Ali Kate Cherkis/The New York Times
Ali Kate Cherkis/The New York Times

No mundo masculino do uísque, o número de mulheres que mandam é cada vez maior

Embora o sexismo ainda seja considerável, muitas mulheres agora estão destilando, misturando e reformulando o negócio à sua imagem

Clay Risen, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2021 | 05h00

Em 2018, as três fundadoras da destilaria Milam & Greene, em Blanco, Texas, fizeram a sua primeira viagem até a San Antonio Cocktail Conference, um dos maiores encontros de baristas, destiladores e suas legiões de fãs do estado. A sua animação era enorme porque iriam apresentar o seu novo uísque, até que encontraram a mesa que havia sido destinada a elas – enfiada em um canto, distante de onde se dava toda a ação.

A indiferença pode ter acontecido porque elas eram novas neste cenário, ou porque uma parte do seu uísque era feito fora do Texas. Mas seguramente não ajudara o fato de as três – Marsha Milam, empreendedora; Heather Greene, CEO e mestre misturadora, e Marlene Holmes, mestre distiladora – serem mulheres, tentando conquistar um setor muito conhecido pela masculinidade assertiva, às vezes até agressiva.

"Houve literalmente queixas, do tipo: 'Por que é que elas estão aqui?'", contou Greene.

Sem se assustar, a equipe da Milam & Greene persistiu, ganhou competições e aplausos importantes, incluindo um prêmio no Texas Whiskey Festival, em abril. E três anos depois desta recepção fria, gélida, elas hoje são aceitas, e inclusive celebradas por outros destiladores do Texas.

"Foi uma reviravolta total", disse Greene. "Só tivemos de ter persistência e dizer: 'Estamos aqui, e somos um de vocês, rapazes'".

Histórias como esta são numerosas para quem trabalha com uísque nos EUA, onde as mulheres há muito tempo desempenham um papel discreto e até menosprezado, muitas vezes em lugares como a linha de engarrafamento ou no departamento de marketing. Nos últimos anos, entretanto, elas começaram a assumir papéis de liderança na produção – destilação e mistura – nas operações corporativas como a Cascade Hollow Distilling Co. em Tennessee, e em startups como Milam & Greene.

Ao longo deste processo, elas não só conseguiram o crédito há muito merecido – estão reformulando o que continua a ser uma profissão dominada pelos homens.

“As mulheres sempre estiveram neste setor”, disse Andrea Wilson, mestre de maturação na Michter’s, uma destilaria em Louisville, Kentucky. “O que é diferente hoje é que elas estão obtendo reconhecimento pelas contribuições prestadas durante todo este tempo”.

A destilação era considerada um trabalho de mulheres, assim como os seus deveres ao redor do fogão e da casa. Em seu livro Whiskey Women, Fred Minnick escreve que, na Europa medieval, as mulheres usavam a sua perícia adquirida na destilação para fazer remédios, mas também eram perseguidas quando esta mesma habilidade era denunciada como magia negra.

A tradição continuou na primeira fronteira americana: Catherine Spears Frye Carpenter, mãe, viúva, e destiladora no início do século 19, em Kentucky, foi a primeira a registrar uma receita de uísque sour-mash.

À medida que a destilação industrial emergiu depois da Guerra Civil, e os papéis de gênero se tornaram mais rígidos, as mulheres já não eram tão importantes na produção do uísque, embora elas deixassem sua marca de outras maneiras. Nos anos 1950, Margie Samuels desenhou a garrafa e o rótulo para a nova marca de uísque do marido, Maker’s Mark - e até mesmo criou a sua assinatura em um selo de cera vermelha.

Algumas mulheres conseguiram ser contratadas para ocupar cargos de produção. Tanto Palm Heimann, mestre distiladora emérita da Michter’s, e Holmes, da Milam & Greene, trabalharam dezenas de anos na Jim Beam.

Holmes, 65 anos, que quando começou, no início dos anos 1990, teve de superar não apenas os estereótipos sexistas usuais sobre as mulheres, como também os inúmeros mitos a respeito das mulheres e da destilação – por exemplo, que os seus hormônios iriam interferir com a fermentação.

“Se você está menstruada, irá estragar o fermento”, ela lembra que falavam.

As cabeças mais inteligentes da companhia venceram, e Holmes foi assumindo cada vez mais responsabilidades na área da produção. "Quando saí da Beam, 27 anos mais tarde", ela contou, “estava fazendo a levedura”.

Mulheres como Holmes e Heilmann abriram portas para destiladoras mais jovens, muitas das quais já chegam com a formação técnica em química e engenharia – ferramentas importantes, afirmam, para romper o que ainda parece um verdadeiro "clube do bolinha".

Como Nicole Austin. Ela estudou engenharia química na faculdade e estava trabalhando para uma companhia de tratamento de águas residuais em Nova York quando, no início dos anos 2010, começou a trabalhar como voluntária na Kings County Distillery no Brooklyn.

O seu hobby logo se tornou uma nova carreira. Austin, 37 anos, ajudou a fundar a New York State Distillers Guild em 2013, e posteriormente trabalhou com Dave Pickerell, um consultor que criou dezenas de destilarias artesanais, e na ampliação da Tullamore Distillery, na Irlanda.

