Victor J. Blue/The New York Times
Victor J. Blue/The New York Times

Mulheres, declarem seu título de 'Dra.'

O uso do título por mulheres é visto por muitos como elitismo; a situação raramente acontece com homens

Julia Baird, The New York Times

07 Julho 2018 | 10h00

Nunca me ocorreu acrescentar “Dra.” ao meu nome no Twitter, até que fui criticada asperamente por mencionar que eu tinha um doutorado.

Em fevereiro, estava escrevendo no Twitter sobre a diferença de tratamento dispensado na mídia à vida privada em relação aos homens e às mulheres na política quando alguém me atacou: “E por acaso você tem alguma prova disso ou é apenas uma velha sexista despeitada?”

“Sim, escrevi uma tese de doutorado sobre o assunto”, respondi. “Portanto, companheiro, diga Dra. Velha Sexista Despeitada”.

O que veio a seguir me pegou desprevenida. Não a resposta dos que entenderam a brincadeira, mas dos que se sentiram ofendidos pelo fato de eu ter mencionado que tinha um alto grau acadêmico em História. Um título que custou anos de trabalho árduo por uma remuneração bem pequena. Anos marcados pelo isolamento e pela insegurança, mas também por descobertas e por uma pesquisa original.

Nos últimos meses que dediquei à redação da minha dissertação - enquanto continuava trabalhando como jornalista -, meu cabelo começou a cair. Por três vezes, consultei um médico que disse que a única coisa que me impediria de ficar careca, era terminar a tese.

Durante muitos anos, não tive a certeza de que tivesse valido a pena. Não obstante, continuo orgulhosa do meu Ph.D. porque persisti e o concluí. Por isso, fiquei fascinada ao descobrir que alguns viram este título não como um sinal de capacidade, mas como uma provocação, uma pretensão.

Nas redes sociais, disseram que eu era uma esnobe elitista, que um Ph.D. não tem valor algum e que não prova nada. Mudei meu nome no Twitter para “Dra. Julia Baird”. E eis que, de vez em quando, alguém - quase sempre um homem - tuitava para me dizer que eu era arrogante e estúpida e que seria melhor para mim se o retirasse.

Um sujeito chamado Jim Ball postou: “Pesquisando no Twitter @bairdjulia, de fato, vi que você tem um Ph.D., Julia. Ótimo. Mas você revela uma insegurança intrínseca anexando-o ao seu perfil no Twitter”.

Uma quantidade de acadêmicos então me escreveu, entre os quais horda de mulheres que revelaram também terem sido atacadas por usarem seus títulos, enquanto muitos homens que não receberam este tratamento, se mostraram estupefatos.

O dr. Alan Nixon, um pesquisador da área de sociologia da religião da Western Sydney University, disse: “Tenho o Dr. no meu perfil desde 2015 e nunca fui questionado a este respeito”. Já o Dr. Stephen Maclean, professor de anatomia na Universidade de Edimburgo, contou que “não tinha a menor ideia de que existisse algo como desacreditar um doutorado!”.

E este mês, uma historiadora britânica, a Dra. Fern Riddell, teve uma experiência semelhante. No dia 13 de junho, reagindo a uma decisão de “The Globe” e do “Mail” de restringir o título de Dr. aos médicos, a Dra. Riddell escreveu no Twitter: “Meu título é Dra. Fern Riddell, e não Sra. e nem Srta. Riddell. Aliás, tenho este título porque sou uma especialista, e minha vida e minha carreira consistem em ter esta especialidade em vários campos. Trabalhei duro para conseguir esta autoridade e não desistirei dela por quem quer que seja”.

Um tal “David Green” imediatamente respondeu que  seus comentários poderiam “ser considerados legitimamente imodestos”. Outro chamado Warren Whitmore disse que a dra. Riddell mostrara “extremo desrespeito pelos homens brancos (que em geral são muito mais úteis à sociedade do que as mulheres acadêmicas)” e que ela deveria recusar a ajuda de um “bombeiro branco” se sua casa estivesse pegando fogo. Ela retrucou, dizendo que o comentário a fez “chorar de alegria”.

É preciso notar que a área de especialização da Dra. Riddell é sexo e sufrágio, e que ela escreveu um livro sobre uma mulher que era incendiária e sufragista, muito pertinente.

O estardalhaço incitou levas de mulheres acadêmicas a acrescentar “Dra.” ao seu nome no Twitter, e a hashtag #immodestwoman (mulher imodesta, em tradução livre) espalhou-se pelo mundo.

Não se trata apenas das mulheres. A assustadora tendência a menosprezar a capacidade acadêmica e principalmente científica como preconceito, ou elitismo, está em alta, e não para de aumentar. 

Mas parece particularmente aguda em relação às mulheres acadêmicas. Algumas relatam que são chamadas em geral de professoras, e até mesmo reverendas, portanto abaixo de seus colegas homens, e a pesquisa mostra que é menos frequente as médicas serem chamadas “doutora” do que os colegas homens.

São estes sinais que indicam o respeito e a aceitação da autoridade. E são estes sinais que talvez constituem também pequenas contribuições que podemos ocasionalmente acrescentar ao unirmos nossas vozes à cacofonia de palavras no debate público.

Considerando a frequência com que as mulheres sofrem abusos online, eu julgava que a melhor resposta fosse retirar-me periodicamente e me calar. Agora, porém, acho que precisamos nos apropriar desses espaços, pegar fogo, queimar e juntar multidões, apoiando-nos reciprocamente em massas, em grupos combativos. O Twitter é uma plataforma frequentemente vilipendiada e imperfeita. Mas é uma parte importante do espaço público.

Durante séculos, as vozes das mulheres foram caladas, menosprezadas, minimizadas. Nosso direito a falar foi questionado, nossa autoridade, ridicularizada. As raízes culturais desta atitude estão profundamente arraigadas na Igreja e no Estado e persistem em irromper de maneira grotesca online. Por causa disso, nos dizem regularmente que devemos pedir desculpas, ficar no nosso canto, calar.

Portanto, nada disso. Vocês não precisam de um título para falar. Mas se tiverem, usem. Encontrem a sua voz, levantem esta voz. Afirmem sua autoridade, e declarem-na. Não se recolham. Não recuem. Às vezes, a autoridade deve ser usada com mão leve. Outras, deve ser erguida como uma tocha.

Julia Baird é jornalista da Australian Broadcasting Corporation. 

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