George Etheredge/The New York Times
George Etheredge/The New York Times

Jazzista Milford Graves dá ouvidos ao ritmo que vem de dentro

Artista se dedicou ao estudo dos ritmos do coração, mas acontece que ele estava criando uma técnica para curar a si mesmo

Corey Kilgannon, The New York Times - Life/Style

26 de agosto de 2020 | 05h00

Milford Graves se dedicou ao estudo dos ritmos do seu coração. E acabou criando uma técnica para tratar a própria doença.

Nos anos 1960, Graves se tornou um baterista inovador no jazz de vanguarda, mas juntamente com a sua carreira, ele estudava o impacto que a música produz no coração humano.

Agora, Graves, que aos 78 anos vive na Jamaica, Queens (NY), tornou-se seu próprio objeto de estudo. Ele sofre de cardiomiopatia amiloide, também conhecida como síndrome do coração rígido.

Os médicos o informaram que a doença, também chamada de amiloidose cardíaca, não tem cura. Quando recebeu o diagnóstico, em 2018, disseram que ele tinha seis meses de vida.

Desde então, Graves disse, ele esteve várias vezes perto da morte por causa do líquido que enche seus pulmões. Suas pernas estão muito fracas para caminhar, e ele fica em uma poltrona reclinável na sala de estar com um tubo que alimenta seu coração com um remédio e outro que drena o fluido do seu torso.

Mas ele não se rendeu à doença. Embora esteja sob os cuidados de um cardiologista, ele também se trata com técnicas alternativas que passou dezenas de anos investigando.

Desde os anos 70, Graves estuda o batimento cardíaco como fonte de ritmo e afirma que gravando a maioria dos ritmos e dos tons predominantes do coração de músicos e depois incorporando estes sons, com o que estão tocando, os ajudaria a produzir uma música mais pessoal.

Ele acredita também que os problemas do coração podem ser aliviados gravando o coração doente de um paciente e ajustando-o musicalmente em um ritmo saudável para usar como biofeedback.

Nos últimos meses, ele tem ouvido constantemente o próprio coração com um estetoscópio, monitorando-o com um aparelho de ultrassom, que comprou no eBay. “Então eu estava estudando o coração para preparar o meu tratamento”, afirmou.

Seu diagnóstico só fortaleceu sua pesquisa, as explorações musicais e sua produção criativa como um artista visual, disse Graves, cuja luta diária contra a doença se tornou uma espécie de projeto de arte performática.

Ele disse que está apressando sua pesquisa e organizando tudo, de maneira que possa ser continuada por seus alunos após sua morte, que diligentemente documentam e gravam em vídeo suas atividades diárias, tanto para os arquivos pessoais dele quanto para uma mostra em setembro no Instituto de Arte Contemporânea da Filadélfia.

O curador da mostra, Mark Christman, visita Graves e recolhe seu trabalho mais recente, de esculturas a baterias customizadas a novos vídeos de Graves tocando.

Graves não tem ideia de quanto tempo viverá ainda - “Pode ser três dias, pode ser um mês”, ou mais - mas está determinado a se manter forte o suficiente para tocar ao vivo na mostra, também transmitido por streaming de sua poltrona reclinável.

Onde alguns poderiam ver uma cruel ironia em sofrer de uma doença cardíaca, que ele estudou durante 45 anos, ele vê um desafio. “É como uma força superior me dizendo: Tá bom, colega, você quis estudar isto, aqui vai’”, ele disse. “Agora, o desafio está dentro de mim.”

Ele acha que, de algum modo, “internalizou” o objeto do seu estudo.

“Eu me pergunto: ‘Por que eu recebi algo que, com a minha pesquisa, tentei corrigir?’ ” disse. “É uma doença rara muito pouco pesquisada. Os especialistas afirmam que não há o que fazer, por isso preciso olhar para dentro para obter respostas”.

Graves diz há tempos que um coração sadio bate em ritmos variados, flexíveis, que  respondem a estímulos do corpo. Os ritmos, segundo ele, se assemelham a alguns estilos de tambores tradicionais nigerianos, e, de acordo com estes ritmos, criou algumas de suas abordagens para bateria.

Por causa dos batimentos cardíacos anormais causados por sua doença, que endurece o músculo do coração e pode levar a uma falência do coração, o que ele ouve agora em seu próprio coração é “o som da sobrevivência”, afirmou.

Ele soa menos elástico e mais laborioso do que antes do diagnóstico, afirmou, com uma regularidade mais  metronômica que ele chamou de qualidade rígida insalubre de um batimento cardíaco.

