Cornell Tukiri/The New York Times
Cornell Tukiri/The New York Times

Como estrelas do pop chegam ao TikTok? Querendo lucrar com o agito

Quando a música de um artista desconhecido ganha atenção no aplicativo, um remix com participação de algum artista famoso normalmente chega em seguida

Jon Caramanica, The New York Times - Life/Style

08 de abril de 2021 | 05h00

Nas semanas mais recentes, um dos desafios que pipocaram no TikTok envolveu um trecho de Buss It, da rapper Erica Banks, de Dallas. É uma espécie de finta mental — a música começa com um sample de Hot in Herre, de Nelly, antes de alternar abruptamente para seu animado refrão, uma trilha sonora perfeita para um desafio clássico do TikTok com troca de visual, mudando do desgrenhado para o fabuloso.

Buss It foi lançada em meados do ano passado e chamou alguma atenção, mas não muita. Por causa do  TikTok, porém, a música ganhou um novo vigor, virou uma canção reconhecida por milhões de pessoas, mesmo que não seja muito conhecida. Para Erica, significa uma oportunidade e um impulso para uma carreira em início, mas uma música como essa — intensamente viralizada, mas não a ponto de saturar as pessoas — também é perfeita para a cooptação do público. E então, com a precisão de um relógio, poucas semanas após Buss It estourar, Travis Scott, um superastro do hip hop, lançou um remix oficial da canção.

Uma colaboração como essa é uma dádiva para Erica, dando a Buss It melhor oportunidade de tocar no rádio e em plataformas de streaming. Mas também serve a um propósito igualmente valioso para Scott, que se beneficia da associação com uma sensação viral — ele é um convidado, mas também um oportunista.

Esse é o mais puro exemplo de como artistas já estabelecidos — e as grandes gravadoras que dependem deles — têm se aproximado desse ingovernável aplicativo. O TikTok é caótico, por vezes indomável e, ainda que não seja imune a um marketing de cima para baixo, funciona melhor do que qualquer outra plataforma de rede social para amplificar a obscuridade.

E assim, artistas consagrados — alguns geralmente já além do ponto de conquistar organicidade em um aplicativo desenhado para a geração Z — estão frequentemente abrindo novos caminhos remixando hits da moda. Beyoncé, Nicki Minaj, DaBaby, Justin Bieber, Jessie Reyez, Young Dolph e muitos outros: todos tentaram surfar a onda do TikTok antes que ela quebre.

O TikTok é uma plataforma destinada a descobertas livres, uma maneira de os jovens, ou aqueles que se sentem parte dessa turma, escolherem qual trecho de música consideram esteticamente mais atraente, ou mais divertido para dançar, ou mais adequado para debater as negociações da GameStop e de dogecoins.

Com muita frequência, essa música é de autoria de uma pessoa relativamente desconhecida. As gravadoras, naturalmente, se engalfinham para contratar esses artistas, frequentemente por meio de acordos de curta duração, com a esperança de que possa existir um segundo hit de sucesso engatilhado. De acordo com o relatório emitido pelo TikTok sobre 2020, cerca de 70 músicos assinaram contratos com gravadoras após fazer sucesso na plataforma (o documento não especifica o valor nem a duração dos contratos).

Mas o TikTok é um ecossistema geralmente fechado, o que significa que músicas populares no TikTok podem se limitar apenas à popularidade nessa plataforma. Com frequência, uma gravadora pode conseguir mais sucesso tentando amplificar uma canção que já é um sucesso viral ao colocar um artista famoso para interpretá-la, em vez de investir em um artista desconhecido e esperar que o raio caia no mesmo lugar. Essa é a razão se ser desses remixes, que são acima de tudo movimentos predatórios com roupagem de caridade.

Apesar do sucesso desses remixes variar bastante, todos eles emanam da associação dos mesmos elementos. E às vezes ambos os lados se beneficiam. O precedente mais crucial desse arranjo é a saga de Old Town Road, de Lil Nas X, cujo remix com a participação de Billy Ray Cyrus chegou ao topo da parada Billboard Hot 100 em 2019 e ficou por lá graças a remixes posteriores, com Young Thug, Mason Ramsey e BTS.

Esse mecanismo também foi responsável pelo sucesso da canção de trajetória mais incomum a chegar ao topo da parada Hot 100: Savage Love (Laxed - Siren Beat). Essa música começou a vida apenas como Laxed - Siren Beat, um arranjo instrumental feito pelo adolescente neozelandês Jawsh 685, em seu quarto, que acabou no TikTok sem o conhecimento dele e virou acompanhamento para a voz de Jason Derulo. Essa música também se tornou um fenômeno pop e conquistou a primeira posição nas paradas por meio de um remix de ninguém menos que o magnânimo e sagaz conjunto BTS.

Assim é o remix enquanto estratégia astuta e bem definida. Com muito mais frequência, porém, essas parcerias são efêmeras e acabam na lata de lixo dos remixes pós-virais no TikTok. Alguns artistas tornaram a tentativa de se aproveitar de sucessos do TikTok uma carreira secundária. Tyga estreou no ano passado com uma inteligente apropriação de Bored in the House, transformando em música um trecho de comédia de Curtis Roach, mas depois se tornou um convidado frequente demais, presente em remixes como Lets Link, de WhoHeem, e Vibe (If I Back It Up), de Cookiee Kawaii. Pode ter feito sentido para Nicki Minaj o remix de Say So, de Doja Cat, mas sua tentativa de sequestrar Whole Lotta Choppas, de Sada Baby, foi desconcertantemente bizarra. A aparição de Lil Uzi Vert no remix de Party Girl, de StaySolidRocky, pareceu forçada, mas sua presença em Adderall (Corvette Corvette), de Popp Hunna, agradou — incluindo a participação no vídeo —, o que tornou esse remix um dos raros exemplos em que um superastro desce da estratosfera para se colocar no mesmo nível do aspirante.

Mas, mesmo enquanto grandes gravadoras e artistas consagrados continuam a farejar oportunidades e capitalizar com as viralizações, os remixes do TikTok podem acabar lembrados como relíquias de uma era de transição, especialmente no momento em que a plataforma começa a cunhar suas próprias estrelas e seus próprios hits.

Mais ou menos no mesmo período em que Buss It passou de vídeo viral a remix superestrelar, Olivia Rodrigo dominou a parada Hot 100 com Drivers License, uma música que fez sucesso no TikTok quando foi lançada e rapidamente se tornou a mais importante canção pop do ano.

Neste momento, qualquer remix com a participação de um artista ainda mais famoso pareceria artificial, ressaltando que, em todos esses casos, o verdadeiro centro gravitacional foi a música, e não o superastro que se infiltra na popularidade da canção. Tudo que os anciãos podem fazer é sentar e escutar — e ferver de raiva em silêncio. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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