Amanda Lucier para The New York Times
Amanda Lucier para The New York Times

Muitas maneiras de ser menina, mas só uma de ser menino: as novas regras de gênero

Estudo aponta que garotas se sentem fortalecidas, exceto quanto à aparência. Já meninos sentem que precisam ser fortes e atléticos

Claire Cain Miller, The New York Times

27 Setembro 2018 | 10h15

As garotas sabem que podem ser tudo o que quiserem ser, e isto é evidente. Elas aproveitam das oportunidades que estavam fechadas às gerações anteriores - no campo da ciência, da matemática, os esportes e em cargos de liderança.

Mas estão recebendo também outra mensagem: sua aparência física é a coisa mais importante. Aparentemente, os garotos ficaram em grande parte para trás na discussão sobre igualdade de gêneros. 

Sua vida ainda está condicionada pelas normas vigentes para o gênero tradicional: eles precisam ser fortes, atléticos e inabaláveis.

São as conclusões de uma nova pesquisa realizada com mil crianças e adolescentes americanos de idade entre 10 e 19 anos, juntamente com outra pesquisa nesta faixa etária. Elas mostram atitudes de gênero de uma geração prestes a se tornar adulta. Na pesquisa, realizada pela empresa especializada PerryUndem, a maioria das garotas disse que o preconceito de sexo continua sendo um problema - entretanto, em muitos aspectos, elas percebem que sua posição se fortaleceu.

“Estou plenamente preparada”, disse Isabelle Reksopuro, 13, uma das oito alunas do oitavo ano do ensino fundamental da escola Happy Valley, em Happy Valley, Oregon, entrevistada recentemente. Ela é a capitã da equipe de debates e membro do conselho de estudantes, e pretende tornar-se uma cientista.

As respostas dadas por meninos e meninas às perguntas sobre os seus objetivos e aspirações, se assemelham. Setenta e cinco por cento disseram que ter uma carreira de sucesso é muito importante. 

Aproximadamente trinta e três por cento de ambos os gêneros, afirmaram que casar ou ter filhos é um objetivo muito importante. As meninas, assim como os meninos, disseram que matemática ou ciências era a sua matéria preferida. Elas disseram que, em geral, eram tratadas equitativamente em comparação aos meninos.

Entretanto, quando a pergunta se referiu ao seu corpo, as meninas disseram que não se sentiam iguais. Cerca de 75% das meninas entre 14 e 19 anos ouvidas na pesquisa afirmaram que se sentiam julgadas como um objeto sexual, ou não seguras enquanto meninas. Na maior parte, afirmaram que a sociedade considera a beleza física o traço feminino mais importante - visão que as mulheres adultas compartilham, mostrou a pesquisa.

As garotas também afirmaram, em geral mais do que os garotos, que sentiam muita pressão a colocar os sentimentos dos outros antes dos próprios. Cerca da metade delas afirmou que ouvia diariamente garotos fazendo comentários ou brincadeiras sexuais a respeito das meninas, inclusive 25% delas meninas entre os 10 e os 13 anos.

As adolescentes sentem tais pressões no mundo inteiro, mostrou o Global Early Adolescent Study da Johns Hopkins e da Organização Mundial da Saúde.

“Ficamos pasmos - e eu não sou uma pessoa que fica pasma facilmente, depois de clinicar há 40 anos com adolescentes - com a hipererotização de crianças novas”, afirmou Robert Blum, o principal pesquisador do estudo.

A pesquisa estudou ainda crianças dos 10 aos 14 anos em áreas urbanas pobres em 15 países, e as normas de gênero se mostraram consideravelmente semelhantes. “Em Hanói, Xangai ou Baltimore, você percebe esta mesma situação”, disse Blum. “O que se ouve é sobre a vulnerabilidade das meninas e a fraqueza das meninas, a força dos meninos e a independência dos meninos”.

As meninas da Happy Valley foram unânimes quanto ao que valorizam mais em si mesmas: inteligência e confiança. Mas também concordaram que a sociedade valoriza mais o seu aspecto físico.

Deborah Tolman, professora de Psicologia da City University de Nova York, que pesquisa a sexualidade adolescente, disse: “É esta a contradição que colocamos na frente das meninas: você deve sentir-se confiante, ir bem na escola e praticar esportes, mas ao mesmo tempo supõe-se que você seja também um bom objeto sexual”.

Isabelle disse que o romance é a exceção à igualdade que sente na escola e na vida. Recentemente, ela rejeitou um pretendente, um garoto. “Ele ficou louco, mas de uma maneira ridícula; ele me xingou, me insultou”, contou Isabelle. “Quando nós somos rejeitadas, não explodimos porque eles não gostam da gente. Os garotos se acham privilegiados.”

Os conceitos tradicionais sobre os meninos ainda são muito fortes nos Estados Unidos, mostrou a nova pesquisa. Eles afirmaram que a força e a resistência são os traços característicos masculinos mais valorizados na sociedade. Setenta e cinco por cento disseram sentir-se pressionados a ser fortes fisicamente, e a maioria se sentiu pressionada a praticar esportes.

À pergunta sobre o que a sociedade espera que os meninos façam quando ficam com raiva, a maior parte disse que se supõe que eles sejam agressivos ou estoicos. Quando eles se sentem tristes ou assustados, se sentem pressionados, ao contrário, a se mostrarem duros. As garotas foram mais capazes de se expressar, chorando, gritando ou falando a respeito dos seus sentimentos, afirmaram as entrevistadas.

Na Happy Valley, os meninos disseram que as qualidades que eles mais valorizavam em si mesmos eram ambição e inteligência - mas que a sociedade valoriza mais a força masculina.

“Há muitas coisas que se supõe que ‘os verdadeiros homens’ devam fazer que eu não faria, como algo particularmente perigoso fisicamente, e a prática de esportes”, afirmou Muyang Yan, 12, que começou  um clube de codificação e quer fazer ciência da computação.

Na pesquisa, 75% dos adolescentes havia ouvido falar do movimento #MeToo. A maioria das meninas, e um terço dos meninos disseram que isto fez com que se sentissem capazes de contar a alguém se foram assediados ou assaltados sexualmente.

“Eu sei que posso, se isto acontecer comigo”, disse Hiree Felema, 13, “não haverá chance de eu ficar calada a respeito’.

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