EPA via The New York Times
EPA via The New York Times

Mulheres acusam autoridades da Coreia do Norte de abuso sexual

'Para eles, somos como brinquedos', diz uma das vítimas, que fugiu do país

Choe Sang-Hun, The New York Times

07 Novembro 2018 | 06h00

SEUL, COREIA DO SUL - Depois que Kim Jong-un assumiu o poder em 2011, a Coreia do Norte relaxou as restrições aos mercados, permitindo que muitas famílias obtenham a maior parte de sua renda a partir dessa atividade econômica.

Mas há um lado sombrio desses mercados: um relacionamento predatório entre as comerciantes (a maioria das pessoas que se ocupam da atividade é de mulheres) e os funcionários do governo, geralmente homens, de acordo com denúncia em novo relatório do Human Rights Watch. "Para sobreviver, é necessário fazer sexo com os homens que detêm poder, ou deixar que toquem nosso corpo", disse ao grupo uma ex-comerciante de pouco mais de 20 anos.

O Human Rights Watch disse ter entrevistado 29 mulheres que fugiram da Coreia do Norte após a ascensão de Kim, que concordaram em falar a respeito dos abusos sofridos. Elas usaram nomes falsos para proteger sua privacidade e os parentes que ficaram para trás.

Depois que o país foi devastado pela fome nos anos 1990, 32 mil norte-coreanos fugiram para a Coreia do Sul, principalmente mulheres. Muitas falam numa situação de violência sexual generalizada contra as mulheres em seu país de origem. Em 2014, uma comissão das Nações Unidas documentou violações sistemáticas dos direitos humanos na Coreia do Norte, incluindo violência sexual. O relatório do Human Rights Watch sublinhou essas afirmações, com destaque específico para os abusos sexuais cometidos por homens em situação de vantagem.

Uma ex-comerciante de mais de 20 anos disse ter sofrido vários abusos sexuais por parte de policiais e inspetores ferroviários entre 2010 e 2014, quando fugiu. Ao resistirem, as comerciantes correm o risco de perder sua principal fonte de renda, ameaçando a sobrevivência da família. Os funcionários poderiam declarar que a viagem e o comércio delas era ilegal, confiscar seus bens e mandá-las para a prisão, de acordo com o relatório.

"Os guardas do mercado e policiais me pediam que os seguisse até uma sala vazia fora do mercado, ou algum outro local de sua escolha", disse outra comerciante, de mais de 40 anos. "Para eles, somos como brinquedos".

As mulheres entrevistadas disseram raramente denunciar os crimes por medo de represálias, e por causa do estigma ligado às vítimas de estupro. A coerção sexual se tornou tão comum que os homens não consideram sua conduta errada, e as mulheres passaram a aceitá-la, disseram algumas.

"A corrupção é tão generalizada que as pessoas sem poder não têm escolha alguma", disse o marido da comerciante mais velha. "Comerciantes como minha mulher precisam aceitar a coerção sexual como parte da dinâmica social e do mercado. É a única forma de sobreviver. Sei de tudo, mas não falamos a respeito disso".

Também é precária a situação das mulheres que entram na China ilegalmente em busca de trabalho ou para contrabandear produtos. Segundo o Human Rights Watch, quando são apanhadas e repatriadas, são expostas a abusos de todo o tipo em prisões e centros de detenção.

"A ideia de que a violência sexual é errada, que não era minha culpa, que haveria algum 'representante da lei' para me proteger, jamais teria me ocorrido quando estava na Coreia do Norte", contou uma ex-prisioneira.

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