Minzayar Oo / The New York Times
Minzayar Oo / The New York Times

Grupo de mulheres na Indonésia defende uso de véu e quer mudar opiniões

“Por causa das vestimentas, essas pessoas muitas vezes são confundidas com extremistas”, disse Sidney Jones, diretora do Instituto de Análise Política de Conflitos. “Mas elas são contra a violência"

Richard C. Paddock, The New York Times

02 de abril de 2020 | 06h00

TEMBORO, INDONÉSIA – Dava para ver apenas os olhos da amazona por trás de seu véu preto. Com um arco na mão esquerda e uma flecha na direita, ela galopou em direção ao alvo, mirou e disparou. A flecha acertou na mosca, com um estalo retumbante. Idhanur, a amazona, que, como muitos indonésios, usa apenas um nome, tem 31 anos de idade, é professora numa escola islâmica em Java e diz que disparar flechas a cavalo vestida com o véu, ou niqab, aumenta suas chances de ir para o céu.

Ela faz parte de um movimento crescente e pacífico de mulheres muçulmanas que acreditam receber graças de Deus quando se dedicam a atividades islâmicas, como usar o niqab e praticar esportes que o Profeta Muhammad deve ter praticado. Muitas também dizem que é um jeito de se proteger contra olhares indiscretos e assédios masculinos num país onde as investidas sexuais indesejadas são comuns.

Idhanur, que leciona no internato islâmico Al Fatah, em Temboro, e faz parte do movimento revivalista Tablighi Jamaat, tem uma resposta para os indonésios que temem que o vestuário islâmico conservador seja um passo preocupante em direção ao extremismo e à marginalização das mulheres.

“Usar um niqab como este não significa que nos tornamos mulheres muçulmanas fracas”, disse ela. A Indonésia, democracia que abriga a maior população muçulmana do mundo, é oficialmente secular e há muito tempo conhecida por sua tolerância. Mas, nos 22 anos desde a deposição do ditador Suharto, o país vem se voltando cada vez mais para o islamismo conservador.

Uma pequena minoria de muçulmanos adotou opiniões extremistas, e alguns perpetraram atentados mortais. Um dos terroristas suicidas era uma mulher, o que fez com que muitos indonésios começassem a desconfiar das mulheres que usam niqabs, pois a única abertura é uma fenda para os olhos.

Mas Sidney Jones, especialista em terrorismo no Sudeste Asiático, disse que é importante distinguir islâmicos radicais, que representam uma ameaça, de seguidores de grupos islâmicos conservadores, os quais apenas defendem um estilo de vida islâmico tradicional, como a seita Tablighi Jamaat.

“Por causa das vestimentas, essas pessoas muitas vezes são confundidas com extremistas”, disse Jones, diretora do Instituto de Análise Política de Conflitos, em Jacarta. “Mas elas são contra a violência. Trata-se de um ótimo exemplo de movimento em que o vestuário pode ser totalmente enganoso”.

Na vanguarda desse movimento está Indadari Mindrayanti, designer de roupas que há quatro anos fundou o Esquadrão Niqab para promover o uso do véu. O grupo agora tem quase seis mil membros. Ela disse que, quando encontra pessoas que parecem ter medo de sua aparência, combate seus temores agindo de maneira exageradamente amistosa.

“No começo, minha família tinha medo”, lembrou Indadari. “Mas, com o passar do tempo, eles entenderam. Sempre explico que todas as esposas do Profeta usavam niqab”. Para Aisyah Tajudin, de 25 anos, vestir o niqab não é suficiente. Ela também usa luvas pretas e uma tela preta sobre os olhos, para que cada centímetro do corpo esteja coberto.

“Sinto mais liberdade assim”, disse ela. Idhanur, a amazona e arqueira, chegou ao Al Fatah quando tinha 13 anos e logo começou a usar o niqab. E não o largou desde então. “Quando comecei aqui, era muito raro ver mulheres e meninas usando o niqab”, disse ela. “Mas agora somos muitas”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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