Cesar Manso/Agece France-Presse — Getty Images
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Florestas da Europa estão sob risco de grandes incêndios

Em 2019, a seca e o calor intenso ajudaram a espalhar incêndios por cerca de 3.400 quilômetros quadrados no continente, área de terra arrasada 15% maior que a média anual da década

Somini Sengupta, The New York Times

21 de fevereiro de 2020 | 06h00

TIVISSA, ESPANHA - Ultimamente, as florestas estão recebendo atenção de alto nível. Em janeiro, um esforço global para plantar um trilhão de árvores foi anunciado em uma reunião de líderes empresariais e políticos em Davos, na Suíça. O plantio dessa quantidade, dizia-se naquela reunião do Fórum Econômico Mundial, ajudaria bastante no combate às mudanças climáticas.

No entanto, ainda que as árvores – e particularmente as florestas – sejam vitais para a captura de carbono, hoje absorvendo 30% do dióxido de carbono que aquece o planeta, elas também são extremamente vulneráveis às perturbações climáticas. Em climas mais quentes, secos e inflamáveis, como aqui na região do Mediterrâneo, as florestas podem morrer lentamente devido à seca, ou podem se incendiar de uma hora para outra, liberando na atmosfera todo o carbono armazenado em seus troncos e galhos.

Isto levanta uma questão urgente: qual a melhor forma de cuidar das florestas em um mundo que os humanos alteraram tão profundamente? “Precisamos decidir como será a floresta para um futuro de mudanças climáticas”, indicou Kirsten Thonicke, ecologista de incêndios do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático na Alemanha.

Agora, o renascimento das florestas europeias está dominando essa discussão. Hoje, cerca de 40% do território da União Europeia está coberto por árvores, o que a torna uma das regiões mais ricas em florestas do mundo. Mas a região também está sob risco iminente de incêndios florestais.

Em 2019, a seca e o calor intenso ajudaram a espalhar incêndios por cerca de 3.400 quilômetros quadrados no continente, uma área de terra arrasada 15% maior que a média anual da década, de acordo com dados preliminares divulgados em janeiro pelo Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais.

Marc Castellnou, de 47 anos, analista de incêndio do Corpo de Bombeiros da Catalunha, viu essa mudança em primeira mão aqui nas colinas quentes e secas da Catalunha, no nordeste da Espanha. Sua família vive há gerações em uma vila medieval com vista para o rio Ebro.

A família de sua mãe cultivava amêndoas aqui na região. Os terraços que seus antepassados cavaram nessas rochas duras ainda permanecem. Mas o pomar de amendoeiras está abandonado há muito tempo. Em seu lugar, surgiu uma floresta de carvalhos baixos e pinheiros brancos. No pasto onde as cabras pastavam agora existe um tapete de grama seca. Paisagem perfeita para o fogo.

O que aconteceu com a fazenda de seus ancestrais se repetiu em toda a Europa. À medida que os agricultores trocaram o trabalho na terra por empreendimentos menos exigentes e mais lucrativos, as florestas voltaram.

Agora, Castellnou está pondo fogo em algumas árvores, livrando-se das ervas e dos arbustos baixos, para que as chamas não possam subir tão facilmente até as copas dos pinheiros jovens e frágeis.

A última coisa que ele quer é que seus dois filhos herdem uma encosta coberta de mato seco e inflamável. “As mudanças climáticas estão transformando tudo”, disse Castellnou. “Estamos tentando construir algum tipo de proteção nesta paisagem”.

No ano passado, os incêndios florestais da Europa se alastraram até o norte da Suécia. Secas e infestações de besouros mataram partes de florestas na Alemanha. A Grã-Bretanha teve mais incêndios do que nunca. A Espanha viu um dos aumentos mais acentuados no número de focos de fogo. A União Europeia descreveu os incêndios florestais como “uma ameaça séria e crescente”.

Em toda a Europa, entre 1950 e 2010, em meio à rápida reconstrução do pós-guerra, as florestas e os campos cresceram cerca de 400 mil quilômetros quadrados. Pinheiros brancos e longilíneos dominaram as encostas, amontoados um ao lado do outro. Gramíneas cresceram por toda parte.

Quando os catalães migraram para as cidades, surgiram os sinais das mudanças climáticas. As temperaturas quebraram recordes. A grama ficou seca. Os pinheiros brancos começaram a soltar suas agulhas.

Em um dia excepcionalmente quente do verão passado, na fazenda de um criador de aves, uma pilha de esterco pegou fogo, como montes de dejetos de animais já haviam feito antes. Mas o vento forte impulsionou as brasas pelas colinas, causando incêndios a até 20 quilômetros de distância.

O fogo, observou Castellnou, é a maneira que a natureza tem de remodelar a paisagem para o futuro. O que nascerá nessas colinas desnudas, ele explicou, será mais resistente ao novo clima.

Castellnou é a favor do que chama de queimas gerenciadas, as quais acabam com os arbustos baixos, para impedir que o próximo incêndio saia de controle. E, às vezes, ele prefere deixar o fogo queimar, pois é parte da ecologia natural da floresta. Os pinheiros brancos, por exemplo, só se reproduzem durante os incêndios, quando suas vagens explodem com o calor. “Em vez de combater o fogo, precisamos fazer as pazes com ele”, aconselhou.

A única maneira de impedir que a floresta fique seca antes de seus filhos crescerem, segundo ele, é gerenciar a paisagem. “Você não consegue mais ler os sinais”, afirmou. “Você não sabe o que vai acontecer no futuro. É como se sentir estranho dentro da sua própria casa”. / GENEVA ABDUL CONTRIBUIU PARA A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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