Elliott Verdier/The New York Times
Elliott Verdier/The New York Times

Eddy de Pretto é o novo som da França

Nascido nos subúrbios de Paris, o cantor causou com dois álbuns que remetem tanto ao chanson dos anos 60 quanto ao hip-hop contemporâneo.

Jason Farago, The New York Times - Life/Style

06 de maio de 2021 | 05h00

Eddy de Pretto tem 27 anos e canta em alguns dos maiores palcos da França – ou cantava, quando estes estavam abertos. Quando tinha 21 anos, ele se apresentava para um público muito menor: os turistas dos bateaux-mouches, os cruzeiros turísticos de Paris que transportam milhões de pessoas pelo Rio Sena.

"Era um trabalho muito louco. Eu cantava naqueles cruzeiros em que servem o jantar", disse de Pretto em uma entrevista recente, diretamente de Paris. Ele se lembrou de que, no pequeno palco no restaurante do barco, fazia serenatas para turistas com os padrões melosos de Charles Trenet, sem nenhuma reação do público. "Eles comiam olhando para a Torre Eiffel. Nem percebiam que alguém estava cantando – pensavam que era uma trilha sonora. Mas aqueles três anos nos bateaux-mouches foram um exemplo perfeito de como é construir uma carreira. Foi extremamente formativo cantar todas as noites diante de pessoas que não davam a mínima para aquilo."

Aquelas noites solitárias nos barcos são a origem de À Tous Les Bâtards (Para todos os bastardos), o segundo álbum de de Pretto, lançado na França no mês passado. "Eu estava esperando pacientemente para subir ao trono / E eles cantavam minhas músicas como cantei 'La Vie en Rose'", canta no primeiro single, "Bateaux-Mouches", cuja letra trata de suas origens humildes e lembra a ostentação do hip-hop. Mas falar em Rihanna e Édith Piaf como suas estrelas-guia? Isso é mais raro.

De Pretto alcançou a fama em 2018, com o álbum Cure, que faturou três discos de platina, e sua mistura de batidas urbanas e poética de chanson não era seu único atributo incomum. O disco apresentava sua voz: grande e vibrante, com cada sílaba articulada. O disco também apresentava seu visual: moletons e agasalhos, uma barba de três dias e uma tonsura louro-avermelhada de monge medieval. E revelava sua biografia: um jovem gay, desinibido e despreocupado, vindo de um subúrbio que os parisienses consideram caipira.

Ele nasceu em 1993 em Créteil, cidade-satélite a sudeste da capital. Seu pai era motorista e sua mãe, técnica médica que adorava a velha geração de cantores e compositores franceses. "Vivíamos em conjuntos habitacionais públicos e minha mãe sempre ouvia Barbara, Brassens, Brel, Charles Aznavour. Ouvia isso o tempo todo, e muito alto também. Alto o suficiente para escutar mesmo quando estivesse passando o aspirador de pó", relembrou.

De Pretto contou que praticava esportes quando criança, mas era tão ruim nas quadras que sua mãe o matriculou em aulas de teatro. Ele se adaptou melhor aos palcos e até conseguiu algumas pontas na TV e no cinema. Mas suas tendências teatrais não estavam em harmonia com a cultura machista dos subúrbios de Paris.

Essa tensão inspirou seu primeiro single, Kid, balada lenta sobre os pais que têm filhos afeminados. "Você será másculo, meu filho", canta de Pretto, acompanhado por acordes minimalistas de piano e batidas eletrônicas, enquanto o clipe exibe a dificuldade que enfrenta para cumprir essa missão. Sem camisa e encharcado de suor na academia, de Pretto é magro demais para levantar os halteres enormes, preso entre as expectativas da família e sua verdadeira natureza.

"Cada palavra de Kid é maravilhosa. Ele enfrentou muitas provocações e conseguiu sobreviver em um bairro difícil, com amigos difíceis. E acho que ele conquistou respeito – eu não mexeria com ele. E, ao mesmo tempo, ele é muito frágil e emotivo", disse a cantora Jane Birkin, que fez um dueto com de Pretto em 2018.

Kid foi sucesso instantâneo na França e pareceu surgir do nada. A voz pesada do cantor parecia um retrocesso aos anos 60, mas ele cantava ao ritmo de batidas minimalistas, soturnas e graves. Cheia de gírias, a letra tinha a vibração dos subúrbios, mas era tão poética quanto ácida, com a atenção francesa ao que de Pretto chama de "o peso da palavra".

Alguns músicos gays tratam a própria homossexualidade como algo irrelevante; outros querem fazer dela uma marca de distinção. O que tornou a estreia de de Pretto tão emocionante foi que ele não fez nenhuma das duas coisas. O cantor assumiu sua identidade ao máximo e, portanto, não fez dela algo especial: "Estou escrevendo do meu ponto de vista como gay. Mas as canções não são uma defesa da homossexualidade. Quer dizer, sim, sou gay e estou olhando para a sociedade."

Ele, no entanto, gravou um hino de orgulho. Grave é um incentivo engraçado e sujo a jovens gays ansiosos – pense em Beautiful de Christina Aguilera para adolescentes cuja primeira visão da intimidade com o mesmo sexo vem por intermédio de streaming de vídeo. É uma ária que cataloga ritos de passagem gays que, segundo canta de Pretto, "não são grande coisa": observar os colegas na aula de educação física, fantasiar sobre o melhor amigo e muitos outros momentos que não podem ser impressos em um jornal familiar. "Não viver a vida: isso sim é grave!", diz o refrão.

"Se eu tivesse de compará-lo a alguém, seria com Christine and the Queens, embora Eddy não tenha explodido internacionalmente. Christine realmente abriu o caminho para questões de gênero e orientação sexual, mas Eddy é muito, muito francês. Tem havido uma globalização da música, mas, quando você ouve Eddy de Pretto, sabe que está no 11º Arrondissement", afirmou Romain Burrel, editor da revista gay francesa Têtu.

Musicalmente, À Tous Les Bâtards é parecido com Cure: a mesma voz potente, as mesmas batidas minimalistas. Mas as letras de de Pretto se tornaram menos irritadas e mais confessionais. Désolé Caroline ("Desculpe, Caroline"), seu segundo single, a princípio soa como uma música de separação, dirigida por um jovem gay à garota heterossexual que ele não pode amar. (Na entrevista, de Pretto descreveu esse tipo de rejeição romântica com o charmoso verbo "friendzoné", que mistura inglês e francês.)

Mais uma vez, essa "Caroline" – que o cantor quer tirar "das minhas veias" – pode não ser uma garota de verdade. Pode ser a personificação da cocaína: um duplo sentido que ele destaca no videoclipe, que mostra de Pretto com um casaco branco, cantando em meio a rajadas de neve. "Adoro brincar com o duplo sentido, porque abre o campo das possibilidades", comentou.

Os subúrbios de Paris têm dado origem a muitos dos melhores cantores, atores e artistas franceses, sem falar dos atuais campeões mundiais de futebol. No entanto, a maior e mais diversa cidade da Europa Ocidental ainda trata as cidades que ficam fora do anel viário como lugares inacessíveis. "Esse foi o projeto por trás do primeiro e, espero, desse segundo álbum: romper essa fantasia, essa ideia comum do que acontece nos subúrbios, e a visão bastante estereotipada do que é ser gay. Esse é o trabalho de um artista em busca de pontos de vista que ainda não foram encontrados", concluiu.

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