Ilustração fotográfica de Sam Cannon The New York Times
Ilustração fotográfica de Sam Cannon The New York Times

Em novo álbum, The Chicks deixam de se preocupar com o que as pessoas pensam

Trio está voltando com seu primeiro trabalho em 14 anos, em paz com uma indústria que nunca foi amigável

Amanda Hess, The New York Times - Life/Style

03 de agosto de 2020 | 05h00

As mulheres que eram conhecidas antigamente como Dixie Chicks sobreviveram ao tradicionalismo da música country, a uma batalha legal com sua gravadora e uma disputa com um presidente e ainda à primeira tentativa de anulação na era da Internet.  À medida que ensaiavam seu retorno – produzindo seu primeiro álbum juntas em 14 anos – elas decidiram brincar um pouco com sua reputação. Assim, ligaram para restaurantes por todo o país com sugestões de cardápio baseados na banda.

The Chicks – elas tiraram a palavra Dixie do nome - contataram os restaurantes por telefone enquanto seu produtor, Jack Antonoff, questionava estabelecimentos sobre as bases conceituais de seus sanduíches Dixie Chicken, com suas maioneses “assumidamente condimentadas” e molhos “controversos”.

“Elas são conhecidas por odiarem os homens”, disse uma garçonete. Antonoff perguntou se seria mais seguro ele pedir um lanche que fosse mais associado ao artista country militante Toby Keith. “O sanduíche Toby Klein tem uma descrição mais lisonjeira” disse Natalie Maines, cantora do grupo, de 45 anos.

Quando contaram essa história das lanchonetes, as integrantes do The Chicks estavam a milhares de distância separadas – Maines conversava pelo Zoom de Los Angeles, Martie Maguire de Austin, no Texas, e Emily Strayer de San Antonio – mas falavam como uma só voz, uma completando a frase da outra e se apertando na frente da webcam como se todas estivessem no mesmo local.

Faz 17 anos desde que suas vidas explodiram e agora elas mantêm uma distância suficiente do que chamam do “incidente” do qual hoje olham os escombros e dão risada. Em 2003, tropas americanas invadiram o Iraque e Maines disse a uma plateia em Londres que “temos vergonha do presidente dos Estados Unidos ser do Texas”.

O comentário desencadeou um boicote nas rádios do país, seu álbum foi queimado em comícios e uma briga com Keith que realizou concertos na frente de uma foto em tamanho grande de Maines abraçando Saddam Hussein. As três apareceram nuas na capa da Entertainment Weely com alguns nomes pelos quais elas eram chamadas escritos em seu corpo.

“O incidente” também foi o presságio de uma onda de ativismo, desqualificação nas redes sociais e campanhas de assédio político. Mas mesmo quando foi expulso de Nashville, Tennessee, o trio entrou na estratosfera pop e dentro de alguns anos se tornou estrela de um documentário, e elas conquistaram um Grammy e se tornaram uma espécie de superpotência – o que Maines chama de “ter uma real capacidade de não se importar”.

Durante 14 anos, elas se importaram tão pouco com o setor de música que o grupo feminino que mais vendeu em todos os tempos nos EUA não lançou nenhum álbum novo. Elas gravaram Taking the Long Way, um grande sucesso em 2016 que apagou sua reputação manchada na música country.

“Os riscos eram muito altos. A música tinha de ser perfeita; tal frase tinha de ser exatamente assim", disse Strayer. “Quando acabou a gravação estava esgotada. Só queria criar meus filhos”, disse Maines. Nos anos que se seguiram desde então, The Chicks se aventuraram em projetos paralelos: Maines lançou um álbum solo, Mother, e Strayer e Maguire lançaram dois álbuns juntas como The Court Yard Hounds. Quando indagada sobre o que foi diferente trabalhando sem Maines, Strayer brincou: “provavelmente foi a causa do sucesso”.

É algo mágico quando essas três mulheres cantam como se fossem uma só. Sua harmonia é icônica – uma representação sonora de irmandade (aliás Strayer e Maguire, na verdade, são irmãs). Num setor que nunca realmente as amou ou as defendeu, elas se tornaram o testemunho da independência feminina.

Elas se movimentam com uma energia de bruxas que não podem ser queimadas. Se você já era fã das The Chicks, o incidente fez com as amasse mais, disseminando seus hinos pop feministas com uma gravitas na vida real. Na fase em que o grupo desapareceu, ele não foi esquecido. E elas se tornaram um modelo para algumas das maiores artistas do mundo pop.

