Holly Stapleton The New York Times
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Música clássica atrai público mais velho (e isso é ótimo)

Especialmente durante uma pandemia, o envelhecimento do público tem sido visto como um sinal de precariedade. Mas talvez esses ouvintes mais velhos sejam uma salvação

Anthony Tommasini, The New York Times - Life/Style

29 de agosto de 2020 | 05h00

A pandemia do coronavírus representa um enorme desafio para todas as artes cênicas. Existem poucas formas de diminuir o risco de reunir artistas e espectadores no mesmo espaço, sem mudar completamente a experiência dessas formas de arte, que dependem das multidões.

Ainda assim, a música clássica se mostrou especialmente vulnerável a este momento desafiador. Por quê? Devido à percepção de que seu público geralmente é mais velho. "Em muitos lugares nos EUA, o público da música erudita é um retrato da população mais vulnerável aos efeitos da covid-19", escreveu David Rohde no "The Wall Street Journal".

É verdade que a música clássica costuma atrair um público mais velho e que os idosos realmente são mais vulneráveis ao vírus. Na última temporada, a média de idade do público da Metropolitan Opera era de 57 anos. O mesmo vale para a Filarmônica de Nova York. Cerca de 62% do público da Filarmônica tem mais de 55 anos. (Em comparação, a idade média do público da Broadway tem ficado entre 40 e 45 anos ao longo das duas últimas décadas.)

A relativa falta de jovens é desencorajadora. Sobretudo o fato de que apenas 24% do público da Filarmônica tem menos de 40 anos e, portanto, é formado por pessoas que já estabeleceram hábitos que podem se manter estáveis pelo resto da vida em relação aos produtos culturais que consomem (e que não consomem).

Mas os atuais temores acerca da música clássica são bastante conhecidos: mais uma vez, o público idoso é apontado como um indício sinistro de que essa forma de arte se encontra em uma lenta e inexorável decadência. A estrutura que dá apoio a qualquer tipo de arte cênica não é sustentável se depender apenas de financiadores e assinantes idosos; ao menos, esse é o pressuposto para o qual a única resposta envolve iniciativas elaboradas para atrair espectadores mais jovens. Nos últimos anos, a Ópera de Paris criou um programa ambicioso que visa chamar a atenção de pessoas de 20 e poucos anos, com vídeos promocionais descolados e apresentações com ingresso promocional para milhares de jovens.

"Para encontrar seu público, é preciso correr riscos", comentou o diretor-geral da ópera, Stéphane Lissner, em 2018. É claro que ele está certo. E a Ópera de Paris foi bem-sucedida com sua nova companha. Ainda assim, existem sinais claros de preconceito etário nas queixas constantes em relação ao envelhecimento do público de música erudita e ópera.

Para começo de conversa, o público que prefere música clássica sempre foi mais velho. As pesquisas demográficas do passado não eram confiáveis, mas imagens de programas de TV mostram claramente que, mesmo nos anos 1960, quando Leonard Bernstein dava um novo brilho à Filarmônica e atraía jovens como eu para seus concertos, o público era dominado por pessoas com mais de 50 anos.

Ainda assim, ano após ano, fãs idosos continuam a surgir. Isso sugere que o público de mais de 50 anos se reproduz no interior das salas de concerto, um sinal de que, em algum ponto da vida, muitas pessoas começam a frequentar concertos de música clássica, mesmo que não tenham feito isso quando tinham 20 ou 30 e poucos anos.

Um estudo encomendado por quinze orquestras e publicado em 2002 revelou que cerca de metade dos assinantes dessas orquestras tinham 65 anos ou mais, enquanto 17% tinham mais de 75 anos. As coisas não mudaram muito nos últimos 20 anos: na última temporada da Metropolitan Opera, a média de idade dos assinantes era de 65 anos. (Atualmente, poucas pessoas de qualquer faixa etária estão dispostas a comprar ingressos com muitos meses de antecedência, de modo que o número de assinantes tem caído consideravelmente – o que é muito preocupante.)

A música clássica deveria fazer o máximo para cultivar novos ouvintes – ser acessível para qualquer pessoa que deseje participar. Mas a idade avançada dos ouvintes não é necessariamente algo ruim. Em eventos de música erudita, é comum encontrar mais pessoas de bengala, ou ver casais idosos se apoiando enquanto procuram pelos assentos reservados.