Ele pratica suas técnicas de biofeedback ouvindo o próprio coração com um estetoscópio e imitando o ritmo e a melodia cantando e tocando em um tambor perto da sua poltrona. Ele também toca gravações dos sons do seu coração no tímpano com a ajuda de transdutores eletrônicos, transformando literalmente o tambor em um alto falante.

Isso o ajudou a criar técnicas de bateria, inclusive ajustes nas tensões do tímpano e em novos estilos das baquetas. Continua sendo prática de bateria, mas com uma dificuldade maior.

Nos últimos anos, Graves viu o renascimento de sua popularidade com exibições de sua arte e pesquisa, apresentações em festivais e um longa muito aclamado, Milford Graves Full Mantis.

 

“Em vez de se desesperar, a sua resposta foi: ‘Me pediram para analisar isto mais a fundo’”, disse Jake Meginsky, o codiretor do filme e assistente de Graves de longa data. “Ele está sobrevivendo ao seu prognóstico, e, com o seu processo de criação, ele nos proporciona um registro sobre como é esta sobrevivência”.

A estratégia de Graves não surpreende os que conhecem sua vida nada convencional.

Ele cresceu em conjuntos populares da Jamaica, e nos anos 60 tocou com músicos de vanguarda como Cecil Taylor e Albert Ayler, com os quais se apresentou no funeral de John Coltrane, em 1967. E recusou propostas de Miles Davis para fazer parte do seu conjunto.

Mais recentemente, ele também colaborou com o roqueiro Lou Reed, o pianista Jason Moran e o saxofonista de vanguarda John Zorn.

Graves se tornou um pesquisador científico e músico autodidata, mergulhando na medicina das ervas, na cura holística, na acupuntura, nas artes marciais e em outras disciplinas.

Com apenas um diploma de segundo grau e uma formação médica formal mínima, ensinou a cura pela música e deu aulas de tímpanos no Bennington College, em Vermont, por quase 40 anos, até se aposentar em 2012.

Ele criou um estilo de artes marciais baseado nos movimentos do louva-deus e nas tradições da dança da África ocidental e do Lindy Hop.

“Ele fez muitas coisas por conta própria, e é muito importante que a sua obra continue, por isso ele quer deixar tudo no lugar certo com  as pessoas certas”, disse sua esposa Lois. “Ele sabe que tem mais trabalho pela frente e vai fazer com que seja concluído”.

Desde 1970, o casal mora em uma casa no Queens, que ele decorou com um mosaico à la Gaudí de pedras e vidros coloridos. Eles transformaram o quintal em um pomar luxuriante com muitos limoeiros, ervas e plantas exóticas. Ele transformou uma garagem abandonada em um templo ornamentado que muitas vezes foi usado como dojo para artes marciais.

Mas é no porão que realizou principalmente sua pesquisa sobre coração. O espaço é repleto de ídolos africanos, modelos anatômicos, extratos de ervas. Tambores africanos e uma mistura de equipamentos para monitorar o coração com uma intricada exposição de exames de eletrocardiograma.

Aqui ele contou que tratou de alunos, vizinhos e colegas, e desde 1990 gravou talvez 5 mil batimentos cardíacos. Graves criou programa para analisar os ritmos e os tons do coração causados pelo movimento do músculo e das válvulas. Encontrou maneiras de amplificar os padrões mais obscuros e complexa linhas melódicas nas frequências de vibração sob o tum-TUM básico da batida cardíaca, que usa para a análise musical e médica.

Em 2000, ele recebeu uma bolsa do Guggenheim para a compra de equipamento de monitoração cardíaca. E, em 2017, co-patenteou uma tecnologia para usar as melodias cardíacas para regenerar as células tronco.

O dr. Baruch Krauss, que ensina pediatria na Harvard Medical School e é um médico de emergências no Boston Children’s Hospital, disse que a obra de Graves “teria enorme potencial e possibilidades se  pudesse desenvolver-se em um ambiente clínico.

“Ali há muito a ser estudado e usado como base para futuras pesquisas”, afirmou o dr. Krauss, que acompanha a obra de Graves.

“Ele se mantém continuamente inquisitivo, criativo, interessado”, acrescentou. “Esta doença, na realidade, não freou o seu ímpeto”.

Recentemente, em sua sala de estar, um dos alunos de Graves, Peyton Pleninger, 24, o ajudou a montar um aparelho para tocar os sons do coração, e o assistiu em uma montagem para uma exposição de arte.

“Não quero deixar o planeta com coisas inacabadas”, disse Graves. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Tudo o que sabemos sobre:
músicajazzcoração

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.