Barrett Emke/The New York Times
Barrett Emke/The New York Times

Ela é uma campeã de xadrez que mal consegue enxergar o tabuleiro

Como Beth Harmon, o personagem de ficção de 'O gambito da Rainha', ela tenta encontrar uma maneira de ir à Rússia competir. E ao contrário de Beth, ela é cega

Dana Mackenzie, The New York Times - Life/Style

24 de janeiro de 2021 | 05h00

Ouviu esta história antes? Jovem que começa com dificuldade na vida, descobre o xadrez. Ela se torna campeã americana. Estuda russo e agora precisa encontrar um meio para ir à Rússia jogar xadrez, porque não tem dinheiro para isso.

Não, não estou falando de Beth Harmon, a heroína do megasucesso da Netflix O Gambito da Rainha. Conheçam Jessica Lauser, a atual três vezes campeã americana de xadrez ("chess" em inglês) para cegos. Podem chamá-la de Chessica - o apelido que o seu professor de matemática lhe deu na oitava série.

Jéssica, hoje com 40 anos, nasceu 16 semanas antes do tempo. Como muitas outras crianças na sua condição, precisou de oxigênio, o que prejudicou os seus olhos, provocando uma doença chamada retinopatia dos prematuros. Um olho está completamente cego; no outro ela tem 20/480 de visão. O seu campo de visão é limitado, e as peças do xadrez aparecem embaçadas e distorcidas. Ela pode perceber quando uma casa está ocupada, mas nem sempre consegue dizer de que peça se trata.

Quando joga contra um adversário que enxerga em uma competição, ela explica tudo isto. O maior problema são as regras sobre mover ou tocar no xadrez, que diz que se você tocar uma peça, terá de movê-la.

“Se eu preciso identificar uma peça durante um jogo, toco ligeiramente a parte superior dela e digo ‘identificar’, sem pegá-la, mas só passar ligeiramente a mão”, diz. Além disso, afirma Michael Aigner, que recentemente foi seu parceiro na primeira Olimpíada Online para Pessoas com Necessidades Especais: “Ninguém diria que Jessica é cega. Os enxadristas cegos muitas vezes usam um conjunto táctil, uma espécie de tabuleiro com pinos que permite que eles sintam as peças sem derrubá-las. Mas ela precisa lembrar onde estão as peças (ao contrário de Beth Harmon, ela não tem uma memória fotográfica, mas tem uma enorme capacidade de reconhecer padrões), por isso reconhecê-las pelo toque às vezes é útil.

O xadrez é o refúgio de Jéssica há muito tempo. Ela aprendeu a jogar aos 7 anos, quando foi transferida da Arizona State Schools for the Deaf and Blind para uma escola comum. Naquela idade, afirma. “Era apenas um jogo como Monopoly ou Parcheesi”. Mas na sétima série, quando começou em uma nova escola na Califórnia, ela teve de começar a levar o jogo mais a sério.

“Quando entrei na classe no primeiro dia, a primeira coisa que vi no fundo da sala foram armários da altura do peito com tabuleiros de xadrez em cima, conta. “Eu sabia que as crianças me chamariam de ‘quatro olhos’ e pensei: Quem sabe se eu ganhar deles, parem com isto”.

Jessica, que atualmente mora em Kansas City, Missouri e trabalha para a Receita Federal Americana, morou em uma quantidade impressionante de lugares, porque a sua cegueira dificulta que possa ter um emprego fixo. “O que mais me frustra é não ter recebido uma vida justa, por causa do meu problema de nascença”, afirma. Como precisa preservar o seu direito ao Seguro do Serviço Social para Deficientes, ela não pode ganhar mais de US$ 2.110 por mês.

“Este limite é difícil e acaba depressa”, diz. “Vivi constantemente na pobreza durante toda a minha vida de adulta, embora sempre tenha trabalhado. É por isso que jogo xadrez, porque me ajuda a fazer frente a todas as coisas que não posso mudar, essa particularmente”.