Mas, afinal, isso não comprovaria a devoção de um público fiel? Nem sempre é fácil chegar ao concerto, mas eles fazem esse esforço e não ficam em casa assistindo à TV. Durante um debate on-line realizado recentemente e patrocinado pela Liga das Orquestras Americanas, inúmeros artistas e administradores comentaram que a música clássica atrai fãs apaixonados, incluindo os idosos, e que as instituições deveriam apreciar e fomentar essa paixão.

Muitas instituições parecem acreditar que, para atrair espectadores mais jovens, é preciso apresentar um repertório mais novo. Porém, com base na faixa etária, é muito difícil generalizar o tipo de música que atrairá determinado tipo de público. Digo há anos que orquestras e companhias de ópera apegadas demais ao repertório padrão deixam de lado um público mais jovem, que é instintivamente curioso a respeito de obras de arte novas e mais arrojadas.

Além disso, é sempre alentador ver um grande número jovens quando um conjunto apresenta algo novo e ousado, como quando a Filarmônica estreou, em 2019, o oratório "Fire in my mouth", de Julia Wolfe. Em minha experiência, a disputada geração dos "millenials" sempre aparece nos concertos Sound On, da Filarmônica da Nova York, dedicados à música contemporânea.

Contudo, descobri que essa história é muito mais complexa. É fácil exagerar ao falar da curiosidade dos jovens em relação a músicas novas e injusto presumir que os idosos sejam conservadores e resistentes às obras contemporâneas. É verdade que, ao longo dos anos, a maioria das reclamações que recebi de leitores sobre a estreia de alguma peça terrível que tiveram de suportar veio de pessoas que citam décadas de frequência em salas de concerto para validar suas avaliações. Mas não é possível atribuir essa atitude fechada apenas à idade, já que muitos jovens são igualmente resistentes.

Os programas que incluem peças contemporâneas ambiciosas ainda atraem muitos idosos – em geral, animadíssimos por estarem presentes. Certamente, foi esse o caso no ano passado, na estreia de duas óperas sobre temas raciais: "Fire Shut Up in My Bones", no Opera Theater de St. Louis, e "Blue", no Festival Glimmerglass, em Cooperstown, Nova York.

Há um bom tempo, tenho percebido que os principais desafios para atrair um público novo – de todas as idades – para a música erudita estão relacionados à redução da capacidade de atenção em uma era de conectividade contínua. Não importa se o público está diante de um quarteto de cordas de Haydn ou de uma enorme obra para orquestra: quem vai ao concerto precisa se concentrar e realmente prestar atenção em uma apresentação que, apesar de todo o envolvimento dos músicos, não oferece muitos estímulos visuais.

A música clássica deve aceitar essa realidade e divulgar essas apresentações como oportunidades raras de o público se desconectar da vida digital, ao menos por alguns instantes. Sentado em uma sala convidativa com acústica boa, você entra na dimensão criada por um compositor, transmitida pela arte de músicos excepcionais.

Não se trata de uma questão necessariamente geracional. A ópera "Akhnaten", de Philip Glass, convida os ouvintes a se entregarem a uma música que, à primeira vista, parece estranhamente repetitiva e hipnótica, desde as primeiras notas da orquestra. Trata-se de uma peça longa e monótona, cujos ingressos se esgotaram para toda a temporada na Metropolitan Opera, e que atraiu um público jovem.

Independentemente de ser jovem ou idoso, se você tem a paciência necessária para passar por esse tipo de experiência, está pronto para se apaixonar pela música erudita. Se for agitado demais, essa forma de arte provavelmente não foi feita para você. Simples assim. Não importa se você tem 25 ou 75 anos.

Neste momento desafiador, em que novos protocolos sociais são criados e uma pandemia mortal se arrasta, tem havido nos EUA um aprofundamento preocupante de tendências sociais que marginalizam os idosos. Isso chegou ao ápice quando o vice-governador do Texas disse, em março, que "muitos avós" estariam dispostos a se sacrificar para facilitar a reabertura da economia. Esse argumento assustador dá a entender que os mais velhos são dispensáveis.

Enquanto se esforçam muito para aumentar o engajamento dos jovens, mais do que nunca as instituições de música clássica devem tomar cuidado para não se esquecerem do público idoso. Afinal, esses fãs veteranos sempre voltam – e isso deveria ser motivo de comemoração, não de queixas.

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