Jasin Boland/Walt Disney Studios Motion Pictures
Jasin Boland/Walt Disney Studios Motion Pictures

Mulan, uma heroína mais versátil: há uma versão para cada era

A lenda da mulher guerreira mudou muito ao longo de cerca de 1.500 anos

Robert Ito, The New York Times - Life/Style

10 de setembro de 2020 | 05h00

Quando há alguns anos começaram a surgir rumores de uma nova versão, de um filme de ação, não musical, de Mulan, muitos fãs radicais do original da Disney de 1998 reclamaram. Nenhum número musical ou belas baladas? Sem o gracioso dragão Mushu, ou Li Shang, o interesse amoroso conflitante do filme?

Muitos acharam que os cineastas não estavam sendo fiéis à lenda de Mulan – ou pelo menos à própria versão da Disney da personagem. Mas Mulan sempre foi a a mais versátil das heroínas. Bem antes de os fãs criticarem a Disney por tomar liberdades com sua amada heroína animada, poetas, escritores, dramaturgos e cineastas criaram inúmeras versões totalmente diferentes da lendária guerreira.

No caso de alguns, ela é uma aguerrida general do Exército; para outros ela tem poderes mágicos, ou é uma boa atiradora com seu arco. Em uma versão animada, ela é um inseto. Durante séculos, ela foi celebrada em peças de teatro e óperas, em musicais e séries de TV, em livros ilustrados de contos e romances e na ficção para jovens adultos.

No cinema, estrelou filmes mudos (Hua Mulan Joins the Army, de 1927); um musical a cores dos lendários Shaw Brothers (Lady General Hua Mu-Lan, de 1964), uma áspera guerreira épica repleta de ação Mulan Rise of a Warrior, de 2009, com Zhao Wei) – com também um certo filme animado da Disney trazendo um pequeno dragão vermelho.

Neste filme mais recente, que estreou em quatro de setembro no Disney+, a atriz sino-americana Yifei Liy é a estrela de uma história que mistura sequências impressionantes de batalhas (o orçamento de US$ 200 milhões do filme incluiu uma parte para 80 cavaleiros do Cazaquistão e Mongólia) com uma história de androginia que aparece muito nas entrelinhas. E embora não exista nenhum Mushu (precisamos que Mulan encare seus próprios desafios e tome suas próprias decisões”, disse a diretora Niki Caro), há várias referências ao filme animado de 1998.

E também alusões a várias versões mais antigas da história, especialmente a Balada de Mulan, poema do quinto ou sexto século que dá início a tudo. Balada de Mulan é uma história relativamente simples, um poema com apenas seis estrofes. Mulan deixa seu vilarejo para assumir o posto do pai no Exército do imperador.

Por vários anos, ela presta o serviço militar nobremente, disfarçada de homem; no final, recusa as recompensas e honras e volta à sua casa, onde seus antigos camaradas ficam sabendo enfim que, surpresa, Mulan é uma personagem feminina. O poema termina com a imagem de dois coelhos (Como você distingue a fêmea do macho?) correndo um atrás do outro – uma cena que é repetida no novo filme.

“Toda vez que havia uma imagem da balada, eu quis trazê-la para o filme”, disse Caro. “Obviamente, grande parte da audiência internacional pode não conhecer o poema, mas para aqueles que conhecem é legal”. Com base no poema original, versões subsequentes da história de Mulan acrescentaram enredos e detalhes para complementar a história. Na peça do século 16, The Heroine Mulan Goes to War in Her Father’s Place, ela tem os pés amarrados.

“Na época, as mulheres das classes mais altas tinham os pés amarrados, e a peça quis se certificar de que Mulan fosse vista como o ícone ideal da feminilidade”, disse Lan Dong, autor de Mulan’s Legend and Legacy e professor de inglês na universidade de Springfield em Illinois.

“Ela tinha de ser perfeita. No romance de 1695, The Romance of Sui and Tang Dynasties, Mulan encontra uma amiga combatente que se torna sua irmã jurada; no final Mulan tira sua própria vida quando Khan a convoca para ser sua concubina. “Muitas versões enfatizam sua virtude”, disse Dong.

