Eric Thayer/The New York Times
Eric Thayer/The New York Times

Como a Califórnia se tornou o marco zero dos desastres provocados pela mudança climática

A engenharia e a gestão do solo que possibilitaram o enorme crescimento do estado o deixaram mais vulnerável aos choques climáticos - e eles estão piorando

Christopher Flavelle, The New York Times – Life/Style

04 de novembro de 2020 | 05h00

A Califórnia é uma das maravilhas dos Estados Unidos. Transportando enormes quantidades de água e extinguindo os incêndios florestais durante dezenas de anos, o estado transformou a sua árida paisagem montanhosa no lugar mais rico, populoso e abundante da nação. Mas agora, estas mesmas realizações deram a Califórnia uma nova categoria indesejada de superlativos.

Este ano, o estado registrou a pior temporada de incêndios florestais de todos os tempos. E isso se seguiu ao mês de agosto mais quente já registrado; a uma seca impiedosa que durou de 2011 até o ano passado; e, há três anos, a uma de suas piores emergências de inundações, quando pesadas chuvas levaram ao limite a maior barragem do estado, obrigando mais de 180 mil pessoas a abandonar suas casas.

As mesmas paisagens criadas pelo homem que permitiram o enorme crescimento da Califórnia e deram origem a uma economia de US$ 3 trilhões, onde vive um em cada 10 americanos, também a deixaram mais exposta a choques climáticos, afirmam especialistas. E eles só tendem a piorar.

“Existe a convicção de que nós podemos manipular o mundo de acordo com a nossa vontade”, disse Kristina Dahl, cientista sênior do clima em São Francisco para a Union of Concerned Scientists. “A mudança climática está expondo as vulnerabilidades dos sistemas que nós fabricamos”.

Estes sistemas incluem algumas das maiores realizações na infraestrutura pública dos EUA, pela transferência de enormes quantidades de água das montanhas até a costa e do norte para o sul; pela criação de cerca de 1.500 reservatórios a fim de armazenar a água em caso de necessidade; domando os incêndios que fazem parte dos ecossistemas florestais, tornando mais terra vivível para milhões de pessoas, mas abastecendo estas florestas com combustível durante este processo; com a construção de densos centros urbanos ao longo de um litoral suscetível à erosão e a inundações.

Estas realizações refletem o otimismo que define a Califórnia, segundo R. Jisung Park, professor adjunto de política pública na Universidade da Califórnia, Los Angeles, que estuda a adaptação ao clima. Mas como grande parte do que sustenta a vida dos americanos modernos, eles não se destinavam a suportar os extremos cada vez mais duros da mudança climática.

Os sistemas criados pelo homem que sustentam a população e a economia da Califórnia deixaram o estado particularmente vulnerável. Os incêndios florestais são apenas o mais recente exemplo de que a mudança climática pode fazer com que tais sistemas não naturais podem falhar.

Estes incêndios são, em parte, o resultado do aumento das temperaturas e das condições mais secas, afirmam os cientistas, o que facilita o surgimento de fogos, e os torna cada vez maiores, mais intensos, e mais assustadores. “Às vezes, nós nos sentimos realmente pequenos e indefesos”, afirmou Mandy Beatty, que administra e mantém as trilhas das florestas da Sierra Nevada para a ONG Sierra Buttes Trail Stewardship.

Em uma lousa em sua casa no Condado de Plumas, à margem das florestas, ela registra quanto tempo ela e o marido suportaram a fumaça. O incêndio, que continua devastando, fica do outro lado da montanha. A intensidade do fogo reflete também décadas de decisões políticas que alteraram essas florestas, segundo Robert Bonnie, que supervisionou o Serviço Florestal Americano no governo do presidente Barack Obama.

E tais decisões começam a cobrar o seu pago. No esforço para proteger as áreas habitadas e encorajar novas construções, durante dezenas de anos os governos suprimiram incêndios que ocorrem naturalmente, permitindo o acúmulo de vegetação que proporcionaria combustível para incêndios futuros.

Mesmo depois que as desvantagens desta estratégia se tornaram claras, as autoridades continuaram relutando a reduzir a vegetação por meio de incêndios controlados, temendo preocupar os moradores com a fumaça ou o começo de incêndios que poderiam acabar fugindo do controle. A estratégia tornou as florestas californianas mais confortáveis para os cerca de 11 milhões de pessoas que atualmente vivem nelas ou no seu entorno.

Mas também as tornou mais suscetíveis a fogos catastróficos. “Nós praticamente criamos esta dívida com o fogo”, afirmou Bonnie. “As pessoas terão de suportar a fumaça e o risco”. O presidente Donald Trump, aparentemente referindo-se ao aumento da vegetação, respondeu aos incêndios da Califórnia mandando o estado “limpar o seu chão”.

