Anjum Naveed/Associated Press
Anjum Naveed/Associated Press

Musharraf: exército do Paquistão lamenta condenação de ex-presidente

A mágoa do exército faz lembrar a angústia expressada por Musharraf quando estava no auge do poder, em 2007

Mohammed Hanif, The New York Times

28 de dezembro de 2019 | 06h00

MULTAN, PAQUISTÃO - No dia 17 de dezembro, em um veredicto descrito como histórico pelos políticos da oposição, um tribunal especial no Paquistão condenou à morte o ex-ditador militar, general Pervez Musharraf, por alta traição. O exército paquistanês respondeu com um pronunciamento também considerado histórico: dizia que seus soldados sentiam “dor e angústia” diante da decisão. 

A liderança militar não falou em interesse nacional ou segurança regional, como costuma fazer, usando em vez disso a linguagem poética de um amante que sofre há muito, essencialmente perguntando, "Como puderam fazer isso com um de nós? Um homem que serviu ao país por 40 anos, lutando em guerras pela defesa do país, jamais poderá ser considerado um traidor", dizia o comunicado - e, com essa simples frase, o exército desdenhou dos tribunais e da constituição do país.

A mágoa do exército faz lembrar a angústia expressada por Musharraf quando estava no auge do poder, em 2007 (em 1999, quando era chefe do exército, ele depôs o primeiro-ministro eleito, Nawaz Sharif, depois que Sharif tentou demiti-lo). Musharraf gostava dos prazeres da vida - charutos, eventos culturais, desfiles de moda. Era fã da música Ghazal cantada em Urdu.

Dizia-se que ele apreciava o hino revolucionário de esquerda Hum Dekhenge (Seremos testemunha). A canção foi composta pelo poeta de esquerda Faiz Ahmed Faiz em 1979  - depois de outro ditador militar ter enforcado outro primeiro-ministro eleito - e há muito tempo é popular entre os socialistas que pedem salários dignos, entre as feministas que protestam contra os assassinatos em defesa da honra e até por islamistas que exigem a aplicação da Shariah.

Fiquei bastante perplexo quando soube que Musharraf também gostava da canção. “Também seremos testemunha/Do dia prometido gravado em toda a eternidade", dizem os versos, e depois, “Quando as coroas vão rolar/Quando os tronos serão demolidos". Ali estava um ditador militar - um homem que facilitou a invasão americana do Afeganistão ao oferecer aos Estados Unidos acesso às bases militares do Paquistão - brincando de Che Guevara de porão. Ali estava nosso rei de uniforme falando em deixar rolar a própria coroa.

Estranho, pensei - mas talvez esse fosse o poder da cultura popular, e algumas canções podem transcender as diferenças entre opressor e oprimido. Mas parece que nosso presidente soldado falava sério. No dia 3 de novembro de 2007, ele deu início ao que seria essencialmente um golpe contra o próprio governo, declarando estado de emergência. Ordenou a detenção dos principais juízes e tirou do ar os canais de televisão; dirigindo-se ao país com uma voz queixosa, ele disse, “os extremistas se tornaram muito extremos", e frases como, “ninguém mais dá ouvidos a nós, os generais". 

Mesmo depois que um movimento político de base ampla o obrigou a realizar eleições, ele sonhava em permanecer na presidência. Mas, ameaçado com o impeachment, renunciou em agosto de 2008. Depois de passar algum tempo pensando na humilhação sofrida, ele decidiu (do exílio autoimposto) fundar um partido político, e teria pedido a ajuda dos antigos aliados americanos, “não abertamente, mas de maneira discreta".

No início de 2013, voltou ao Paquistão com a expectativa de calorosas boas-vindas - e, no aeroporto, ouvi-o perguntar, frustrado, “Onde está o povo?” Disputou as eleições em março e não venceu. Mas, hoje, muitos no Paquistão dizem que o mandato de Musharraf foi um período de relativa prosperidade para as classes médias urbanas. Aparentemente, foi possível comprar mais máquinas de lavar, carros, ingressos para apresentações de música e televisores do que antes. Mas havia também casos de tortura, e centenas de ativistas políticos e supostos militantes desapareceram nas masmorras do exército.

Em uma entrevista, Musharraf pode ser visto dizendo não se importar se seus homens usarem furadeiras ou seja o que for para obter informações de suspeitos. Certa vez ele ameaçou um político nacionalista veterano do Baluquistão dizendo, “você jamais saberá o que o atingiu". O homem foi morto por um míssil em 2006.

Embora se considerasse um defensor dos direitos da mulher, Musharraf teria dito ao Washington Post que as mulheres forçam estupros para obter vistos de entrada para o Canadá (ele negou ter dito isso, mas então o jornal divulgou a gravação). Enquanto governava, escreveu um livro no qual descrevia com orgulho um episódio em que trocou prisioneiros paquistaneses por dinheiro americano. Conseguiu o patrocínio do ex-presidente George W. Bush durante uma de suas muitas visitas de estado a Washington.

Musharraf podia fazer tudo isso com impunidade porque tinha certeza que jamais teria de enfrentar a justiça. Certa vez ele disse que a constituição era um pedaço de papel a ser descartado. Acreditava que suas decisões eram a lei; não decidia simplesmente o que estava no interesse nacional: ele era o interesse nacional. e o exército concordava.

O caso de traição contra Musharraf teve início em 2013, e, no dia 2 de janeiro de 2014, quando ele deveria se apresentar no tribunal, o exército paquistanês organizou uma operação de elite para levá-lo a um hospital militar. Posteriormente, ele recebeu permissão para buscar tratamento fora do país. Mas continuou aparecendo na mídia e fazendo palestras. Nos seis anos em que o processo dele foi julgado, Musharraf se apresentou apenas duas vezes, recusando-se a gravar depoimento em vídeo.

Agora que uma decisão foi emitida, o exército paquistanês, com seu comunicado dizendo rejeitamos-esse-veredicto, alega que Musharraf não teve chance de se defender. Depois do desesperado apelo do exército contra a decisão - bem como as estridentes críticas do governo do primeiro-ministro Imran Khan - é grande a probabilidade de a sentença de morte de Musharraf jamais ser cumprida. O exército paquistanês exige e recebe mais amor do povo do que a maioria dos demais exércitos profissionais.

Ainda assim, com essa decisão do tribunal, o exército terá que conviver com a dor e a angústia, além de trabalhar duro se quiser recuperar a impunidade com a qual sempre contou. Mohammed Hanif é o autor dos romances A Case of Exploding Mangoes, Our Lady of Alice Bhatti e Red Birds. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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