Calle Toernstroem/Arquivo Reuters - agosto de 2009
Calle Toernstroem/Arquivo Reuters - agosto de 2009
Zachary Woolfe, The New York Times - Life/Style

20 de abril de 2021 | 05h00

Para um músico, não há tarefa mais arriscada do que finalizar uma obra deixada inacabada de Mozart.

“Foi muito insolente da minha parte tentar isso”, disse Timothy Jones numa entrevista recente.

O que começou como uma diversão musical para Jones, um especialista em Mozart e professor na Royal Academy of Music, em Londres, agora está gravado em disco. Sua compilação e finalização de diversos fragmentos de uma sonata para violino e piano foi lançada em março pelo selo Channel Classics, na interpretação da violinista Rachel Podger e Christopher Glynn no piano forte.

Esses trabalhos póstumos não são habituais no mundo da música clássica. O Réquiem de Mozart, como é geralmente apresentado, contém muito material de Franz Xavier Süssmayr. As realizações de Deryck Cooke da 10ª Sinfonia de Mahler – da qual somente um único movimento foi substancialmente concluído com a morte do seu compositor, são muito executadas, mesmo se ainda existem controvérsias em certos círculos da música. As casas de ópera comumente apresentam finalizações padrão do Turandot de Puccini e Lulu de Berg.

Mas o novo álbum Mozart-Jones é inusitado no tocante ao seu enfoque de escolher seu próprio caminho. Jones, testando diferentes aspectos do estilo mozartiano, realizou múltiplos acabamentos de cada fragmento e o álbum inclui parte dessa variedade, dando uma sensação deslumbrante de como a produção criativa não tem limite – como diferentes sinfonias (ou pinturas, ou romances) que conhecemos e amamos poderiam ter acabado.

“O que de mais importante resultou disso, eu acho, é que de certa forma dramatiza a abertura até de partituras acabadas”, disse Jones.

O musicólogo entrou nesse jogo quando pesquisava para um livro sobre o final da carreira de Mozart. Examinando esboços feitos pelo mestre – mais de 100 fragmentos instrumentais sobrevivem da sua década final de vida – e como eles se inserem nas obras canônicas, Jones ficou fascinado. Mas quis trabalhar com eles de uma maneira que, para um musicólogo pelo menos, não fosse convencional.

“Havia coisas que eu desejava dizer sobre esses fragmentos que seriam mais facilmente ditos por pontos na página mais do que prosa”, ele afirmou.

Ele experimentou completar algumas peças de câmera, depois um concerto para violino de 1788. “O experimento adquiriu vida própria”, afirmou, “e isso me deixou preocupado na maior parte destes últimos sete anos”.

Os fragmentos não foram novas descobertas, pois já eram conhecidos desde o século 19. Mas pesquisas mais recentes, incluindo a dos estudiosos Alan Tyson e Ulrich Konrad, ajudaram a datá-las com mais precisão, permitindo a Jones se concentrar na exploração das circunstâncias em que Mozart os criou.

“Ter um sentido preciso do contexto é que me permitiu fazer perguntas hipotéticas detalhadas sobre qual seria sua estratégia em termos de composição. No que ele estava trabalhando, a que estava prestando atenção, quais os seus interesses composicionais? Isso foi chave porque seu estilo ainda estava evoluindo muito rápido até ele morrer, em 1791”.

A pesquisa de Tyon, que envolveu um estudo detalhado do papel manuscrito que Mozart utilizou, sugeria que um dos fragmentos, 34 obscuros compassos em Lá maior, era de 1784. Mas o compositor também usou esse tipo de papel em 1787. Portanto, Jones apresenta resultados que poderiam ter origem em ambas as opções, incluindo uma (mais extrovertida) no estilo de outras peças que Mozart compôs em 1784 e outra (mais intimista) em 1787.

O que se acredita ser o mais recente dos fragmentos da sonata para violino e piano – 31 compassos pungentes, mas exuberantes, de um Allegro em Sol – Tyson concluiu que ele foi composto nos últimos dois anos de vida de Mozart, bem depois de sua última sonata completa para violino. Uma das conclusões de Jones é que era uma reminiscência do lirismo relativamente direto daquela sonata acabada (K. 547, no catálogo cronológico padrão).

Outra conclusão, contudo, vê o fragmento como parte de um novo começo em torno de 1790, com harmonias mais complexas emprestadas do Quarteto para Cordas K. 590 e o concerto para Piano K. 595.

Nos círculos de estudiosos, a resposta ao trabalho de Jones tem sido positiva - mais ou menos.

"Alguns acham que são jogos de salão inúteis, alguns estão um pouco mais acostumados a eles", disse ele. "Algumas pessoas são tão polidas que não falam na sua cara. São estudiosos de Mozart que sabem do trabalho que tenho feito e no geral estão interessadas. Sim, há preocupações quanto a fazer uma história contrafactual. Mas penso nisto apenas como críticas; não são diferentes de improvisar uma cadenza."

Enfatizando que nunca se propôs a ser um finalizador compulsivo, Jones disse que quase terminou seu projeto se passando por um co-compositor de Mozart. “Há alguns trechos interessantes para mim que não tratei”, afirmou. “Mas eu quis ir em frente e terminar o livro que interrompi para concluir esta tarefa.

“Deixando de lado a presunção”, afirmou, “gostaria mais que Mozart tivesse finalizado essas peças, não eu”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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