tesouro de objetos da vida cotidiana antes do começo da escrita da história.

Mais de 3 mil sítios arqueológicos resistiram por milênios, espalhados pelas cerca de 70 ilhas que formam o arquipélago.

Em Skara Brae, um dos vilarejos da idade da pedra mais bem preservados da Europa, cozinhas construídas perto de 3180 a.C. são equipadas com armários e lareiras.

Hoje, algumas pessoas trabalham para salvar esses lugares para a posteridade e defendê-los das mudanças climáticas precipitadas pela atividade humana.

Cerca de metade dos 3 mil sítios das Ilhas Orkney, muitos construídos antes de Stonehenge ou das pirâmides, está ameaçada por essas mudanças, de acordo com o arqueólogo do condado. Alguns já estão se perdendo.

Desde 1970, a erosão nas praias das Ilhas Orkney foi duas vezes mais rápida do que no século anterior. Outras que pareciam estáveis começaram agora a encolher. A chuva, cada vez mais forte e frequente, está dissolvendo as camadas de solo e areia que protegem os restos de civilizações.

Em muitos locais, o único tipo de preservação plausível é a documentação - feita com agilidade. Vindos de todo o mundo, tropas de arqueólogos e estudantes visitam as ilhas no verão pra cavar, limpar e catalogar os locais ameaçados. Eles trabalham com urgência. As histórias das Ilhas Orkney são registradas numa tinta evanescente.

“O patrimônio cultural está caindo no mar", disse a professora Jane Downes, do Instituto de Arqueologia da Universidade das Highlands e Ilhas. “É um sinal muito dramático e óbvio da elevação do nível do mar e maior frequência nas tempestades.”

Numa breve caminhada pela praia sul da Ilha Rousay, um impressionante panorama da atividade humana pode ser visto. Quase dois quilômetros cobrem um período de 50 séculos: as idades da pedra, bronze e ferro. Os pictos, a era dos vikings, o domínio nórdico, e os senhores feudais escoceses.

Em Knowe of Swandro, na Ilha Rousay, as tribos construíam sobre os restos de seus predecessores, criando camadas de habitação que remontam ao período neolítico. No verão deste ano foi descoberta em Swandro uma bigorna usada 1,5 mil anos atrás por um ferreiro picto.

Em Skara Brae, agências públicas usam lasers para mapear as mudanças na praia, cada vez mais invadida pela Baía de Skaill.

Uma tempestade revelou partes de Skara Brae em 1850. Para proteger o sítio do avanço da baía, foi construída uma muralha oceânica em 1927. Na época de mais prosperidade do vilarejo a baía não existia.

Com estudantes e arqueólogos, a professora Downes passou os três verões mais recentes em Cata Sand, Sanday, onde ela e os colegas encontraram uma casa do início do neolítico. Ali, a praia deve encolher mais de 20 metros até 2050.

“Este sítio é muito importante para entendermos as vidas das sociedades antigas", disse Ross Drummond, estudante da Highlands e Ilhas. “A arqueologia se perderá para sempre, e as gerações futuras terão apenas nossos registros das descobertas para compreender a história de Cata.”

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