Rebecca Conway para The New York Times
Rebecca Conway para The New York Times

Mundo não consegue deixar para trás dependência do carvão

Carvão continua dominando mercado energético global

Somini Sengupta, The New York Times

02 Dezembro 2018 | 06h00

HANÓI, VIETNà- O carvão, combustível que impulsionou a era industrial, levou o planeta à beira de uma mudança climática catastrófica.

Um relatório publicado em outubro pela comissão científica das Nações Unidas para a mudança climática revelou que, para evitar o pior da devastação, seria necessário transformar radicalmente a economia mundial em questão de poucos anos.

O ponto central da transformação é abandonar do carvão, e rápido.

Ainda assim, três anos após o acordo de Paris, quando lideranças mundiais prometeram agir, o carvão não dá sinais de desaparecer. Embora pareça certo que o carvão deve perder espaço no mundo com o passar do tempo, de acordo com a Agência Internacional de Energia, isso não vai ocorrer rápido o bastante para evitar os piores efeitos da mudança climática. No ano passado, a produção e o consumo global de carvão aumentaram após dois anos de declínio.

Barato e abundante, o carvão é também o mais poluente dos combustíveis fósseis, e continua sendo a maior fonte de energia para a geração de eletricidade em todo o mundo. E isso mesmo com tecnologias renováveis como a energia solar e eólica se tornando cada vez mais acessíveis. Em breve, é possível que o carvão deixe de fazer sentido do ponto de vista financeiro, mesmo para aqueles que o defendem.

Assim sendo, por que é tão difícil deixá-lo para trás?

A resposta é que o carvão detém a posição de predomínio na área. Milhões de toneladas dele podem ser encontradas sob o chão. Poderosas empresas, apoiadas por governos poderosos, frequentemente sob a forma de subsídios, estão correndo para ampliar seus mercados antes que seja tarde demais. Os bancos ainda lucram com o carvão. Grandes redes elétricas foram projetadas para utilizá-lo. Para os políticos, as usinas de carvão podem ser uma forma garantida de gerar energia barata - e manter-se no poder. Em alguns países, o setor é envolvido em corrupção.

E, mesmo com a rápida difusão das fontes renováveis, elas ainda têm limites: a energia solar e eólica flui quando o sol brilha e o vento sopra, e, para tanto, as redes elétricas tradicionais precisam ser reequipadas.

“O principal motivo para a permanência do carvão é o fato de o mundo já ter sido construído para usá-lo", disse Rohit Chandra, doutor em políticas energéticas pela Universidade Harvard.

A batalha pelo futuro do carvão será travada na Ásia.

Gigante mundial do carvão

Abrigando metade da população mundial, a Ásia responde hoje por três quartos do consumo global de carvão. Mais importante, o continente responde por mais de três quartos das usinas de carvão em fase de construção ou planejamento - 1.200 instalações do tipo, de acordo com o grupo alemão Urgewald, que acompanha a exploração do carvão. A Indonésia está escavando mais carvão. O Vietnã está abrindo espaço para novas usinas de carvão. O Japão, afetado por um desastre numa usina nuclear em 2011, retomou o uso do carvão.

Mas o grande gigante mundial desse setor é a China. O país consome metade do carvão mundial. As minas no país empregam mais de 4,3 milhões de chineses. A China foi responsável por uma ampliação de 40% na capacidade global de exploração do carvão desde 2002, uma mudança imensa num período de apenas 16 anos.

Motivada pela indignação pública diante da poluição do ar, a China é agora também a líder mundial na instalação de equipamentos para fontes de energia solar e eólica, e o governo central buscou retardar a construção de usinas de carvão. Mas uma análise realizada pela equipe americana de pesquisadores Coal Swarm, que defende alternativas para a queima do carvão, concluiu que novas usinas continuam em construção, e outras foram simplesmente adiadas. O consumo de carvão na China aumentou em 2017, ainda que a um ritmo mais lento do que antes, e vai aumentar novamente em 2018.

A indústria chinesa do carvão está buscando novos mercados, em países como Quênia e Paquistão. Empresas chinesas estão construindo usinas de carvão em 17 países, de acordo com a Urgewald. Seu rival regional, Japão, também está no jogo: quase 60% dos projetos de carvão planejados serão fora do país.

Essa disputa é particularmente acirrada no Sudeste Asiático.

‘Até as árvores estão morrendo’

Nguy Thi Khanh viu de perto o desenvolvimento dessa disputa no Vietnã. Nascida em 1976, ela lembra de quando fazia lição de casa à luz do lampião de querosene.

Em seu vilarejo, no norte do país, a eletricidade era interrompida por várias horas durante o dia. 

Quando chovia, não havia eletricidade nenhuma. Quando a energia chegava, sua origem era uma usina de carvão nas imediações. Quando sua mãe estendia a roupa limpa, as cinzas se depositavam no tecido.

Atualmente, praticamente todos os lares do Vietnã (população: 95 milhões de habitantes) têm eletricidade. A capital, Hanói, onde Nguy mora, vive um frenesi de novas construções, demandando muito cimento e aço - produtos que consomem muita energia na produção. A economia avança a galope. E, ao longo de toda a costa, com 1.600 quilômetros de comprimento, empresas estrangeiras (principalmente chinesas e japonesas) estão construindo usinas de carvão.