Depois, acrescenta: “Não quero piedade, apenas oportunidade, Só quero ser igual aos outros”.

Ela aperfeiçoou o seu jogo nas ruas: em Market Street em San Francisco, e Dupont Circle em Washington. Seu lugar favorito era a união dos estudantes na Universidade Estadual de San Francisco, onde terminou a faculdade aos 36 anos.

“Eu montava diversos tabuleiros ao mesmo tempo e aceitava quem quisesse jogar”, explica. Ela atraia multidões, não tanto por ser cega e mulher, mas porque a luta de uma única pessoa contra muitas é sempre fascinante.

Pelo fato de jogar tanto nas ruas, o seu jogo é muito rápido, com aberturas que frequentemente são consideradas inadequadas para torneios de xadrez. Na blitz, ou xadrez de cinco minutos, a sua classificação maior a colocou uma categoria abaixo  de mestre. Conseguir o título de mestre ainda é o seu objetivo, embora tenha consciência de que as probabilidades são contra ela: não são muitos os que conseguiram isto aos 40 anos. “Não vou desistir do meu sonho”, afirmou.

Em outubro, Jessica ganhou pela terceira vez consecutiva o campeonato americano para cegos - torneio que foi realizado presencialmente, apesar da pandemia. Tinha sido adiado desde julho. Antes da pandemia, afirma Virginia Alverson, presidente da Associação de Xadrez para Cegos, ela esperava atrair 20 participantes. (Comumente aparecem cerca de dez, entre os 100 membros.) Mas com a pandemia,  tiveram de se contentar com três: Alverson, sua colega de quarto, e Jessica.

A Olimpíada para Pessoas com Necessidades Especiais, realizada no final de semana do Dia de Ação de Graças, foi um evento muito mais importante. Originalmente marcado para a Sibéria em agosto, foi transferido para acontecer online, e atraiu 60 equipes de 44 países. A dos EUA, liderada por Aigner no primeiro tabuleiro, empatou no 10° lugar. Jessica começou devagar, mas ganhou um jogo fundamental no último round contra um enxadrista brasileiro. E ela foi a jogadora mais importante, porque cada equipe deveria ter uma jogadora. Sem ela, não haveria uma equipe americana.

“No meio da competição, depois de ela perder as três primeiras rodadas, jogamos cerca de uma hora de blitz, só para nos divertir”, disse Aigner. “Ela estava jogando todos os seus gambitos contra mim, e em alguns jogos tive problemas. Quando finalmente ela ganhou na quarta rodada, minha reação foi: graças a deus alguém pode ver como sou boa. Ela estava jogando no estilo que ela jogara contra mim no blitz, e evidentemente ganhou”.

Atualmente (mas sujeita a mudanças), a próxima Olimpíada está marcada para a Rússia em 2022. Jessica gostaria de ir, mas não tem certeza se poderá. Em 2020, antes de o evento na Sibéria ser cancelado, a FIDE, a federação internacional de xadrez, ofereceu-se para pagar as acomodações mais 1.500 euros para a viagem - ou cerca de us$ 1.800. “É discutível se isto atrairia pessoas para a Rússia, ida e volta”, diz Chris Bird, gerente de eventos da FIDE da Federação Americana de Xadrez. Enquanto a pandemia não acabar, a federação não dará apoio financeiro às equipes para eventos internacionais.

Para Jessica, é uma história conhecida. Ela se classificou seis vezes para o campeonato mundial de cegos, mas nunca pôde ir.

A curto prazo, Jessica espera manter o seu emprego em Kansas City. A longo prazo, afirma: “Meu sonho seria ganhar bastante dinheiro para poder viver, e não para lutar com dívidas, talvez ter uma casa em algum momento. Poder usar o russo todos os dias, ter condições de competir, poder ajudar os outros. Talvez viver na Rússia, ensinar o inglês e jogar xadrez”./ TRADUÇÃO DE ANNA MARIA CAPOVILLA

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