(Adam Amengual/The New York Times)
(Adam Amengual/The New York Times)

Mudando o rosto dos romances em nome da diversidade

A escritora Helen Hoang escreveu um livro sobre uma mulher que luta contra o autismo

Alexandra Alter, The New York Times

19 Julho 2018 | 10h00

Helen Hoang, que passou boa parte da vida em Minnesota, sofria de ansiedade social e tinha muita dificuldade para fazer amigos. Encontrou refúgio na literatura romântica, o que lhe permitiu experimentar sentimentos intensos, sempre com a promessa de um final feliz. “Era como se eu tivesse encontrado uma droga concentrada, pura”, ela disse.

Mais tarde, já mãe dos seus dois filhos, depois dos 30 anos, Helen se deu conta de que se encontrava no espectro autista, um distúrbio que tornava difícil para ela manter uma conversação e conhecer pessoas. Novamente recorreu ao romance. Mas desta vez, ela própria escreveu a história.

Agora, os fãs da literatura romântica estão apaixonados pelo livro de estreia de Helen Hoang, “The Kiss Quotient”, uma história de amor multicultural centrada em uma mulher autista que tem dificuldade para viver as nuances do namoro e do cortejamento. Os leitores invadiram o site Goodreads com mais de 7 mil notas positivas, e o livro, publicado em junho, já está na quarta impressão.

O seu sucesso é mais surpreendente se considerarmos a extraordinária ausência da diversidade no gênero romântico. Os romances publicados pelas grandes editoras tendem a se concentrar em personagens brancos, e raramente retratam gays, lésbicas, bissexuais, ou pessoas transgênero nos papéis principais, ou heroínas com deficiências.

Mas a paisagem começa lentamente a mudar, à medida que escritores diferentes conseguem entrar no gênero, e as editoras arriscam com histórias de amor que refletem uma gama maior de experiências. A Forever Yours publica Karelia Stetz-Waters, que escreve romances sobre casais de lésbicas. O livro de estreia de Uzma Jalaluddin, “Ayesha at Last”, se desenrola em uma comunidade muçulmana do Canadá.

“As leitoras querem livros que refletem o mundo em que vivem, e não se contentam com um livro sobre uma cidadezinha onde todas as pessoas são brancas”, disse Leah Koch, coproprietária da Ripped Bodice, uma livraria de Culver City, na Califórnia.

Leah e sua irmã Bea avaliaram que dos 3.752 romances publicados por 20 das principais impressões nos Estados Unidos, em 2017, somente cerca de 6% foram escritos por autores não brancos.

As editoras afirmam que é uma dificuldade diversificar porque a maioria das obras que elas recebem são de autores brancos. O maior grupo deste gênero, o Romance Writers of America, com cerca de 10 mil membros, constatou em uma pesquisa que cerca de 86% dos seus integrantes são brancos. Agora, está sendo investigado a respeito do Rita Award, que nunca foi dado a um escritor afro-americano nos 36 anos de história do prêmio. Os autores negros representam menos de 1% dos finalistas.

“Foi um sinal de alerta”, disse Dee Davis, presidente do grupo, referindo-se aos resultados da pesquisa. “Temos muito trabalho pela frente”.

Muitos escritores pertencentes a estas minorias afirmam que enfrentam mais dificuldades do que seus colegas brancos para contratar um agente, encontrar uma editora, conseguir resenhas e convencer os donos de livrarias a aceitarem seus romances. 

Beverly Jenkins, uma escritora do gênero romântico afro-americana, que começou publicando romances históricos nos anos 90, disse que atualmente há uma grande produção de romances, mas poucos são adquiridos pelas principais casas. “Há centenas de mulheres de cor que estão escrevendo romances”, ela disse. “A questão é conseguir que sejam publicados a fim de serem vistos”.

Algumas escritoras recorreram a pequenas editoras, às exclusivamente digitais ou  publicam pagando do próprio bolso.

Alyssa Cole publicou romances ambientados na Guerra Civil com protagonistas afro-americanos. Ela disse: “Uma parte do problema são as editoras que dizem: ‘Muito bem, precisamos de maior diversidade, então os nossos escritores brancos escreverão de maneira diferenciada’ ”.

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