Em 2018, ela regressou aos Estados Unidos onde se tornou gerente da Cascade Hollow em Tullahoma, Tennessee, onde nasceu o uísque George Dickel. Lá, ela revitalizou uma marca meio adormecida – a Whisky Advocate foi o seu primeiro importante lançamento, um uísque engarrafado de 13 anos, o seu uísque do ano em 2019 – e ganhou reconhecimento como uma das melhores jovens destiladoras da nação.

Austin disse que teve sorte de começar a sua carreira em uma época em que a nova geração de fabricantes de uísque, mais à vontade com as mulheres que desempenhavam um papel igual, estava em ascensão. No entanto, ela ainda precisa lidar com pessoas que se ressentem pelo fato de uma mulher fazer o que para elas é um trabalho para homem.

“Na indústria do uísque, experimentei o melhor e o pior”, ela falou. “A desigualdade mais dramática no salário e as culturas corporativas mais drasticamente misóginas, mas também trabalhei em uma indústria que optou por me eleger inúmeras vezes como líder”.

Esta tensão é um desafio para mulheres como Austin e a equipe da Milam & Greene, que querem ser respeitadas por suas realizações, e não pelo gênero – mas também reconhecem que a sua posição as torna modelos a seguir, com a responsabilidade de apoiar outras mulheres que tentam entrar no setor.

É um paradoxo particularmente pesado para Victoria Eady Butler, mestre misturadora da Uncle Nearest, uma destilaria de Tennessee fundada pela empreendedora Fawn Weaver em 2017. Em 2021, a revista Whisky a nomeou misturadora do ano, mas ela disse que às vezes ainda se preocupa com a maneira como as pessoas a veem, principalmente como mulher preta.

“Acho que nós fomos um exemplo neste setor, mostrando que as mulheres podem desempenhar tais papéis e não apenas como algo figurativo”, ela disse. “Compreendo perfeitamente que os olhos estão fixos na minha pessoa por ser a primeira mestra misturadora afro-americana da história. E abraço esta responsabilidade – mas não me preocupo somente com isto”.

Lidar com o sexismo no setor é suficientemente difícil – para muitas mulheres destiladoras, o problema não são os seus colaboradores, mas os seus clientes, principalmente homens que se revoltam pela possibilidade de uma mulher saber mais a respeito de uísque do que eles.

Marianne Eaves estudou engenharia química na faculdade antes de começar na Brown-Forman, a companhia de Louisville que faz o uísque Jack Daniel’s, Old Forester e Woodford Reserve. Lá ela conheceu um mentor, Chris Morris, o mestre destilador da companhia, que em 2014 lhe conferiu o cargo de mestre provadora – uma função que se concentra na análise sensorial e no controle de qualidade. Além disso, trabalhou com ela na criação de novos uísques como o Rye da Jack Daniel's e o Woodford Reserve Double Oak.

Mas Eaves falou da sua frustração quando, em um evento público, onde Morris havia destacado o trabalho dela, um varejista passou por ela para apertar a mão do mestre.

"Ele olhou para mim e comentou: ‘Ah, você é a garota que experimenta o nosso uísque'", recordou ela. "Chris disse: 'Não, ela é a nossa mestre provadora'. Mas o cara disse uma segunda vez, e Chris o corrigiu uma segunda vez".

Eaves saiu da Brown-Forman em 2015 e foi para uma startup destiladora, a Castle & Key, onde foi parceira e mestre destiladora – a primeira mulher em Kentucky a deter este título desde a Proibição – e em 2019 passou a trabalhar por conta própria como consultora. (Duas outras mulheres a seguiram em altos postos na Brown-Forman: Elizabeth McCall, assistente de mestra destiladora da Woodford Reserve, e Jackie Zykan, mestre taster da Old Forester.)

Eaves ganhou aplausos por seu recente trabalho, desenvolvendo uísques ultra premium para marcas como Sweetens Cove, que tem o apoio de um grupo de astros do esporte como Peyton Manning e Andy Roddick.

Ela ainda é alvo de ataques sexistas, principalmente na internet.

“No começo, eu me sentia realmente agredida, mas depois de algum tempo, parei de ler os comentários”, afirmou.

Mas, acrescentou, muito mudou nos últimos 12 anos desde que ela entrou no negócio. Não só há mais homens dispostos a aprender sobre uísque com uma mulher, como mulheres que agora constituem, ao que se calcula, 36% das consumidoras de uísque americano, segundo dados de 2020 fornecidos pela empresa de pesquisa de mercado MRI-Simmons. A mudança é comprovada pelo sucesso de grupos como a Bourbon Women Association, fundada por Peggy Noe Stevens, outra ex-mestra taster da Woodford Reserve, que organiza degustações somente para mulheres e tours em destilarias.

“Gosto de ter a oportunidade de estar na frente de mulheres, de responder perguntas, compartilhar histórias e não me preocupar com olhares menos amistosos ou com julgamentos”, disse Eaves. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Tudo o que sabemos sobre:
mulherprofissãotrabalhouísque

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.