Um desses projetos fica em Nghi Son, antigo vilarejo de pescadores ao sul de Hanói que agora abriga uma vasta zona industrial. A primeira usina de energia foi aberta aqui em 2013. A organização japonesa de auxílio internacional, Agência de Cooperação Internacional do Japão, pagou por ela. O conglomerado japonês Marubeni a desenvolveu.

Outra usina de carvão, muito maior, está em construção ali perto. O Marubeni também é o responsável pela sua construção, bem como uma empresa coreana. O Banco Japonês para a Cooperação Internacional, agência de exportação de crédito voltada para a redução do risco financeiro para credores particulares, está ajudando no financiamento.

À sombra da chaminé, Nguyen Thi Thu Thien secava camarões à beira da estrada, queixando-se. Tinha saído de sua casa depois que a usina de energia construiu um repositório de cinzas bem diante dela. “O pó do carvão deixou minha casa preta", disse ela. “Até as árvores estão morrendo. Não podemos viver lá.”

Ela e outras que secavam camarões na beira da estrada estavam duplamente enfurecidas por saber que a nova usina exigirá um novo porto, que deixará seus maridos sem ter onde atracar os barcos (é naquele trecho que ficam os pesqueiros). Caminhões passavam pela estrada levantando poeira, enquanto as mulheres esvaziavam suas cestas de camarão. Elas mantinham cada parte do corpo coberta: chapéus largos, máscaras no rosto, luvas.

O carvão é hoje responsável pela geração de 36% da capacidade de geração de energia do país; essa parcela deve aumentar para 42% já em 2030, de acordo com o governo. Para alimentar essas usinas, o Vietnã terá de importar 90 milhões de toneladas de carvão até 2030.

Mas os projetos envolvendo o carvão estão também motivando uma oposição comunitária rara num país que não tolera a dissidência. Aldeões fecharam uma estrada em 2015 para protestar contra um projeto chinês no sudeste. As autoridades provinciais vetaram a construção de outra usina no Delta do Rio Mekong.

O Vietnã diz estar no rumo certo para cumprir suas metas de redução de emissões estipuladas no acordo de Paris. O mesmo dizem China e Índia, cuja pegada de carbono é muito maior. Mas essas metas foram definidas pelos próprios países, e não serão suficientes para impedir que a temperatura global alcance níveis calamitosos. Os Estados Unidos disseram que deixarão o acordo climático de Paris.

Trata-se de fatos preocupantes que devem ser abordados na próxima rodada de negociações climáticas, marcadas para começar dia 3 de dezembro no coração da região produtora de carvão da Polônia.

Uma potente força política

Na imaginação do público, faz tempo que o mineiro do carvão é um símbolo de virilidade industrial, um aceno a uma era em que o trabalho duro - em especial o dos homens, não dos robôs - impulsionava o crescimento econômico.

Essa ideia tem sido central para a política. Os mineiros alemães deram fôlego ao partido de extrema direita do país. O governo de direita da Polônia prometeu abrir novas minas de carvão. O primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison, chegou ao poder defendendo o uso do carvão.

Nos EUA, o presidente Donald Trump prometeu criar mais postos de trabalho na mineração do carvão, por enquanto sem efeito.

Carvão suficiente para ‘100 anos’

Os cálculos econômicos e políticos são muito diferentes na maior democracia do mundo: a Índia (população: 1,3 bilhão de habitantes).

Ajay Mishra, o servidor público de carreira que supervisiona a energia no estado indiano de Telangana, sabe disso por experiência própria.

Ele disse que, cinco anos atrás, seu estado era afetado por cortes diários na eletricidade. Ventiladores de teto perdiam o embalo em sufocantes tardes de verão. Fábricas tinham de recorrer a geradores a diesel. A população de Telangana estava furiosa.

As autoridades estaduais tinham de fazer algo para solucionar o problema da eletricidade. Elas recorreram ao sol, temporariamente fazendo de Telangana um dos principais produtores de energia solar na Índia. Elas também exploraram um recurso que já é usado há mais de um século pelo governo: a imensa reserva de carvão que havia no subsolo.

Agora, Telangana tem eletricidade o tempo todo. Os agricultores recebem eletricidade gratuita para a irrigação. O resultado reforça as esperanças de reeleição do governador, K. Chandrashekar Rao.

“Temos carvão", disse Mishra. “Produzimos mais a cada ano. Estamos garantidos para os próximos 100 anos.”

A Índia depende tanto do carvão que muitas minas pertencem ao estado. O mesmo vale para a maioria das usinas de energia. O carvão subsidia a vasta rede ferroviária do país.

O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi buscou mostrar-se um defensor da energia limpa. Mas Modi também está inaugurando novas minas de carvão.

O secretário de energia da Índia, Ajay Bhalla, disse que há cerca de 50 gigawatts de capacidade elétrica sendo construídos em usinas de carvão. Muitas delas deverão substituir outras, mais antigas e poluentes. 

Mas ele disse que o uso do carvão só vai acabar quando houver uma maneira barata e eficiente de armazenar a energia solar e eólica. Analistas dizem que a Índia deve reequipar sua rede elétrica para a era pós-carvão.

A tecnologia de armazenamento está evoluindo rapidamente. Microrredes podem substituir sistemas de eletricidade tradicionais. Mas, por enquanto, o carvão responde por 58% da composição energética da Índia.

“Não é opção minha usar o carvão como solução", disse Bhallam. “Mas é necessário fazê-lo.”

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