Dylan Wilson via The New York Times
Dylan Wilson via The New York Times

Museu comunitário nos Estados Unidos expõe arte da América Latina

Duas mostras em cartaz no Museo del Barrio tentam honrar suas raízes e, ao mesmo tempo, alcançar um público global

Holland Cotter, The New York Times

28 de outubro de 2018 | 06h00

Às vezes, o endereço pode ser tudo. Isso vale para o mercado imobiliário, é claro, mas a lógica pode se aplicar também à arte. O Museo del Barrio nasceu em 1969 nas salas de aula, fachadas de lojas do bairro predominantemente porto-riquenho de East Harlem, usando o edifício de uma antiga base dos bombeiros. Nas escolas, jovens artistas, frequentemente trabalhando de graça, ensinavam às crianças as virtudes da expressão cultural e da autossuficiência comunitária. Na época, nenhuma das principais instituições de arte aceitava expor sua arte. Eles precisavam de um museu, e, assim, criaram um museu.

Em 1977, o Museo del Barrio mudou-se para a Quinta Avenida, na altura de 104th Street. Com o novo endereço, a instituição ganhou mais espaço e visibilidade. Mas foi também tirada do coração do Barrio. Teve início uma disputa territorial entre aqueles que preferiam uma instituição identificada com a comunidade e os que defendiam uma vitrine de mais destaque para a arte latina e latino-americana.

Depois de fechar para reformas, as galerias foram reabertas com duas exposições itinerantes muito diferentes. A escolha dessa dupla parece calculada para superar o cisma.

Uma das exposições, "Down These Mean Streets: Community and Place in Urban Photography" (Nessas ruas difíceis: comunidade e espaço na fotografia urbana), vinda do Museu de Arte Americana Smithsonian, em Washington, é um levantamento da fotografia de rua latina do final dos anos 1950 até os anos 1970, e o elo com o East Harlem é claro.

Cinco dos dez fotógrafos da exposição trabalharam na região antes chamada de Spanish Harlem, ou nas áreas latinas de Washington Heights, no norte de Manhattan, no Sul do Bronx, e no bairro de Brownsville, Brooklyn.

O fotógrafo Hiram Maristany mistura documentário e retrato. Enxerga o que há de errado no mundo imediatamente ao seu redor - a pobreza, a superlotação - mas também observa a criatividade incentivada pela necessidade de sobrevivência, e o calor gerado por corpos que vivem numa proximidade afetuosa.

A segunda exposição, "Liliana Porter: Other Situations", organizada pelo Museu de Arte SCAD, em Savannah, Geórgia, não poderia ter ideias e aparência mais diferentes. Nascida na Argentina em 1941, Liliana chegou a Nova York quando tinha 22 anos. No início dos anos 1960, com dois outros artistas latino-americanos, ela fundou o projeto experimental New York Graphic Workshop, e sua arte assumiu a partir de então uma direção cada vez mais conceitual.

O levantamento de 35 objetos, instalações e vídeos cobre um período de aproximadamente 50 anos. Em obras dos anos 1970, Liliana traça linhas a lápis em fotografias de suas próprias mãos e rosto, como se desafiasse a percepção ótica. Nos anos 1980 e 1990, Liliana começou a montar e fotografar grupos de brinquedos e bonecas.

A arte de Liliana, que não se declara latino-americana nem latina, se encaixa com facilidade na missão de um museu que se descreve como em termos gerais como "uma instituição cultural latina e latino-americana". A abrangência é válida. Do ponto de vista cultural, muita coisa mudou nos últimos 50 anos. A demografia étnica do East Harlem mudou com a gentrificação em andamento. O mesmo se aplica à necessidade das instituições culturais de atrair o público, tanto local quanto global.

Mas algumas coisas não mudaram. A falta de direitos políticos em Porto Rico continua, evidenciada na inadequada resposta do governo americano após os furacões que devastaram a ilha. Nos próprios EUA, as barreiras de classe erguidas em torno das questões étnicas seguem firmes. E as conquistas culturais, obtidas num contexto muito desfavorável, são frequentemente ignoradas ou esquecidas.

Nos materiais de divulgação, o Museo começa sua autodescrição com as seguintes palavras: "fundado por uma coalizão de educadores, artistas e ativistas porto-riquenhos". E essa realidade deve ser honrada e preservada na própria instituição. O Museo começou como uma plataforma de expressão cultural e ativismo comunitário, e deve permanecer assim. Mas não seria possível utilizar esse espaço para que tal ativismo participe de um contexto mais amplo da população latino-americana, um palco global mais amplo? As origens comuns formam um grupo forte.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.