Maria Magdalena Arrellaga para The New York Times
Maria Magdalena Arrellaga para The New York Times

Mulheres compositoras se unem para formar grupos de samba femininos

Fenômeno de grupos de samba dirigidos por mulheres vêm crescendo no Brasil

Shannon Sims, The New York Times

10 Outubro 2018 | 06h00

Quem entra em um grupo tradicional de samba no Brasil, costuma encontrar uns 15 homens, cada um deles tocando um instrumento - tamborim, cavaquinho, bumbo. Depois verá mulheres, não tocando, mas rebolando na frente, dançando à batida sincopada do samba.

O grupo de samba, a roda de samba, é patrimônio cultural do Brasil reconhecido pela Unesco. Estas reuniões para aliviar as preocupações diárias brotam regularmente no Rio de Janeiro. Os grupos de samba são gratuitos, barulhentos e estão mudando cada vez mais.

As compositoras de música popular no Brasil começaram a penetrar no campo masculino dos grupos de samba com uma rapidez extraordinária. Até poucos anos atrás, os músicos em uma sessão de samba eram quase todos homens. No entanto, em 2018, alguns grupos de samba exclusivamente femininos começam a mudar este quadro. Elas geraram um fenômeno que poderá introduzir uma ampla mudança neste gênero adorado pelos brasileiros.

“Inúmeras vezes, quando você é a única mulher que toca em uma roda de samba, também está sujeita ao assédio vulgar de gente que circula em volta do samba”, observou Sílvia Duffrayer, que faz parte da banda feminina Samba Que Elas Querem. “Por isso, formando um grupo composto só de mulheres, estamos impedindo que este clima se estabeleça”.

Outra parte do movimento é incentivada pela descoberta de um novo sentido de revolta entre as mulheres que fazem música contra a letra de alguns dos hinos das rodas de samba, que destacam crimes graves como a violência domestica e o assédio sexual.

Samba Que Elas Querem, composto por dez mulheres, é um dos grupos mais populares do Rio, hoje. Os seus shows à noite, nas praças da cidade, atraem multidões. A popularidade do grupo cresceu da noite para o dia, afirmou Cecília Cruz, que toca cavaco, o instrumento de cordas presente na maioria das rodas de samba. “Acho que as pessoas estavam prontas, ansiosas para ver mulheres,” ela disse.

A tendência se expande além do berço tradicional do samba - o Rio de Janeiro - para outras cidades. 

Em São Paulo, grupos só femininos como Samba da Elis e Sambadas estão criando ondas semelhantes. 

Estes grupos estão crescendo, embora seu número seja minúsculo se comparado às centenas de grupos de samba na maioria masculino, em todo o país.

Os grupos de samba nem sempre foram dominados pelos homens. Kelly Adriano de Oliveira, uma importante estudiosa do samba, observou que no Brasil, depois da escravatura nos anos 30, as mulheres eram as orquestradoras dos círculos de samba como são conhecidos hoje. 

As religiões afro-brasileiras, como Umbanda e Candomblé, que foram perseguidas por se acreditar que estivessem ligadas à “magia negra”, aperfeiçoaram o papel cultural da poderosa “tia” - apelidada de Baiana, em referência  ao estado da Bahia, centro geográfico das religiões afro-brasileiras no Brasil. As mulheres que desempenhavam nestes papéis  de liderança, algo entre a figura materna e uma rainha sábia, tornaram-se as anfitriãs de fato dos primeiros círculos de samba.

No início do século 20, os músicos - predominantemente negros - podiam ser presos simplesmente por andarem na cidade com um tamborim na mão. As baianas abriram seus quintais para reuniões religiosas clandestinas que incluíam música - a primeira iteração do moderno círculo do samba. Elas formaram a primeira geração de mulheres no samba, dando início a uma forma de arte com apresentações superlotadas, como os do Samba que Elas Querem.

As mulheres foram excluídas nos anos 40 e 50 quando a lei sobre vadiagem passou a ser abrandada e os sambas começaram a surgir nos espaços públicos. As mulheres eram consideradas frágeis demais para andar pela rua tocando música. Não muito tempo depois, desapareceram dos círculos de samba, relegadas a papéis acessórios: a musa ou a bailarina.

Com a redução do lugar das mulheres no samba nos anos 60, 70 e 80, foram poucas as que fizeram sucesso, em geral graças a uma voz inegavelmente cativante.

As compositoras de samba hoje manifestam o temor de que a porta que estas mulheres abriram para as outras no samba se feche a não ser que surja uma nova geração, a terceira, de sambistas mulheres, determinadas a mantê-la aberta.

Uma destas mulheres, Beth Carvalho, 71, disse que espera que a sua influência perdure. Beth, que venceu um Grammy Award, é considerada a “avó do samba” por suas composições extremamente representativas, e já ajudou jovens mulheres a iniciarem suas carreiras.

O seu primeiro álbum traz uma foto dela com o seu cavaquinho entre músicos homens, uma imagem intencional, segundo afirma. “Eu a usei como uma bandeira: Vamos acabar com esta história de sermos musas. Vamos ser compositoras”. E sorri docemente. “É o meu lado feminino”.

No entanto, Beth não está otimista quanto à permanência das mulheres no círculo. “O samba é ainda um ambiente só de homens”, disse.

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