Thomas Lohnes/Getty Images
Thomas Lohnes/Getty Images

Mulheres estão ausentes nos bancos centrais (e em muitos outros espaços)

Membros da Reserva Federal, do Banco da Inglaterra e do Banco Central Europeu reúnem-se para analisar por que são tão poucas as mulheres na área de política monetária

Jack Ewing, The New York Times

12 de novembro de 2019 | 06h00

FRANKFURT - O Banco Central Europeu pareceria um lugar improvável para a realização de uma conferência sobre a desigualdade de gênero. Ou, quem sabe, fosse exatamente o lugar mais adequado para isto.

No Conselho do banco, onde são tomadas as decisões mais importantes, há uma única mulher. A situação é semelhante à de outros grandes bancos centrais. Só há uma mulher no Conselho de Política Monetária do Banco da Inglaterra, e elas são uma minoria no mais alto escalão do Federal Reserve dos Estados Unidos.

No mês passado, membros da Reserva Federal, do Banco da Inglaterra e do Banco Central Europeu reuniram-se para analisar  por que razão são tão poucas as mulheres na área de política monetária, e o que pode ser feito a respeito. “A escassa representação do sexo feminino talvez não seja tão visível em qualquer outro lugar quanto nos bancos centrais”,  comparou Ana Lamo, economista sênior do Banco Central Europeu.

Elas são mais numerosas nas equipes de economistas e outros especialistas que preparam o terreno para a elaboração da política monetária. No entanto, há evidências de que as mulheres economistas têm menos probabilidade de verem suas pesquisas econômicas publicadas  pelos bancos centrais, de serem promovidas, e suas carreiras tendem a se ressentir mais do que as dos homens com a maternidade.

No dia 1º de novembro, Christine Lagarde tornou-se a primeira presidente do Banco Central do Banco Europeu. Lagarde é a única mulher no turbulento conselho composto por 25 integrantes enquanto não for nomeada uma substituta para o cargo de Sabine Lautenschläger, membro do Conselho Executivo do banco central composto de seis pessoas, que se demitiu no mês passado.

Lagarde, ex-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, terá como uma de suas prioridades a questão do gênero no seu mandato de oito anos. A conferência realizada na sede do Banco Central Europeu analisou as razões pelas quais as mulheres têm dificuldade para ascender em suas carreiras e contemplou algumas soluções.

Equidade de gênero

Laura Hospido, economista do Banco da Espanha, apresentou pesquisas mostrando que as teses sobre a área econômica elaboradas por mulheres economistas têm menos probabilidade de ser aceitas para publicação do que as dos seus colegas homens.

Deepa D. Datta, economista do Federal Reserve, examinou 300 artigos de pesquisa publicados pelo banco central americano e concluiu que os homens costumam trabalhar mais em colaboração mais com outros homens nas pesquisas. Ela disse que o seu estudo não prova que exista uma discriminação, embora seja esta a implicação óbvia. A publicação de artigos é imprescindível  para avançar na carreira.

Numerosos oradores afirmaram que as mulheres precisam de um estímulo maior para estudar economia. É o que ocorre em geral nas minorias raciais, cujos problemas não recebem a devida atenção, segundo Rhonda Sharpe, presidente do Women’s Institute for Science, Equity and Race de Virginia. Apenas algumas afro-americanas, mulheres  de origem hispânica ou americanas nativas têm doutorado em economia, ela afirmou, acrescentando: “A maior parte da conversação se centra em geral nas mulheres brancas”.

Ghazala Azmat, da Science Po, uma universidade de elite de Paris, apresentou uma pesquisa analisando o avanço notado nos escritórios de advocacia americanos, que se aplica implicitamente a toda profissão altamente competitiva. Embora as mulheres ingressem em escritórios de advocacia na mesma proporção dos homens, será muito menos provável que elas se tornem sócias.

Iris Bohnet, diretora acadêmica da Harvard Kennedy School, citou pesquisas mostrando que as orquestras nos Estados Unidos aumentaram o número de mulheres musicistas ao permitirem que as candidatas fizessem o seu teste atrás de uma cortina. Os bancos centrais poderiam obter o mesmo resultado, por exemplo, retirando os nomes dos currículos e padronizando as perguntas nas entrevistas.

Sem política de inclusão

O Federal Reserve procurou aumentar a contratação de mulheres e de membros de grupos minoritários recrutando funcionários em um número maior de universidades, e levando em conta critérios como experiência no emprego, e não apenas níveis acadêmicos.

Mas na conferência ninguém chegou a abordar soluções para corrigir o desequilíbrio no topo dos bancos centrais. Esse problema está fora do controle dos participantes. Os membros dos organismos responsáveis pela política destas instituições costumam ser escolhidos por líderes políticos, que principalmente na Europa mostraram uma forte tendência a favor dos homens. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.