“Mesmo depois de todos aqueles anos e tudo o que ela vivenciou, ela se manteve pura”. As adaptações para a tela ampliaram ainda mais a lenda. No filme chinês de 1939, Mulan Joins the Army, a heroína é uma caçadora habilidosa, uma guerreira e finalmente general; o filme termina com Mulan como uma noiva enrubescida. O filme-ópera de Huangmei, Lady General Hua Mu-Lan, talvez seja o mais exuberante do grupo das versões pré-Disney.

Além das sequências de combate ostentosas, o guarda-roupa brilhante e os jogos de beber (durante os quais Mulan fica embriagada), o filme tem música em abundância. Todo mundo canta, sobre tudo o que é imaginável: a asma do pai, a importância da devoção filial; os papéis de gênero e a divisão desigual do trabalho em casa, aqueles bárbaros temerários e agressivos invadindo nossa pátria, e assim por diante.

Quando os cineastas da Disney começaram a trabalhar nesta história mais recente de Mulan, eles foram em busca de várias versões antigas para se inspirarem. Havia a balada original, é claro, como também variações regionais, que analisaram com a ajuda de conselheiros da China.

Examinaram peças e filmes, incluindo o drama com Zhao Wei. “Nós fomos a fundo para examinar o arco da história, ver que elementos se mantiveram coerentes no decorrer do tempo e que elementos foram adaptados para se ajustarem ao tempo e à mídia em que a história estava sendo recontada”, disse Jason Reed, um dos produtores. Em muitas narrativas, Mulan é um guerreiro habilidoso antes de ingressar no Exército.

A versão animada retratou-a como uma noviça, mas na mais recente versão vemos que ela foi treinada pelo pai desde quando era criança. Outro tema central da lenda é a devoção filial, com Mulan sendo abençoada pelos pais antes de partir para a guerra. A devoção filial ordena que ela retorne à casa dos seus pais depois de o seu serviço militar terminar. Seu uso de roupas masculinas é perdoado (afinal era uma guerra) desde que ela retome seu lugar apropriado como filha e esposa, após a guerra.

“É por isto que, apesar das suas transgressões, ela foi colocada num pedestal, mesmo numa China pré-moderna”, disse Dong. “Ela infringiu as regras sem ameaçar o sistema”. E como se trata de um épico de ação, há muito mais combates do que no original, particularmente no caso de Mulan.

O filme tem o aspecto e nos traz a sensação dos épicos de Zhang Yimou (como O Clã das Adagas Voadoras), com vestidos fluídos e espadas flamejantes, soldados correndo em telhados e saltando por cima de muros. Veteranas populares dos seus filmes (como Gong Li, Donnie Yen, Jet Li) assumem mesmo papéis principais. “Eu me inspirei muito no trabalho dele”, disse Caro. Não só tivemos de ver Mulan lutar, mas ver sua luta como uma mulher – e daí todas as cenas de Yifei Liu sem armadura ocultando seu corpo, seu longo cabelo não preso por chapéu ou capacete.

“Nesta versão, o que ela aprende é que só será poderosa se for ela mesma, quando aceitar o poder que tem como uma jovem mulher”, acrescentou Caro. O filme também adicionou personagens como feiticeiras que mudam de corpo, como uma personagem de Gong Li, um surpreendente contraponto ao soldado constrito de Mulan.

E há muitos olhares e cenas de anseios de amor não correspondido para satisfazer os mais ardorosos fãs das comédias românticas. “Adoro a fluidez de gênero inerente na história. E há uma cena entre Mulan e a personagem de Gong Li que é literalmente dirigida como uma cena de amor. É consciente, contudo, o filme pode ser desfrutado por um público em geral”. Como esta versão será recebida pelos fãs da original, seja a balada ou aquela para desenho animado da Disney?

“Sei que não vamos agradar todo mundo. Mas acho que há uma razão para essa história repercutir tanto e ser tão relevante, durante 1,3 mil anos. E ao conta-la num filme de ação, minha esperança é de que todos, incluindo os que preservam tanto a animação, desfrutem dela novamente e de uma nova maneira. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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