Ilana Panich-Linsman para The New York Times
Ilana Panich-Linsman para The New York Times

Um obstáculo ao muro de Trump: proprietários de terras no Texas

A construção do muro tem andado lentamente, em parte porque os texanos proprietários da terra precisam ser persuadidos ou coagidos a vendê-la, querendo ou não

Zolan Kanno-Youngs, The New York Times

29 de janeiro de 2020 | 06h00

PROGRESO, TEXAS - Dois dias depois de dar ao governo federal a sua assinatura em dezembro, Richard Drawe parou com a esposa e a mãe sobre um dique que pertence à sua família há quase um século para observar os guindastes e as colhereiras (uma ave parentes dos pelicanos). Um muro que será construído na fronteira, em sua terra, com o qual concordou com muita relutância, em breve irá separar esta família texana do dique, do lago e destas aves.

Drawe duvida que o muro consiga deter a imigração ilegal, e embora apoie o presidente que ordenou a construção, acredita que acabará “arruinando” a sua vida. Vender a terra o quanto antes parecia uma solução melhor e mais barata do que enfrentar o governo nos tribunais.

O muro, as luzes e as estradas serão construídos sobre cerca de dez hectares que o seu avô comprou nos anos 1920, e o separarão da visão do Rio Grande que ele tanto ama. “Se me oferecessem um milhão de dólares para construir o muro, se soubesse que eles não iriam construir, recusaria”, afirmou. “Não quero o dinheiro. A minha vida está aqui”.

A Casa Branca espera que os proprietários de terra ajudem o presidente Donald Trump a cumprir a sua promessa de campanha construindo 650 quilômetros de uma nova fronteira até 2021. Até agora, o governo construiu apenas 150 quilômetros, quase todos em terras do governo federal, segundo a Agência da Alfândega e da Proteção da Fronteira. Cerca de 260 quilômetros se estenderão no sul do Texas, e 230 deles se encontram em terras de proprietários privados, informou a agência. O governo adquiriu apenas cinco quilômetros desde 2017.

Os advogados do governo dos Estados Unidos podem argumentar que a construção do muro é uma emergência, o que quase sempre significa que os tribunais concedem ao governo a posse das terras, segundo Efrén C. Olivares, um advogado do Projeto dos Direitos Civis do Texas. A administração pode então começar a construção, mesmo que durante anos os proprietários das terras recorram a meios para obter o pagamento total.

A construção não será na fronteira, que corre ao longo do Rio Grande, mas do lado americano em uma faixa mais afastada. Segundo Drawe, o governo concordou em pagar cerca de US$ 42 mil pelos cinco hectares nos quais o muro será construído, e cerca de US$ 197 mil como indenização pela depreciação do valor da sua fazenda.

Ele acrescentou ainda que encontrou pacotes de drogas na sua terra e que teme que os membros do cartel que Trump cita como motivo para a construção do muro tomem a terra logo ao sul deste. “Se o muro se concretizar”, afirmou, “ele se tornará a nova fronteira.”

Mas a realidade na fronteira mudou. O governo Trump limitou o programa de asilo americano, obrigando cerca de 55 mil imigrantes a esperar no México. E assinou acordos com os quais devolverá as famílias à América Central e limitou o número de famílias a serem liberadas, com o aviso de que deverão voltar aos tribunais de imigração.

Depois disso, em Nogales, Arizona, foi descoberto um túnel inacabado de nove metros de extensão até o México. E em Tucson, Arizona, foi interceptado em maio um avião ultra-leve acionado por controle remoto com uma carga de metanfetaminas e fentanyl no valor de US$ 500 mil.

“A esta altura, é quase como se o muro já fosse obsoleto”, disse Michael Maldonado, 30 anos, filho de Pamela Rivas, uma proprietária de terras no Texas que há 11 anos briga com o governo nos tribunais pela terra que pertence à família desde 1890. “Quanto mais conseguirmos aguentar isto, quem sabe algo possa mudar”, disse Maldonado. “Talvez seja eleito um novo governo que diga: ‘Não vamos tratar disso’ ”. Kitty Bennett contribuiu para a pesquisa/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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