Seth Wenig/Associated Press
Seth Wenig/Associated Press

Museus rejeitam doações de família ligada à produção de opioides

Célebre pelo trabalho filantrópico, a família Sackler é dona de uma empresa que produz medicamentos conhecidos por causar dependência

Alex Marshall, The New York Times

03 de abril de 2019 | 06h00

Recentemente, em Londres, os visitantes do Old Royal Naval College tiveram acesso ao "salão pintado" que reabriu recentemente, uma obra-prima tida como o equivalente britânico à Capela Sistina. Depois, dirigiram-se à Galeria Sackler, onde conheceram sua história.

Em Paris, no Louvre, os amantes da arte persa foram informados de que havia somente um lugar para visitar: a Ala Sackler de Antiguidades Orientais. Quer encontrar a longa fila para o Templo de Dendur, no Metropolitan Museum of Art de Nova York? Procure a Ala Sackler, com seu teto de altura vertiginosa e paredes de vidro.

Durante dezenas de anos, a família Sackler patrocinou museus no mundo inteiro, sem falar nas numerosas instituições  médicas e educacionais, como a Columbia University em Nova York, onde há um Instituto Sackler, e Oxford, onde há uma Biblioteca Sackler.

Agora, algumas das instituições beneficentes favoritas dos Sackler decidiram reconsiderar se vão aceitar o dinheiro. Várias já rejeitaram futuras doações e concluíram que os vínculos de alguns membros da família com a crise da droga superam os benefícios proporcionados pelas consideráveis verbas que costumeiramente recebiam.

Em uma notável atitude de reprovação a uma das dinastias filantrópicas mais eminentes do mundo, os prestigiosos museus Tate de Londres e o Solomon R. Guggenheim de Nova York, da qual um membro da família participou por muitos anos do conselho de direção, decidiu recentemente não mais aceitar doações dos benfeitores Sackler. A National Portrait Gallery da Grã-Bretanha anunciou juntamente com o Sackler Trust o cancelamento da doação de US$ 1,3 milhão que havia sido programada.

O anúncio do Tate ressaltou a "histórica filantropia" da família, mas acrescentou: "Dadas as atuais circunstâncias, não consideramos correto solicitar ou aceitar futuras doações dos Sacklers".

Outros beneficiários da família, como o Metropolitan Museus, decidiram rever suas políticas de doações em consequência da publicidade e das ações legais que cercam a família e sua companhia. De fato, a Purdue Pharma é a fabricante do analgésico OxyContin, um produto extremamente lucrativo, muitas vezes causa de overdoses. Nos Estados Unidos, nos últimos 20 anos, atribuíram-se a medicamentos opioides, como o OxyContin, cerca de 200 mil mortes por overdose.

A Tufts University em Massachusetts, onde há uma faculdade Sackler, informou no dia 25 de março que contratou um respeitado ex-promotor para examinar o relacionamento da universidade com a família.

À medida que o embaraço aumentava, um fundo fiduciário Sackler e uma fundação da família na Grã-Bretanha emitiram declarações afirmando que suspenderiam momentaneamente novas ações filantrópicas. "A atual atenção que a imprensa está dando a esses casos legais nos Estados Unidos está gerando uma imensa pressão", afirmou Theresa Sackler, presidente do Sackler Trust. "Esta atenção está  desviando o foco do importante trabalho" que a família vem realizando.

A rejeição da família também foi além do mundo cultural. Em março, o jornal The Wall Street Journal noticiou que o fundo hedge Hildene Capital Management informou aos Sacklers, no ano passado, que deixaria de administrar seu dinheiro. Em Oklahoma, no mês passado a Purdue Pharma e a família Sackler concluíram um acordo para o pagamento de US$ 270 milhões com o qual encerraram uma ação movida contra ambas pelo Estado. E o estado de Nova York agora processa a Purdie Pharma, à qual acusa de fraude sistêmica.

Para os museus e as outras instituições sem fins lucrativos, rejeitar um patrocinador regular é uma decisão muito mais grave, considerando sua dependência de grandes doações. Alice Bell da 10:10 Climate Action, organização beneficente sediada em Londres, afirmou que cortar os vínculos com os doadores Sackler, no ano passado, significou um prejuízo de 40% para o seu orçamento.

"Evidentemente houve cortes. Mas foi frustrante ver ideias com as quais poderíamos ter começado a trabalhar no mundo real ficarem congeladas como meros esboços em nossos computadores", disse Alice. A instituição, no entanto, está convencida de ter tomado a decisão correta.

O inquérito público da família Sackler ocorre em meio ao exame, no universo dos museus, de quem faz parte de seu conselho de direção e banca seus programas. Adrian Ellis, diretor da AEA Consulting, que trabalha com organizações sem fins lucrativos nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e em outros países, disse que a rejeição geral ao dinheiro da família pressionará outros museus a declarar quais recursos serão aceitos e quais não. / Elizabeth A. Harris contribuiu com a reportagem.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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