Melissa Michel/Cresta Run
Melissa Michel/Cresta Run

Após proibição que durou décadas, mulheres conquistam direito de praticar o skeleton

Foi apontado que as mulheres deveriam ser impedidas dessa corrida pois o posicionamento do peito poderia causar câncer de mama, mas há rumores de que uma mulher com tempo mais rápido que o marido foi o motivo da proibição

Noele Illien, The New York Times

14 de março de 2020 | 06h00

ST. MORITZ, SUÍÇA - Uma voz ecoou no alto-falante na fria manhã desta cidade turística: “Karin Kuhn!”. Com as calças enfiadas por dentro das meias esticadas até os joelhos, Kuhn levantou o braço para sinalizar sua presença, entrou na calha de gelo e esperou o sinal.

Ao som de um sino, ela correu, se jogou em cima do trenó e saiu deslizando de cabeça na lendária Cresta Run. Até recentemente, ela teria de se contentar em apenas assistir à prática esportiva, “a coisa mais louca do mundo”, como ela diz. A placa “mulheres são proibidas” no vestiário deixava isso bem claro.

A Cresta Run – pista de 1,2 km que é o berço do esporte praticado nela, o skeleton – manteve as mulheres longe de seu gelo por décadas. Kuhn pertence ao clube apenas para sócios que administra a calha de gelo e que, em 2018, permitiu que as mulheres participassem de um período de testes de dois anos. Agora, alguns membros do clube, o St. Moritz Tobogganing Club, que é um dos mais antigos do esporte e já atraiu personalidades como John F. Kennedy e Errol Flynn, estão tentando empurrá-lo para o século 21.

Simon Ford é um desses membros. “Não há desculpa para um clube esportivo, em 2020, não proporcionar oportunidades iguais”, disse Ford. Ele disse que era “mais divertido” compartilhar a pista de gelo com as quatro filhas, mas reconheceu que este era um assunto delicado entre outros membros. “Vamos levar as coisas bem devagar”, disse ele. A Cresta Run data de 1885, quando foi construída para divertir os turistas britânicos que passavam o inverno nas montanhas da Suíça.

Os esportistas que atingem velocidades de 130 quilômetros por hora podem ser facilmente arremessados para fora do percurso. As internações hospitalares são comuns e ocorreram várias mortes ao longo das décadas. Hans-Jürg Buff, membro do clube, disse que permitir o acesso das mulheres é perder a exclusividade do negócio. “Se as mulheres podem descer a Cresta”, disse ele, “acaba todo o mistério”.

As mulheres chegaram a competir na Cresta até 1929, quando foram barradas e se tornaram sócias não-ativas. À época, argumentou-se que o posicionamento necessário para a prática do skeleton poderia causar câncer de mama, mas há rumores de que a verdadeira razão para o banimento foi uma mulher que estava fazendo o percurso em tempos mais rápidos que o marido.

Em 2018, os sócios votaram para permitir que as mulheres voltassem a correr por um período de testes de dois anos. Nos anos anteriores, as mulheres tiveram permissão para descer no máximo três vezes no último sábado da temporada. Sob as novas condições, as mulheres podem descer a Cresta em mais dias – mas, certamente, não em todos – e competir em provas mediante convite. As mulheres, que representam 1/5 dos 1.250 membros, ainda são sócias não ativas, o que significa que o uso da Cresta não é reconhecido oficialmente.

Por enquanto, Kuhn não parece muito incomodada com seu status ou com aquela placa “mulheres são proibidas” na porta do vestiário. “Estou feliz por poder descer a Cresta”, disse ela, sorrindo, enquanto guardava o equipamento. Ela estava no vestiário. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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