Quando Beyoncé lançou a música Daddy Lessons na entrega dos prêmios da Country Music Association, as Chicks estavam logo atrás dela, cantando baixinho Texas. E quando Taylor Swift precisou de um backup para sua balada Lover Soon You’ll Get Better, ela se apoiou nas vozes das Chicks.

Quando o álbum Gaslighter foi lançado em março, os fãs lutaram para decodificar as alusões aparentemente autobiográficas. Uma frase particular “Boy, you know exactly what you did on my boat” (Rapaz, você sabe exatamente o que fez no meu barco) instantaneamente transformou os fãs do grupo em detetives marinhos.

Eles observaram que o trio havia gravado o álbum numa época em que Maines passava por um divórcio turbulento de um marido estranho que, na verdade, possuía um barco chamado Nautalee, baseado no nome da mulher. No ano passado, o ex-companheiro de Maine requereu a um tribunal para que as músicas fossem confiscadas, alegando haver uma cláusula de confidencialidade no seu contrato pré-nupcial.

Mas a música foi salva, mas desde que o divórcio foi acertado em dezembro, o grupo se mostra silencioso quanto a qualquer fonte de inspiração baseada na vida real. Mas suas músicas falam por si mesmas. Em Tights on My Boat, Maines deixa a questão do barco mais clara.

“You can tell the giril who left her tights on my boat that she can have you now” (Pode dizer à garota que deixou a meia-calça no meu barco que ela pode ficar com você agora). Antes de Gaslighter, Maines estava num período nada inspirador como compositora. Mas de repente ela tinha muito a dizer.

“Passei por muitas coisas no campo pessoal, de modo que eu tinha muito a compor sobre isso”, disse. O grupo sonhava em produzir o álbum com um enfoque único usando um elenco rotativo de produtores. “Mas era muito difícil eu me revelar para muitas pessoas diferentes, disse Maines.

Quando convidaram Antonoff ele as acalmou tanto que elas pediram para ele produzir o resto do álbum. Maines já havia encontrado Antonoff anos antes na festa de aniversário de 60 anos de Howard Stern. Antonoff, que era elemento constante em bandas indie como Steel Train, Fun and Bleachers, também se tornou um colaborador das maiores artistas mulheres da música pop, incluindo Lorde e Lana Del Rey.

Na festa, enquanto Barbara Walters se socializava com Robert Downey Jr, Antonoff estava mais empolgado em “ver uma Dixie Chick se apresentando livremente”, disse ele em uma entrevista. Maines visitou Antonoff em seu estúdio várias vezes e, em 2018, ela o apresentou para suas companheiras.

“Ele era um nerd”, disse Maguire. “Ele está na moda porque é tão adepto do retrô dos anos 1980?”. Antonoff tinha uma energia que se enquadrava na irmandade. Com ele, “nos sentimos tranquilas em compartilhar nossa roupa suja”, disse Maguire. Sua primeira sessão de gravação produziu rapidamente Gaslighter e o grupo imediatamente decidiu seguir aquele som. Maines iria para o Havaí para passar três semanas de férias, mas elas se transformaram numa viagem de trabalho.

Elas reuniram uma coleção de instrumentos e as crianças e foram para Kauai, com Antonoff e a engenheira de som Laura Sisk. Na ilha, compuseram ao som da chuva intermitente e galos cantando. Tiveram de desligar o aparelho de ar condicionado para gravar e assim cantavam encharcadas de suor, como maratonistas. No tempo de inatividade, compravam ukuleles, nadavam em cavernas e comiam raspadinhas de gelo.

“Laura e eu estávamos numa espécie de férias de família com as Chicks e os filhos”, disse Antonoff. Num instante, estavam comendo churrasco usando chapéus de cowboy e camiseta e no momento seguinte “estávamos ensaiando aquelas músicas tão tristes sobre traição e sofrimento”. No início da sua carreira, as Chicks eram desprezadas duplamente, marginalizadas porque se dedicavam à música country e porque eram mulheres.

“Eles nos aceitavam porque ganhavam muito dinheiro conosco, mas não gostavam de nós”, disse Maines, referindo-se ao chairman da Sony. “Não fomos convidadas para o casamento de Tommy Motola”. Quando o grupo anunciou a mudança do nome em junho, tirando o Dixie das suas vidas para sempre, seus fãs disputaram a atenção com comentaristas conservadores no Twitter, que as atacaram furiosamente com indignação.

“Eu costumava me preocupar muito com o que as pessoas pensavam”, disse Strayer. “Realmente hoje há uma parte de mim que não dá a mínima, o que não ocorria antes”. Aquela época, quando era de fato perigoso para um artista fazer uma declaração política – parece que foi há muito tempo. “Eu critico o presidente”, disse Maines, “E faço isto diariamente!”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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