Susan Wright para The New York Times
Susan Wright para The New York Times

A vida das mulheres negras dos EUA que viajam à Itália para encontrar o amor

Pode surpreender que, apesar dos casos de racismo no país, haja mulheres negras que vão buscar o ‘amore’ na Itália

Tariro Mzezewa, The New York Times

05 de março de 2020 | 06h00

A Itália, um país conhecido por sua linguagem do amor e por seus homens metidos a conquistadores, costuma ser associada ao romance do tipo retratado nos filmes. Por isso, algumas mulheres negras se perguntam, por que não poderia acontecer com elas? Latrese Williams é uma destas turistas. Como ela contou, sentia-se ignorada pelos homens americanos, mas na Itália, todos olham para ela – e ela acha ótimo. Estas reações ocorrem, afirmou, pelo fato de ela ser negra.

“Em Chicago, eu me sentia invisível”, disse Latrese, em sua casa em Roma. “Mas na Itália, conheci muitos homens”. Em novembro, ela passou a morar com o namorado italiano. Nos últimos anos, a Itália se tornou conhecida por vários episódios de racismo contra imigrantes africanos, até mesmo contra jogadores de futebol. Pode surpreender que, apesar disso, haja mulheres negras que vão buscar o ‘amore’ na Itália.

E inclusive cresce o número e de agências de viagens, blogs, contas de Instagram e grupos de Facebook que encorajam as mulheres a ir para a Itália a fim de encontrar o amor. Ao contrário das operadoras de viagens tradicionais, companhias como a Black Girl Travel oferecem aconselhamento sobre namoro e assistência para quem quer encontrar um parceiro romântico. Fleacé Weaver mudou-se para Roma em 2006 e fundou a Black Girl Travel, que oferece tours românticos e não românticos. Na época, ela ocupou um nicho vago no mercado.

“Ninguém nos oferecia serviços para atender exclusivamente mulheres afro-americanas”, ela disse. “Agora, 13 anos mais tarde, nós inspiramos toda uma subcultura de viajantes internacionais”. A Venus Affect, criada por Diann Valentine em 2014, encontra companheiros ricos para mulheres ricas. Setenta e cinco por cento dos clientes de Diann são negros; os restantes são hispânicos ou homens do Oriente Médio.

“Enquanto mulheres negras nos Estados Unidos, dizem que nós somos muito agressivas e mandonas, barulhentas e todos estes estereótipos negativos que estamos acostumadas a ouvir. Mas na Itália, somos perfeitas, porque sabe quem mais é mandona, barulhenta e agressiva? A mãe italiana”.

Mas o que estas companhias estão vendendo não é bem o que ocorre na experiência diária de várias pessoas negras que vivem ou viajam na Itália. Elas destacam que este é um país onde os políticos populistas como Matteo Salvini afirmam que a imigração ilegal da África representa uma ameaça.

“A ideia de vender a Itália para as mulheres negras como um lugar onde elas podem encontrar o amor é muito problemática por várias razões,” disse Moni Ufomata, que é negra e tem o blog Miles and Braids, sobre as suas aventuras nas viagem na Itália. Moni disse que as companhias também promovem estereótipos simplificados e talvez perigosos a respeito das mulheres negras, dos homens italianos e da cultura italiana.

“Não acho que se deva promover a ideia de que as mulheres negras encontram dificuldade para encontrar o amor nos Estados Unidos”, ela disse. A Itália também não é um lugar onde as pessoas estão dispostas a conversar sobre raça, disse Francesca Moretti, uma italiana negra colaboradora da revista AfroItalian Souls, dedicada ao público negro na Itália.

“Viver aqui não é como nos filmes ou nos cartões postais, principalmente para as pessoas negras”, afirmou. “Se você tem dinheiro, talvez possa viver algum tipo de sonho italiano, mas ainda assim não será a dolce vita”. As mulheres negras que se mudam para a Itália por causa do amor contam o que elas ouvem é que elas estão sendo fetichizadas pelos homens italianos curiosos a respeito da cultura negra e das características físicas negras.

Gichele Adams, uma mulher negra que mora em Milão com o seu companheiro italiano, Matteo La Cognata, disse que este argumento serve para envergonhar as mulheres negras que namoram pessoas de outra raça. Mas Alícia Rozario, uma mulher negra que visitava Milão, disse que acha válido um pouco de ceticismo. “Eu sei muito bem que os italianos ficam intrigados porque nós somos negras – há um certo exotismo nisso”, ela disse.

Gichele e La Cognata estão juntos há três anos. La Cognata disse que eles ouvem comentários de italianos que imaginam que Gichele seja uma imigrante. Os comentários, acrescentou, são piores quando ela sai sozinha. “Felizmente, eu procuro não dar muita atenção a esses idiotas”, acrescentou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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