Amanda Lucier para The New York Times
Amanda Lucier para The New York Times

Mulheres à frente de fazendas reivindicam o Oeste americano

Elas dizem encontrar beleza na terra e sem todo aquele ego masculino

Amanda Lucier e Amy Chozick, The New York Times

27 de janeiro de 2019 | 06h00

Centenas de anos antes de Hollywood divulgar uma versão do Oeste americano, com homens toscos simbolizando os guardiões da terra, de rosto marcado pelas intempéries, as mulheres já estavam à frente das fazendas na fronteira. Eram indígenas: navajo, cheyenne e de outras tribos, e rancheiras mexicano-espanholas que exploravam e cuidavam de campos imensos, percorriam paisagens onduladas com os seus cachorros, caçavam e criavam o seu gado.

Os descendentes dos colonos europeus trouxeram consigo outras ideias sobre os papéis do homem e da mulher, e durante dezenas de anos, as fazendas e os ranchos da família foram entregues aos homens. Agora que a mecanização e a tecnologia transformaram a gestão da terra, tornando a função do vaqueiro menos exigente em termos de esforço físico - embora as mulheres donas de fazendas deem prova disto em abundância - e mais de negócios, criação de gado e o cuidado pelo ambiente, as mulheres reivindicam seus laços com a terra.

Ao mesmo tempo, os irmãos, filhos e netos que historicamente herdariam o rancho da família, na última década, optaram por um trabalho menos barulhento. Em 2012, 14% dos 2,1 milhões de fazendas dos Estados Unidos pertenciam a mulheres, segundo o Departamento da Agricultura. Esta proporção poderá aumentar, porque acredita-se que mais da metade das fazendas e ranchos do país mudará de mãos nos próximos 20 anos.

Crescendo no rancho da família em Kremmling, Colorado, Caitlyn Taussig observava a mãe cozinhando e fazendo todo o trabalho da casa enquanto ela ajudava a cuidar do gado e dos cavalos. Hoje, Caitlyn, 32, ajuda a dirigir o rancho com uma equipe de vaqueiras, inclusive sua mãe e irmã. Elas só precisam dos homens para marcar o gado Angus Cross. "Entre nós o tratamento é diferente", disse Caitlyn, pouco depois que uma vaca deu um coice em um portão e quebrou a testa dela. Ela levou seis pontos e voltou ao trabalho naquela mesma tarde. "Há menos ego", afirmou.

As mulheres rancheiras descobriram a mesma independência e aventura que no começo fascinaram os seus parceiros masculinos, mas elas também estão abrindo um novo caminho. As mulheres lideram a tendência das fazendas sustentáveis e criam raças de gado alimentadas com capim criado por meio de métodos humanitários e ecológicos.

Ao longo do Rio Missouri na região centro-setentrional de Dakota do Sul, Kelsey Ducheneaux, 25, produz carne bovina sustentável na terra onde trabalharam gerações da nação lakota. "Nós acreditamos que só poderemos ser uma nação soberana quando dominarmos o nosso sistema de alimentação da mesma maneira", ela disse.

Para os americanos nativos, o conceito da mulher trabalhando na terra da família não é algo revolucionário, mas uma volta à ordem natural das coisas. Kelsey estudou na Universidade de Dakota do Sul, e planejara trabalhar nos 3.040 hectares da terra tribal alugada na qual cresceu, mas somente depois que sua avó morreu ela compreendeu a importância do papel das mulheres na fazenda. "Ela era a fortaleza da família", disse Kelsey. "É assim que as famílias lakota são. Nós somos uma sociedade matriarcal, sempre fomos."

Beth Robinette, 31, é a quarta geração de proprietários e operadores do Lazy R. Ranch em Cheney, Washington. Ela ministra o New Cowgirl Camp, um curso de cinco dias que treina mulheres na criação de animais, gestão da fazenda, planejamento financeiro, monitoração ecológica e pastoreio regenerativo. Ela recusa a versão country-pop da vaqueira exageradamente feminina, e define o seu programa como uma "zona onde não há lantejoulas". 

"A nossa atual geração de administradores da terra está envelhecendo e deixando o cargo", disse Robinette. "Pode-se considerar o fato um desastre ou na realidade uma oportunidade de mudar o paradigma." Cory Carman, 39, transformou o rancho da família em Wallowa, Oregon, em um dos principais produtores de carne de gado alimentado com capim.

"Durante um período, me senti um pouco irritada com o problema de não ser levada a sério", disse Cory, que faz pós-graduação em Stanford, Califórnia.  "Quantas vezes fui a pé para uma reunião e as pessoas comentavam: ‘Você não parece uma fazendeira’." Mas o mesmo juízo é ao mesmo tempo libertador. "Se eu não pareço uma fazendeira, não preciso agir como tal, não é mesmo?", afirma.

Quando Amy Eller, 33, assumiu a fazenda da família, brigou com o pai sobre a maneira de cuidar do gado. "Ele ficava falando: ‘Que perda de tempo colocar o feno ali’, e eu pensava: ‘Elas ficam mais calmas’." Hoje, três gerações de mulheres Eller trabalham na fazenda. Amy disse que é uma coisa um pouco diferente, até espiritual, o fato de as mulheres trabalharem juntas na terra.

"Quando é um trabalho diário, como alimentar as vacas, eu prefiro ir com minha mãe, porque nós gostamos disso", ela disse. "Apreciamos a beleza da luz do sol brilhando sobre a neve."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.