Melanie Metz para The New York Times
Melanie Metz para The New York Times

Grafite ganha lugar de destaque em museu de Miami

Museu do Grafite é a primeira instituição dedicada a contar a história da forma de arte, além de documentar seu desenvolvimento estilístico

Jon Caramanica, The New York Times

19 de dezembro de 2019 | 06h00

MIAMI - Quando Alan Ket era um adolescente crescendo no Brooklyn nos anos 1980, ele se apaixonou pelo grafite que decorava os trens de Nova York. Às vezes, ele era o pintor, mas, mais frequentemente, ele era um detetive, descobrindo os melhores locais para tirar fotos da arte. Nos fins de semana, ele se encontrava com amigos em uma daquelas lojas que prometiam revelar filmes em uma hora para trocar negativos e impressões das fotos de grafites que eles tinham tirado naquela semana.

A conservação foi a chave. "Tantas belas obras de arte foram destruídas toda semana", disse ele recentemente. "Foi horrível." Ket (cujo nome de batismo é Alain Maridueña) levou a conservação do material a sério e construiu uma vida a partir dele, culminando na abertura, neste mês, do Museu do Grafite em Miami, a primeira instituição dedicada a contar a história da forma de arte, além de documentar seu desenvolvimento estilístico.

"Temos que ser nossas próprias autoridades", disse Ket, cofundador do museu. Para uma arte vernacular que se infiltrou na cultura popular, o grafite fez poucas incursões permanentes nos museus de renome. Talvez isso se deva à sua natureza de oposição e à sua efemeridade.

Ket não tem paciência para esse argumento. "É a chave da essência ou é uma resposta às circunstâncias?", perguntou ele. "Eu não sei. Eu acho que todos os caras que pintaram queriam que tudo durasse para sempre.” O "para sempre" é o que ele espera dar aos grafiteiros por meio da codificação e organização da história do grafite, com ênfase especial na técnica.

Com muita frequência, o grafite é explicado principalmente por meio de uma lente sociopolítica, de modo que a exposição inaugural do Museu do Grafite, Mestres do estilo: o nascimento do movimento artístico de grafite, foca nos primeiros princípios - letras como blocos de construção artísticos.

A primeira parede é uma lição de história sobre o desenvolvimento de estilos de escrita de cartas, acompanhada por uma série de fotos de trens entre 1972 e 1976 para demonstrar a rapidez com que o estilo estava mudando. O resto do espaço de 300 metros quadrados oferece uma história profundamente condensada da expressão artística, desde os primeiros momentos em que os grafiteiros estavam aplicando seus talentos em telas até as maneiras como o grafite foi usado em roupas, skates, capas de álbuns e muito mais.

Ket tem o zelo de proteger o legado dos pioneiros não reconhecidos, especialmente à medida que a arte urbana se torna mais conhecida e colecionada. Esse intenso fanatismo histórico - "um desejo de regular, de manter algum tipo de estabilidade entre o caos", disse ele - não é, em essência, diferente de uma abordagem de curadoria formal.

Para esta exposição, não há espaço para Keith Haring ou Jean-Michel Basquiat, artistas adjacentes ao grafite amplamente conhecidos que Ket acredita não pertencerem à verdadeira história do grafite. Ele até recebeu um feedback negativo de PHASE 2, um pioneiro dos anos 1970, que acredita que grafite é "uma palavra depreciativa", disse Ket.

Ket respeita a discordância, mas seguiu em frente mesmo assim. "Lamento, mas vou escrever sobre você, contar sua história e falar sobre sua relevância histórica e seu valor", disse ele. "A minha responsabilidade é maior que a do artista como indivíduo." Antes de se mudar para Miami, há dois anos, Ket era um arquivista e defensor do grafite. Nos anos 1990, ele editou e publicou a Stress, uma revista de hip-hop e grafite. Ele também foi curador de exposições de arte e escreveu estudos sobre artistas importantes.

Durante décadas, ele manteve um arquivo de grafite e começou a pensar se o material não seria mais útil em uma instituição de arte. "Mas de que adianta dar ao (museu) Smithsonian e tudo ficar no armazém deles pelos próximos 40 anos?", disse Ket. "Mais pessoas podem ver o material na minha casa."

Em meados da década de 1980, os grafiteiros reuniram-se no bairro de Wynwood, em Miami, onde o museu está localizado. Eventualmente, uma cena artística mais estabelecida aconteceu ali. Agora, o trabalho dos pioneiros, autorizado ou não, concorre com os murais pintados em ambientes corporativos.

Muitos grafiteiros locais agora veem a área com ceticismo, disse Ket. Eles também podem ver o projeto de Ket como oportunista. Para atenuar essas preocupações, há uma seção do museu dedicada à história do grafite em Miami. "Convidamos todo mundo a voltar", disse ele.

"Queremos continuar dando valor não apenas ao que foi feito no passado, mas ao que está sendo feito no presente", disse Carlos Rodriguez, curador do museu. "Parte disso é o nosso ativismo, certo?" Dado o foco do museu nas gerações fundadoras, "você aprenderá sobre artistas que não têm formação em artes plásticas e começaram do zero", disse Ket. "Não é minha intenção afetar o mercado, mas se esse for o resultado, não acho ruim." TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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