Daniel Rolider / The New York Times
Daniel Rolider / The New York Times

Mulheres acessam o Talmud, ciclo de estudos judaicos que dura 7 anos

Leituras eram reservada quase exclusivamente a homens; estudos englobam discussões rabínicas sobre temas variados, como os sacrifícios e a menstruação

Isabel Kershner, The New York Times

29 de janeiro de 2020 | 06h00

RAANANA, ISRAEL– Era o Dia 2.699, faltavam 12. Recentemente, em um dia no meio da semana, cerca de seis mulheres sentaram ao redor da mesa de jantar em uma casa em Raanana, um bairro ao norte de Tel Aviv, e abriram os seus volumes do Talmud. Elas estavam quase terminando uma verdadeira maratona: um ciclo de sete anos e meio de estudos judaicos, conhecido como Daf Yomi, ou “página do dia”, em hebraico.

O estudo do Talmud babilônico, um texto arcaico, denso e complexo, em parte escrito em aramaico, contendo discussões rabínicas sobre temas variados, como os sacrifícios e a menstruação, constitui há séculos o fundamento da vida, da lei e dos conhecimentos acadêmicos judaicos.

Este campo era reservado quase exclusivamente aos homens. Embora os rabinos não proibissem as mulheres de estudar o Talmud, em geral não era visto com bons olhos, e continua sendo assim em algumas partes do mundo rigorosamente ortodoxo. Agora, desde que a tecnologia e as redes sociais tornaram o Daf Yomi mais acessível, está sendo adotado por muitas delas.

Michelle Cohen Farber, de 47 anos, uma moderna estudiosa ortodoxa e mãe de cinco filhos, é a professora em cuja residência o grupo de Raanana se reunia em sessões de 45 minutos. O programa do Daf Yomi, ela explicou, “consiste em fazer com que as mulheres abram este livro para a continuidade do povo judeu”. E acrescentou: “A exclusão das mulheres equivale a 50% da população”.

Talmud em podcast

Acredita-se que Michelle seja a primeira a ensinar um ciclo inteiro do Daf Yomi por um podcast diário, que ela transmite em inglês e em hebraico. Há também os aplicativos do Daf Yomi por telefone e em animadas discussões em grupos no Facebook.

O Talmud, que tem 1.500 anos, é um texto tortuoso que inclui as interpretações da Halakha bíblica, ou lei judaica, ética e narrativas repletas de digressões e discussões entre rabinos.

Em grande parte, ele retrata a mulher como propriedade do marido. E o volume final, Niddah, trata da fisiologia e da anatomia de uma mulher e das leis da pureza da família, como a proibição das relações sexuais com uma mulher menstruada.

Ilana Kurshan, que mora em Jerusalém e vem de Nova York, disse que não tem “a raiva que algumas mulheres demonstram” pelo fato de o Talmud descrever a mulher como propriedade do homem. “Eu me sinto abençoada por ser uma mulher judia no século 21”, afirmou.

Um rabino hassídico de Lublin, na Polônia, estabeleceu a tradição do Daf Yomi há cerca de 100 anos, determinando a ordem do estudo como uma maneira de unificar e sincronizar a diáspora judaica cada vez maior, fazendo com que todos os judeus se concentrem na mesma página a cada dia.

Algumas mulheres começaram o programa do Daf Yomi há dezenas de anos. Desde então, o estudo do Talmud foi introduzido em algumas escolas religiosas femininas. Frequentemente foi considerado muito difícil e menos relevante para as mulheres do que outros textos, como a sessão semanal da Torá. Mas dado o aumento do número de mulheres que se dedicam a este estudo, aparentemente não há muita oposição por parte dos homens ortodoxos.

“Fazemos isto porque podemos, não porque precisamos provar alguma coisa”, disse Ruth Leah Kahan, uma das alunas de Michelle Cohen Farber. Encerrado o ciclo, acrescentou: “Não vejo a hora de começar de novo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.