Kim Raff/The New York Times
Kim Raff/The New York Times

Uma conversa franca entre mulheres mórmons sobre roupas íntimas sagradas

Frustradas com roupas que apertam e coçam, elas estão pedindo um ajuste melhor, mais opções e um tecido mais 'macio e amanteigado'

Ruth Graham, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2021 | 05h00

Sasha Piton estava fazendo uma caminhada perto de sua casa em Idaho Falls, quando percebeu alguma coisa errada. A caminhada era de uns poucos quilômetros, nada extenuante, mas uma erupção cutânea estava se espalhando pela dobra acima de sua coxa.

Piton identificou rapidamente a causa. Assim como muitas integrantes da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ela usa como roupa íntima, quase todo o tempo, um conjunto de duas peças brancas de vestimentas sagradas do templo.

Depois de outra caminhada dolorosa, Piton relutantemente parou de usar as roupas ao se exercitar e, ocasionalmente, passou a tirá-las durante a noite. Ambas as mudanças foram significativas, uma vez que as integrantes da igreja têm sido historicamente encorajadas a usar as vestimentas “noite e dia”. Mas elas eram desconfortáveis demais.

E ela não parou por aí. Em junho, Piton postou vários apelos animados e diretos no Instagram, onde ela discute a cultura da igreja no perfil @themormonhippie. “Nós realmente queremos um tecido mais macio e amanteigado”, disse ela, dirigindo seus comentários ao presidente da Igreja, Russell M. Nelson, de 96 anos. “Minha vagina precisa respirar”.

E Piton incentivou suas 30 mil seguidoras (na época, agora ela tem mais de 30 mil) a enviar e-mails para a igreja falando sobre suas próprias experiências.

Piton, 33 anos, tinha se deparado com um problema familiar que poucas mulheres na igreja se sentiam ousadas o suficiente para discutir em público. Suas postagens atraíram milhares de comentários e mensagens privadas, nas quais as mulheres expressaram suas frustrações com o traje sagrado: bainhas que coçam, costuras que fazem muito volume e até infecções crônicas causadas por tecidos que não deixam a pele respirar.

“É sagrado”, escreveu uma comentarista. “Mas ainda é roupa íntima”.

As vestimentas do templo datam das origens da igreja, no século 19, e simbolizam o compromisso com a fé, semelhante às vestimentas religiosas de muitas outras tradições. Os adultos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias as usam depois de sua “investidura no templo”, um ritual privado que geralmente ocorre antes do serviço missionário ou do casamento. A igreja controla o corte e o processo de fabricação das roupas e as vende no mundo todo a preços baixos.

A maioria dos membros ativos da igreja, incluindo os jovens, leva a sério a exortação de usar as vestimentas com a maior frequência possível. Em uma pesquisa de 2016 com 1.100 fiéis, apenas 14% dos membros da igreja milenar disseram acreditar que seria aceitável remover as vestimentas caso houvesse sensação de desconforto.

Um porta-voz da igreja recusou um pedido de entrevista e não quis responder a uma lista de perguntas detalhadas. Apenas enviou um link para um breve vídeo sobre as vestimentas produzidas pela igreja.

A maioria dos tecidos das vestimentas do templo disponíveis são sintéticos. “Se você está tentando otimizar a saúde ginecológica de alguém, esses tecidos não são recomendáveis”, disse Kellie Woodfield, obstetra e ginecologista em Utah que é membro da igreja. A opção de algodão é mais respirável, disse ela, mas apertada e significativamente mais grossa.

Woodfield, que vem usando as vestimentas durante a maior parte de sua vida adulta, disse que a conversa sobre as roupas era um indicativo de lutas maiores sobre as questões femininas dentro da tradição religiosa, sempre liderada por homens. Embora as mulheres se sintam cada vez mais encorajadas a falar nas redes sociais, muitas vezes elas se sentem bloqueadas pelo que descrevem como falta de transparência e empatia. “Como a igreja vem respondendo a esse movimento é um teste realmente interessante para saber o quanto a igreja está começando a confiar nas mulheres”, disse Woodfield.

Em Idaho, Piton assinalou quais seriam os itens de sua lista de desejos num recente vídeo de Instagram: “Cós macio, sem costura e sem cintura grossa que fique pegando no meu baço, tecido respirável”.

Embora ela esteja se divertindo com a campanha, Piton fala sério sobre a importância do assunto. Ela se converteu à fé há uma década e ficou profundamente comovida com o ritual do templo, que consistira em vestir as vestes pela primeira vez e receber uma bênção especificamente para o corpo.

Naquele momento, “eu simplesmente senti essa conexão divina com meu corpo”, ela disse. “Num mundo onde passei a vida toda ouvindo que era uma mulher grande, que meu corpo deveria ser diferente, receber uma bênção focada na força e santidade de meu corpo foi uma experiência comovente”.

Nem todo mundo está apegado à ideia de preservar as roupas. Lindsay Perez, 24 anos, que mora em Salt Lake City, costumava ter persistentes infecções de trato urinário que ela acredita que pioravam com as vestimentas. Agora ela não as usa à noite e depois do banho.

Se pudesse escolher, disse ela, preferiria usar um colar de cruz ou anel - popular entre os jovens membros da igreja - com as letras CTR, sigla que em inglês faz referência ao lema “Escolha o Certo”, um lembrete para fazer escolhas éticas. “Existem tantas maneiras diferentes de me lembrar do que prometi”, disse Perez. “Não preciso fazer tudo isso com minha calcinha.”

Em grupos privados para mulheres da igreja no Facebook, disse ela, as roupas são um tópico constante de discussão, com algumas mulheres esperando melhorias e outras defendendo as roupas como elas são. Mas poucas mulheres se sentem confortáveis em abordar líderes masculinos para discutir fluidos corporais, infecções e intimidade sexual.

“As pessoas têm medo de ser francamente honestas, de dizer: ‘não está funcionando para mim. Não está me aproximando de Cristo, está me dando infecção urinária’”, disse Perez.

Afton Southam Parker, mãe de cinco filhos que foi criada na igreja, morou em Uganda e na Tailândia, onde as roupas pareciam sufocantes com o calor. Em conversas furtivas com outras mulheres, ela percebeu que não estava sozinha. “Todo mundo com quem conversei estava com algum tipo de erupção ou infecção”, disse ela.

A palavra que ela sempre ouvia das mulheres era “sufocamento”.

Parker assumiu como missão fazer com que os líderes da igreja produzissem roupas que se ajustassem melhor e fossem mais confortáveis. Ela se aproximou de um líder da igreja após uma palestra e escreveu para qualquer pessoa que ela achasse que poderia ajudar. Quando um estilista da igreja finalmente concordou em se encontrar com ela no ano passado, ela lhe mostrou 34 slides de PowerPoint que explicavam os muitos problemas das roupas para as mulheres.

O resultado inicial foi desanimador, embora, mais recentemente, ela tenha se sentido encorajada quando a equipe de estilistas da igreja lhe pediu mais feedback. “Você está falando sobre lenços e sangue coagulado”, ela lembrou de o homem ter respondido. A implicação era que esses tópicos terrenos eram inadequados para discussões de assuntos sagrados.

“É de uma magnitude maior do que a igreja pode imaginar”, disse Parker. “Quando o negócio é roupa íntima, ou você está dentro ou você está fora”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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