Sara Messinger/The New York Times
Sara Messinger/The New York Times

Murray Bartlett, de ‘The White Lotus’ abre sua própria ostra

Ator australiano vivendo nos Estados Unidos despontou na TV em 'Sex and The City', mas foi com 'Looking' e 'Crônicas de São Francisco que ele ganhou destaque

Alexis Soloski, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2021 | 05h00

NOVA YORK - Com uma sobrancelha arqueada e o tipo de sorriso que deixa suas fãs tontas, o ator Murray Bartlett inclinou a cabeça para trás e sorveu uma ostra recém-aberta.

Isso foi em uma bela manhã logo antes do Dia de Ação de Graças no Marlow & Sons, o restaurante que Bartlett, de 50 anos, frequentava quando morava no bairro de Williamsburg, no Brooklyn. Estrela das séries dramáticas da HBO The White Lotus e Looking, e da versão repaginada de Crônicas de San Francisco, da Netflix, ele se mudou para Provincetown, Massachusetts, há dois anos, mas sempre que possível visita o estabelecimento onde aprendeu a comer ostras.

"A verdade é que sou um grande fã. Aprendi no melhor lugar", disse. E na semana anterior, quando o Marlow & Sons reabriu para o jantar, sua chef, Ryoko Yoshida se ofereceu para ensiná-lo a abri-las.

Yoshida também lhe emprestara um livro de autoria de Mark Kurlansky, para que ele aprendesse mais sobre a história cultural do molusco. O livro ainda não havia sido lido. Mas naquela manhã, vestido com os tons de cinza e marrom típicos de uma floresta invernal, estava ansioso para começar os trabalhos.

Ele se encontra com Yoshida atrás do bar de pedra, e ela lhe entrega um avental cinza e uma pequena faca com cabo de plástico. Atrás deles, uma bandeja de gelo com dezenas de ostras do Lago Eel, na Nova Escócia, com suas conchas espiraladas marrom e cinza. "Elas são bem carnudas e têm uma boa salinidade, um belo toque mineral", afirma a chef.

Ela e David McQueen, diretor de operações do restaurante, também haviam disponibilizado fatias de limão e um vinagrete de chalotas. Um prato de pão fresco e manteiga salgada foi colocado logo ao lado.

McQueen perguntou se Bartlett já havia aberto uma ostra. A resposta foi negativa.

"Qual sua habilidade com facas?", perguntou McQueen.

"Cozinho bastante, mas geralmente com facas cegas. Entro num estado meditativo quando cozinho, e fico com medo de me cortar se a faca for muito afiada", explicou Bartlett.

"Isso vai ser divertido!", comentou Yoshida.

Amigável sem fazer esforço, e com um sorriso que faz seu bigode dançar, Bartlett parece estar sempre se divertindo. Imigrante australiano, chegou aos Estados Unidos no início dos anos 2000, e despontou em um episódio de Sex and the City; depois, passou vários anos sem receber outra boa oportunidade.

Mas os papéis de Dom em Looking e Mouse em Crônicas de San Francisco - ambos homens gays confrontando uma geração mais jovem e seus costumes - foram marcantes. E o bigode ajudou. Então, sua interpretação de Armond, o gerente descompensado de um resort de luxo em The White Lotus confirmou o estrelato, às vésperas de seus 50 anos.

Ele acha que sabe o motivo da demora. Bartlett passou anos tentando mostrar aos diretores de elenco o que acreditava que eles queriam ver. Finalmente, depois dos 40 anos, começou a mostrar a si mesmo.

Consciente de estereótipos, sente-se particularmente responsável por retratar personagens gays em toda sua complexidade e humanidade, mesmo que isso o coloque em situações estranhas, como no pas de deux entre Armond e uma mala no final de The White Lotus. "Não é um personagem comedido", comentou.

Atrás do bar, Yoshida lhe mostrou como segurar uma ostra, mostrando a junção onde a faca deve entrar, e o músculo adutor, que precisa ser cortado em cima e embaixo. Enrolando uma das mãos em um pano de prato, ela agarrou sua ostra, e então, com a outra mão, usou a faca para desconectar a junção. A ostra se abriu com um estouro audível.

Segurando a ostra na horizontal, para que o líquido não escorresse, ela demonstrou como localizar sujeira e pedaços de concha. Então, retirou a parte superior ("A grande revelação!", como disse McQueen), e ofereceu a ostra a Bartlett.

"Uau, está muito boa. O sabor é delicado, sutil. Delicioso", afirmou Bartlett.

Era sua vez. Agarrando a faca com toda força, ele a introduziu na junção e imediatamente quebrou um pedaço da concha. Yoshida lhe incentivou a continuar, agora com mais força.

"Agora, foi", disse ele, abrindo a ostra. Depois de retirar a parte superior, ele a colocou sobre um monte de sal úmido.

McQueen lhe ofereceu emprego de abridor de ostras "se a carreira de ator não der certo".

"Aceito! Abro uma, como uma. Não é tão ruim assim!", brincou Bartlett.

"Ao trabalho!" ralhou Yoshida.

Bartlett abriu mais algumas ostras com rapidez e perfeição.

"Como quebrei a primeira, estou me esmerando nas outras", justificou.

Depois de ter aberto meia dúzia, admirou o resultado de seu trabalho - mesmo aquele exemplar com a concha quebrada, à qual se referiu como "minha ostra da vergonha" - e então sentou-se para comer.

"Vou engolir minha vergonha", anunciou. E assim o fez. "Deliciosa. Dá para sentir o sabor do oceano. Tem um quê de mar realmente incomparável".

McQueen comentou que ele agora poderia ir a qualquer uma das famosas fazendas de ostras de Cape Cod e comprar um saco de ostras frescas.

"Eu sempre quis fazer isso", alegrou-se Bartlett, o que ocorreu algum tempo depois, no Dia de Ação de Graças.

Por e-mail, escreveu: "Sim, eu estava querendo exibir minhas novas habilidades de abridor de ostras. Parece que levo jeito para a coisa".

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