Carsten Snejbjerg / The New York Times
Carsten Snejbjerg / The New York Times

Quando os violoncelos tocam, as vacas voltam para casa

Uma colaboração entre um criador de gado e um programa de estudos de música da Dinamarca leva recitais regulares a gados mimados

Lisa Abend, The New York Times- Life/Style

29 de maio de 2021 | 05h00

LUND, Dinamarca – Durante uma recente apresentação do Pezzo Capriccioso de Tchaikovsky, um grupo de ouvintes atentos, se curvou para frente com os olhos brilhantes, enquanto algumas discretas fungadelas encorajadoras escapavam da plateia em geral silenciosa. Embora relativamente recém-chegados à música clássica, eles pareciam muito sintonizados com os oito celistas no palco, levantando as cabeças abruptamente quando a melodia lânguida da peça dava lugar a rápidos golpes de arco.

Quando a peça terminou, entre aplausos fervorosos e gritos de “bravo”, pôde-se ouvir um 'muu' de apreciação.

Num domingo em Lund, uma aldeia a cerca de 80 quilômetros ao sul de Copenhague, um grupo de celistas de elite tocou dois concertos para algumas vacas amantes da música e seus colegas humanos. Culminação de uma colaboração entre dois criadores locais de gado, Mogens e Louise Haugaard, e Jacob Shaw, fundador da vizinha Escola de Violoncelo da Escandinávia, os concertos  têm a finalidade de chamar a atenção para a escola e os jovens músicos residentes. Mas a julgar pela resposta de ambos os apreciadores, de duas e de quatro pernas, também demonstraram como pode ser popular a iniciativa de trazer vida cultural para áreas rurais.  

Até poucos anos atrás, Shaw, 32, que nasceu na Grã-Bretanha, viajou pelo mundo como celista solista, apresentando-se em lugares consagrados como o Carnegie Hall e a Opera House de Guangzhou. Quando se mudou para Stevns (região à qual Lund pertence) e abriu a Scandinavian Cello School, ele logo descobriu que os seus vizinhos, a família Haugaard, que cria gado Hereford, também eram amantes da música clássica. Na realidade, Mogens Haugaard, que é ex-prefeito de Stevns, faz parte do conselho da Copenhagen Philharmonic Orchestra.

Quando o celista, que havia excursionado pelo Japão com a orquestra, contou ao fazendeiro como as famosas vacas mimadas da raça Wagyu do país  eram criadas para produzir carne macia, não precisou muito para convencer Mogens Haugaard a adotar um componente da sua criação para o seu próprio gado.

Desde novembro, um aparelho de som que toca Mozart e outras música clássica no celeiro de Haugaard, tem feito serenatas diárias para as vacas. Cerca de uma vez por semana Shaw e alguns estudantes residentes aparecem para uma apresentação ao vivo.

Embora não seja claro se os novos hábitos musicais das vacas afetaram a qualidade da sua carne, o fazendeiro notou que os animais vinham correndo sempre que os músicos apareciam e se aproximavam ao máximo quando eles tocavam.

 

“A música clássica faz muito bem aos seres humanos”, disse Mogens. “Ela nos ajuda a relaxar, e as vacas podem dizer se nós estamos relaxados ou não. Faz sentido que elas também possam se sentir bem”.

Entretanto, nem sempre é boa para as pessoas que a tocam. Shaw disse que fundou a Scandinavian Cello School para ajudar músicos principiantes a se prepararem para as demandas menos glamourosas de uma carreira profissional em uma indústria que às vezes pode engolir jovens artistas na busca constante do próximo gênio.

Enquanto excursionava internacionalmente como artista autônomo, ele se sentia exausto pela luta nas negociações dos contratos, promovendo a si mesmo e viajando incansavelmente, disse em uma entrevista. Esta experiência, juntamente com um período como professor de uma prestigiosa academia de música em Barcelona – o fez perceber que havia um buraco ali que precisava ser preenchido.

Em sua encarnação original, a Scandinavian Cello School era uma organização itinerante – mais um campo de treinamento em constantes deslocamentos do que uma academia. Mas, em 2018, Shaw e sua namorada, a violinista Karen Johanne Pedersen, adquiriram uma casa de fazenda em Stevns e a transformaram em uma base permanente para a escola. Os seus estudantes, provenientes do mundo inteiro e em geral com idades entre 17 e 25 anos, permanecem por um período para aperfeiçoar os seus talentos musicais e profissionais – e também como chegar a um equilíbrio entre a vida e o trabalho.

A localização ajuda para isto. Situada a uns 500 metros do mar, a escola também oferece aos músicos visitantes a oportunidade de brincar na horta, procurar ervas na floresta próxima, pescar para o jantar ou apenas para relaxar longe da cidade.

Este ambiente foi em parte o que atraiu Johannes Gray, um americano de 23 anos, atualmente morando em Paris, que ganhou o prestigioso Prêmio Pablo Casals Internacional em 2018. Inicialmente, Gray visitou a Escola em 2019, e então voltou para as primeiras admissões depois da pandemia, atraído pelas oportunidades de desenvolvimento da carreira e pelas atividades de lazer.

“Jacob me aconselha sobre como criar um programa e basicamente formá-lo de maneira a torná-lo mais interessante",  disse Gray. “Mas nós dois somos também dois grandes amantes da comida, e adoramos cozinhar, por isso, depois de um longo dia de ensaios, podemos sair e pescar ou planejar um enorme banquete. Não é apenas a música.”

Enquanto os músicos se beneficiam do ambiente, esta região fundamentalmente agrícola lucra com o pequeno vai-vem de artistas internacionais. A escola recebe alguma ajuda financeira da prefeitura e das empresas locais. Em troca, os músicos visitantes – sete vieram para a atual residência – se apresentam em escolas e cuidam das instalações da região. E ainda tocam para as vacas.

Por causa das restrições com o coronavírus, alguns concertos foram realizados ao ar livre, e o público de cada um deles foi limitado a 35 pessoas (ambos com lotação esgotada). Entre os ouvintes que tiveram a oportunidade de aproveitar dos hambúrgueres feitos por um chef local com a carne dos Haugaards durante uma das apresentações, estava a ministra da Cultura da Dinamarca, Joy Mogensen, que contou que este foi o primeiro concerto ao vivo ao qual ela assistira em seis meses.

“Tive a oportunidade de testemunhar muita criatividade nesses últimos meses”, ela afirmou em uma entrevista. “Mas digital não é a mesma coisa. Espero que seja uma das lições que devemos extrair do coronavírus, o quanto todos nós – até as vacas – sentimos falta de estarmos juntos em eventos culturais”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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