Justin T. Gellerson/The New York Times
Justin T. Gellerson/The New York Times

Hyperpop, uma pequena playlist do Spotify, virou um grande negócio

Alimentado por adolescentes iniciantes, como osquinn e glaive, e nomes mais estabelecidos, como 100 gecs e A.G. Cook, o microgênero tem seguidores aficionados e muitos tipos diferentes de sons

Ben Dandridge-Lemco, The New York Times - Life/Style

15 de dezembro de 2020 | 05h00

Numa noite de fevereiro, osquinn começou um bate-boca no Twitter e decidiu fazer uma música sobre o episódio. De seu quarto nos subúrbios da Virgínia do Norte, a adolescente de 15 anos se conectou a um servidor do aplicativo de bate-papo por texto, voz e vídeo Discord, onde cerca de 50 de seus amigos de internet, todos jovens artistas como ela, costumavam passar as noites jogando videogames e fazendo música juntos.

Numa entrevista recente, ela explicou como ouviu uma batida irregular de blackwinterwells, um vocalista e produtor de Hamilton, Ontário, numa conversa por vídeo. Sem conseguir se concentrar no seu dever de casa naquela noite, osquinn rapidamente gravou uma música em cima da batida.

Poucos dias depois, ela a lançou no SoundCloud e depois fez o upload em serviços de streaming por meio do serviço de distribuição independente DistroKid. Com pouco mais de um minuto, ‘Bad Idea é uma cascata de vocais agudos e sintetizadores abrasivos, com osquinn cantando num tom nada afetado.

“Ainda estou presa e não consigo trabalhar, estou muito distraída

Vi seu tweet e reagi, foi uma má ideia”.

Desde então, os usuários do Spotify ouviram Bad Idea mais de 1 milhão de vezes, um feito impressionante para qualquer artista independente na plataforma, ainda mais para alguém que é jovem demais até para dirigir. Muito do sucesso da música pode ser atribuído a uma playlist do serviço de streaming chamada Hyperpop e à 100 gecs, a dupla eletrônica experimental formada por Laura Les e Dylan Brady, cujo álbum de 2019, 1000 gecs, cruzou gêneros e referências on-line em alta velocidade.

 

Em julho, Les e Brady assumiram a playlist do Hyperpop como curadores convidados, a partir da comunidade de artistas que vinham desenvolvendo no Discord e no SoundCloud, onde Les disse que encontrou a maior parte das músicas que adicionou. Um mês antes da entrada no Hyperpop, ela tuitou um grande elogio à música de osquinn: “muito brava por não ter feito Bad Idea”.

“Acho que o hiperpop evoluiu para ser um termo flexível o suficiente para que eu não hesitasse mais em ampliá-lo”, disse Les em entrevista por telefone. “Parece que ele está abrangendo mais coisas”. A playlist Hyperpop, que estreou no Spotify em agosto de 2019, começou como uma resposta direta à viralização da 100 gecs.

“O fato de tantas pessoas estarem falando sobre este projeto nos inspirou a olhar mais a fundo e ver se havia outros artistas fazendo música como estas que não conhecíamos”, disse Lizzy Szabo, editora do Spotify e principal curadora da playlist, numa entrevista por telefone.

No começo, o Hyperpop apresentava músicas da 100 gecs e de artistas associados ao PC Music, o coletivo e selo pop experimental fundado em 2013 pelo produtor, cantor e compositor britânico A.G. Cook e pelos precursores do som pop distorcido que ficou associado ao termo. Szabo e seus colegas o descobriram depois de vê-lo aparecer em metadados coletados por Glenn McDonald, o “alquimista de dados” do Spotify, cujo trabalho é encontrar sons emergentes na plataforma e classificá-los em “microgêneros”.

Quase da noite para o dia, osquinn viu as visualizações de Bad Idea subirem para centenas de milhares. (No Spotify, a música de osquinn está listada sob o nome P4rkr, que ela usava antes de se assumir transgênero em abril). A música teve um desempenho tão bom na playlist que, duas semanas depois da entrada da 100 gecs, Szabo e outros editores a colocaram como sua “capa”.

Se osquinn virou a estrela mais visível do hiperpop, então glaive, também com 15 anos, teve uma ascensão mais rápida que qualquer outro artista na cena. Ele começou a gravar suas primeiras músicas no início da quarentena, inspirado pelo rapper Lil Peep, até que encontrou artistas da cena hiperpop e rapidamente passou a fazer um som mais brilhante e acelerado, que enfatiza seus vocais intrincados. “Sinto que o hiperpop não é um gênero”, disse glaive numa ligação pelo FaceTime de sua casa numa pequena cidade perto de Asheville, Carolina do Norte. “Eu fiz músicas pop puras, nada de hiperpop, mas mesmo assim elas serão colocadas sob o rótulo do hiperpop porque sou amigo de todas as pessoas que fazem ‘hiperpop’”.

A playlist Hyperpop é um exemplo do que Szabo chamou de “playlist baseada na comunidade”. Semelhante a Lorem, outra playlist do Spotify que começou em 2019 e que visa a um tipo específico de ouvinte da geração Z, trazendo muitas variedades de música pop emergente, o Hyperpop quer engajar os jovens artistas debaixo de seu guarda-chuva cada vez maior e seus fãs cada vez mais devotados.

Com pouco mais de 120 mil assinantes, a playlist ainda é relativamente pequena, mas Szabo disse que a taxa com que os ouvintes adicionam suas músicas às suas próprias bibliotecas rivaliza com a das maiores listas de reprodução do Spotify. (RapCaviar, uma das playlist mais populares da plataforma, tem mais de 13 milhões de assinantes.) Oitenta por cento de suas músicas atuais são lançamentos independentes e, devido ao seu alto nível de engajamento, a playlist pode ter um efeito significativo na carreira dos artistas.

Assim como muitas cenas pequenas e apaixonadas, o hiperpop também passou por explosões e reações adversas. Quando A.G. Cook assumiu o controle da playlist em setembro e adicionou 50 canções, algumas de suas escolhas se tornaram controversas. Traçando conexões entre o antigo e o novo, como ele explicou mais tarde numa thread do Twitter, Cook adicionou canções de J Dilla, Kate Bush e outros – artistas que decididamente não faziam parte do universo hiperpop do momento. Os novos nomes apareceram no topo da lista de reprodução, derrubando muitos dos nomes mais antigos. “Na época, eu fiquei muito brava”, disse osquinn durante uma chamada de vídeo no Instagram.

“As pessoas estavam perguntando por que estávamos fazendo tanto alarde sobre isso, mas não perceberam que tinha pessoas que estavam literalmente vivendo com aquele cheque do Spotify”. Estudante do segundo ano do ensino médio, osquinn disse que seus pais ficaram “sem palavras” quando ela lhes mostrou seu último pagamento da DistroKid.

Ela tende a fazer longas pausas nas redes sociais, mas tem recebido mensagens no Instagram de produtores que querem trabalhar com ela e de gravadoras que querem contratá-la. Embora ela queira fazer esses movimentos algum dia, por enquanto deixou essas mensagens sem resposta. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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