Yohan Lopez/MAMM via The New York Times
Yohan Lopez/MAMM via The New York Times

Museu de Medellín sobrevive à era da violência

Em seu 40º aniversário, o museu é um marco histórico em uma cidade que foi palco do mais longo conflito das Américas

The New York TImes, Elizabeth Zach

05 Abril 2018 | 10h00

MEDELLÍN, Colômbia - Entre os quase 250 quadros doados pela artista Débora Arango ao Museu de Arte Moderna da cidade, nenhum talvez reflita mais a angústia da violência incessante neste país do que "La Masacre del 9 de Abril".

Em sua obra-prima de 1948, Arango, nascida em Medellín, pintou suas figuras grotescas, ao mesmo tempo sacerdotais e demoníacas, em uma espiral ao longo do campanário da igreja, no meio de uma cidade em chamas. Sua imagem foi uma resposta ao assassinato do líder populista e prefeito de Bogotá, Jorge Eliécer Gaitán, que mergulhou o país no caos e no derramamento de sangue.

Em essência, o assassinato e a obra de Arango seriam o prenúncio de mais de cinco décadas de tumulto, que confeririam à Colômbia a notória distinção de padecer no mais longo e persistente conflito das Américas. Em setembro de 2016, o governo da Colômbia assinou um acordo de paz com o principal grupo rebelde do país, as Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia (Farc), pondo fim a mais de meio século de guerra. 

Este ano, o museu comemora os 40 anos desde sua fundação. O aniversário é um evento notável, mas ainda mais notável é considerar que o museu foi criado por cerca de 20 artistas - entre eles Débora Arango - em meio aos combates do país e à crescente violência que grassava entre os cartéis da droga. Mesmo assim, a cidade hospedou três importantes bienais de arte em 1968, 1970 e 1972, que encorajaram os artistas a começar a planejar um museu para expor a arte contemporânea.

Além disso, a localização do museu em Medellín o torna um extraordinário marco histórico. Nos anos 1980 e 1990, a cidade foi uma das mais violentas do mundo. Era dali que Pablo Escobar governava seu império da cocaína, e foi ali que, em 1993, foi morto pela polícia colombiana. Segundo o Observatório dos Direitos Humanos, durante os 52 anos de enfrentamentos, mais de 7 milhões de colombianos abandonaram suas casas, desapareceram ou foram assassinados. O museu abriu as portas ao público em 1980.

"As pessoas não saíam de casa naquela época", contou a diretora do museu, María Mercedes González. "A vida se desenrolava entre quatro paredes. Mas os artistas, este museu, assim como muitas outras instituições sociais e culturais, persistiram. Havia uma vontade social muito poderosa, uma barreira de resistência, e apesar da guerra e da crise econômica, esta cidade se adequou". 

Em 2006, as autoridades aprovaram a realocação do museu ao edifício Talleres Robledo, em Ciudad del Rio. Em 2015, foram abertas novas galerias, um teatro, livrarias, lojas de presentes e um café. Hoje, o museu é um núcleo urbano impressionante. Sua escadaria desce até a praça em frente a altos edifícios de apartamentos nas colinas orientais de Medellín, e é um ponto de encontro muito frequentado. No ano passado, recebeu 110 mil visitantes.

Em março, foi inaugurada a mostra "Arte em Antióquia e os anos 1970", que apresenta ao público a primeira exposição do museu, realizada em 1978. 

"Há apenas alguns anos, este tipo de reunião teria sido impensável", observou o fotógrafo do museu, Juan Felipe Barreiro.

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