Ocorre que a maioria das florestas da Califórnia pertence à federação, observou Bonnie, e Trump tratou de cortar os gastos com o manejo das florestas. Bonnie acrescentou que os combustíveis que mais importam não estão no chão da floresta, mas nas árvores em si – e a melhor solução é deixar que queimem ainda mais, mas de maneira controlada.

Outro exemplo da paisagem fabricada da Califórnia é a expansão do sistema de transporte e armazenamento da água: 75% da precipitação se dá ao norte de Sacramento, segundo Jeffrey Mount, pesquisador sênior do Public Policy Institute of California. Mas 75% do uso da água do estado ocorre ao sul de Sacramento.

Os padrões de precipitação estão se tornando cada vez mais extremos: os anos de seca são cada vez mais secos, obrigando as cidades e os produtores rurais a esvaziarem os seus aquíferos subterrâneos. “Esta não é uma resposta sustentável”, afirmou Frances Moore, professora adjunta de economia ambiental e das ciências climáticas da Universidade da Califórnia em Davis.

Ao mesmo tempo, os períodos de chuva estão se tornando mais intensos, o que traz problemas próprios. As chuvas pesadas ameaçam sobrecarregar a vasta rede de aquedutos, reservatórios e barragens que represam esta água. Isto aumenta a probabilidade de uma catástrofe semelhante à que quase ocorreu há três anos, disse Mount.

"Uma combinação de chuvas intensas e danos estruturais ameaçou a Barragem Oroville, a mais elevada da nação, cujo rompimento provocaria uma inundação desastrosa afetando a região norte de Sacramento. Oroville provavelmente não seria o único evento do gênero. A Califórnia tem mais barragens consideradas “de alto risco” do que quase todos os outros estados, segundo dados da Associação das Autoridades de Segurança de Barragens do Estado.

Auditoria do estado da Califórnia relatou em janeiro que, embora o estado tenha reformado a barragem de Oroville, outras em todo o estado continuam apresentando riscos. “Há 40 milhões de pessoas que dependem deste sistema, que foi projetado no século passado”, afirmou Mount. “Não surpreende que estejamos vendo tantas crises”.

A mudança climática ameaça também a costa da Califórnia, a mais extensa da nação depois da do Alaska e da Flórida. Esta orla marítima está menos exposta fisicamente à elevação do nível dos mares do que partes de Atlântico, onde os níveis da água estão subindo mais rapidamente, segundo Dahl, da União dos Cientistas Interessados.

Mas a costa mais densamente povoada da Califórnia juntamente com o uso dos depósitos de lixo para permitir a expansão das comunidades na orla marítima e as suas famosas casas sobre os rochedos significam que o estado tem mais pessoas em risco na eventualidade da elevação dos mares.

“Nós construímos exatamente na beira do mar”, afirmou Dahl. “Alteramos a costa para atender às nossas necessidades, e estamos vendo cada vez mais as limitações desta estratégia”. Para alguns, a vulnerabilidade da Califórnia à mudança climática é apenas mais um desafio para o estado, ao qual cabe encontrar uma solução, enquanto continua crescendo.

Annie Notthoff, especialista em água da Califórnia no Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, afirmou que o estado já conseguiu progressos em termos de eficiência da água, encorajando prefeituras e condados a reduzir o uso da água e a reciclar a água usada. “Acho que se formos inteligentes e usarmos novas tecnologias, haverá espaço para todos”, afirmou Notthoff. “Acredito na Califórnia.

Este otimismo é compartilhado, talvez sem grandes surpresas, pelas autoridades do estado. Kate Gordon, assessora sênior do clima para o governador Gavin Newsom, enumerou uma série de medidas que o estado está tomando para fazer frente aos riscos da mudança climática, como a transferência de novos projetos de incorporações para as cidades, longe das margens das florestas, e a construção de estradas costeiras e pontes tendo em mente a elevação do nível dos mares.

“Permitimos um padrão de expansão totalmente tentacular, que na minha opinião não poderemos continuar mantendo”, afirmou Gordon. “Temos uma grande capacidade para sermos mais compactos, para sermos mais eficientes”. Outros se mostraram mais cautelosos. Solomon Hsiang, professor de política pública da Universidade da Califórnia em Berkeley, e codiretor do Climate Impact Lab, da universidade, descreveu como foi ficar trancado em casa enquanto a fumaça enchia o céu, e andar pela própria casa com um marcador da qualidade do ar manual para saber quais eram os cômodos com a pior qualidade do ar.

“Todos os que podiam deixar a cidade, a deixaram”, observou. A mudança climática na Califórnia é mais do que apenas uma crescente sequência de desastres a curto e longo prazo, segundo Hsiang. Ela está também contestando a convicção de que o estado pode tomar as medidas que quiser, isolado das ameaças físicas ao seu redor. “A Califórnia era uma terra de oportunidades”, afirmou Hsiang. “Fala-se que nós podemos ter tudo, mas isto não corresponde exatamente à verdade”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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