Alice Fiorilli para The New York Times
Alice Fiorilli para The New York Times

Mulher vence competição para construção de centro saudita

Arquiteta vencedora, Zaha Hadid, única mulher convidada a participar da disputa, morreu antes de ver o projeto concretizado

Joseph Giovannini, The New York Times

11 Maio 2018 | 15h30

RIAD, ARÁBIA SAUDITA - Uma década atrás, quando a Arábia Saudita começou a falar em conservação de energia, aquecimento global e alternativas limpas ao petróleo, foi realizada uma competição de projetos para um centro de pesquisas.

A arquiteta vencedora foi a iraquiana Zaha Hadid, a única mulher convidada a participar da competição, uma progressista atuante que então começava a definir a nova imagem de um país que o rei estava transformando com toda a cautela. Seu projeto para o Centro de Pesquisa e Estudos do Petróleo Rei Abdullah, revelado ao público no outono, era geometricamente engenhoso, inspirado pelas bolhas de sabão e favos de mel encontrados na natureza.

Mas sua inauguração pública durante a Semana do Design Saudita, em outubro passado, acabou sendo póstuma para o rei Abdullah, que havia encomendado a obra, e também para Hadid. Ele morreu em 2015 e foi sucedido por seu meio-irmão, o rei Salman, de 79 anos. Hadid morreu um ano depois, aos 65 anos, de ataque cardíaco. Ela nunca chegou a ver concretizado um de seus projetos mais singulares, o primeiro de seu portfólio a se orientar por dados relativos às exigências do clima e da sustentabilidade.

Agora, 135 pesquisadores em tempo integral e uma grande equipe de apoio ocupam os escritórios de um prédio operacional no centro, com espaço previsto para mais especialistas à medida que o local se desenvolver. Um fundo independente garante financiamento completo e perpétuo ao centro de pesquisa.

O objetivo da competição era planejar um prédio com baixa pegada de carbono em um clima escaldante. Trabalhando em estreita colaboração com DaeWha Kang, então diretor de design do escritório, Hadid foi buscar lições na natureza. “Quando você olha profundamente para a natureza, descobre porque as coisas são do jeito que são”, disse Kang. “Você encontra sistemas que, respondendo às condições ambientais, resultam nas formas que a gente vê”.

A pesquisa incluiu esponjas, folhas e peles de répteis. Eles descobriram que a geometria celular das bolhas de sabão e dos favos de mel são recorrentes em toda a natureza, porque embalam as coisas de maneira eficiente. “Foi quando surgiu a ideia das estruturas celulares hexagonais, dispostas em torno de pátios”, disse Kang.

Algumas estratégias ambientais são tão simples e antigas quanto a biologia. “Descobrimos que muito da genialidade da natureza está no design passivo”, disse ele. Os arquitetos também recorreram às tradicionais estruturas de terra do país para empregar técnicas solares passivas. Eles revestiram os nichos de seus favos de mel com painéis de fibra de vidro que refletem o calor, com uma camada de ar para isolar os espaços internos. Nos pátios, eles usaram piso de pedra e painéis de concreto para manter a temperatura mais baixa.

Os arquitetos projetaram escritórios hexagonais ao redor dos pátios hexagonais e, à medida que o prédio avança em direção ao deserto, foram modulando no tamanho das células para abrigar a biblioteca, o auditório, o centro de dados e a mesquita. Computadores estenderam e distorceram cada pátio e pavilhão para capturar a sombra do sul e a brisa do norte. As linhas de construção dos painéis da fachada se espalham sobre armações de aço. Na periferia da capital, apontado para o deserto - e para Meca - o prédio parece pronto para se mover.

No limite do deserto, uma mesquita perfeitamente lapidada encerra o longo pátio central, com o teto coberto por um padrão filigranado, gerado por computador, que lembra motivos arabescos tradicionais. A mesquita é uma das poucas do mundo projetada por uma mulher.

Susan Kearton, porta-voz do centro de pesquisa, disse que a missão de encontrar o uso mais produtivo da energia para o progresso econômico e social se alinha com a “Visão 2030”, que o herdeiro do reino, o príncipe Mohammed bin Salman, apresentou recentemente para diversificar e desenvolver a economia para além do petróleo.

Hadid também lançou mão de seus espaços caracteristicamente fluídos, para derrubar barreiras e incentivar a mistura social. Durante a Semana do Design no outono passado, mulheres, homens, estudantes e príncipes se misturaram livremente, compartilhando comidas e conversas em espaços comuns. Os véus eram opcionais.

Em Riad, já com perto dos 60 anos de idade, Hadid se tornou uma arquiteta que nunca havia sido. Beleza arquitetônica e sustentabilidade deixaram de ser mutuamente exclusivas. Assim como seus projetos, ela também se adaptou.

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