Danny Kasirye/The New York Times
Danny Kasirye/The New York Times

Após enfrentar a covid, Marianne Faithfull fala sobre seu novo disco

A britânica teve vários encontros com a morte em seus 74 anos. Mas a covid-19 e seus sintomas de longa distância não atrapalharam seu último projeto: um tributo verbal aos poetas românticos

Lindsay Zoladz, The New York Times - Life/Style

25 de maio de 2021 | 05h00

Muitas vezes, em seus 74 anos de vida, Marianne Faithfull escapou das garras da morte. A primeira foi no verão de 1969, quando teve uma overdose de um sonífero conhecido como Tuinal, no quarto de hotel que dividia, em Sydney, com seu namorado na época, Mick Jagger; enquanto esteve fora de si, Faithfull teve uma longa conversa com Brian Jones, o colega de banda de Mick Jagger que havia morrido afogado em uma piscina cerca de uma semana antes. No fim da conversa animada, Jones a convidou a saltar de um precipício e se juntar a ele no além. Faithfull não aceitou o convite e acordou depois de seis dias de coma.

Isso foi antes que ela se viciasse em heroína, no início dos anos 1970: "Naquela altura, entrei em um dos primeiros círculos do inferno", escreveu em Faithfull, sua autobiografia, publicada em 1994. Demorou mais de uma década para que ela se livrasse do vício. Desde então, sobreviveu ao câncer de mama, à hepatite C e a uma infecção resultante de uma fratura no quadril. Mas, como Faithfull me disse ao telefone, diretamente de sua casa em Londres em uma tarde de fevereiro, sua batalha recente contra a Covid-19 e seus efeitos colaterais duradouros foi a mais difícil que já travou: "Querida, você não vai querer pegar esse negócio. De verdade!"

Claro que isso foi dito com aquela voz recoberta de cinzas, mas que, por baixo, cintila de vida e ousadia. À medida que amadureceu – rachada e multifacetada como um rosto experiente –, a voz de Faithfull ganhou uma magia hipnotizante. É uma voz que dá a impressão de ter voltado de algum lugar e encontrado uma forma de unir presente e passado. Ela é capaz de revelar a decadência da Berlim da República de Weimar em Bob Dylan, ou um sopro macabro de William Blake em uma música do Metallica.

Pouco antes de contrair o vírus, em março de 2020, Faithfull estava trabalhando em um disco que sonhava fazer havia mais de meio século: She Walks in Beauty, lançado em 30 de abril, tributo declamado aos poetas românticos que acenderam sua imaginação ainda na adolescência. Em meados dos anos 1960, as exigências da carreira pop de Faithfull a afastaram do curso de literatura inglesa da sra. Simpson, que ela tanto amava, "mas continuei lendo os livros", contou Faithfull. E, através dos altos e baixos de sua vida, esses poemas continuaram com ela como velhos talismãs. "Se você já leu 'Ode a um rouxinol' ou 'A senhora de Shalott', você não vai se esquecer desses poemas, não é?"

Faithfull gravou a recitação de sete poemas românticos, desde Byron ("Ela caminha em beleza"), passando por Shelley ("Ozymandias"), até chegar a Keats ("Ode a um rouxinol"). Depois que foi hospitalizada com Covid-19 e entrou em coma, seu empresário enviou os poemas a Warren Ellis, amigo e colaborador frequente de Faithfull, para que este compusesse música de fundo para eles. Nenhum dos dois tinha certeza de que Faithfull viveria para ouvir o produto acabado. Haviam dito a Ellis: "Ela não está muito bem. Desta vez pode ser o fim", recordou ele durante uma videochamada diretamente de sua casa, em Paris.

Mas – sempre Lady Lazarus – Faithfull resistiu. Foi só quando ela começou a se recuperar que seu filho, Nicholas, contou-lhe o que haviam escrito no prontuário, ao pé de seu leito: "Apenas cuidados paliativos." "Eles pensaram que eu estava indo desta para melhor!", Faithfull disse, provavelmente não pela primeira vez na vida. "Mas resolvi ficar por aqui", acrescentou com uma risada profunda.

O pai de Marianne, Glynn Faithfull – sim, esse sobrenome perfeitamente improvável é real –, era um espião britânico na Segunda Guerra Mundial e filho de um sexólogo que inventou algo chamado "Máquina da Frigidez". Sua mãe, tão improvável quanto ele, era a baronesa austríaca Eva von Sacher-Masoch – sobrinha-neta do homem que escreveu o sensacionalmente escandaloso romance A Vênus das Peles, cujo sobrenome deu origem à palavra masoquismo. Junte todas essas coisas e você terá a única filha do casal, nascida um ano depois do fim da guerra.

Seus pais se separaram quando ela estava com seis anos e, aos sete, sua mãe a mandou para um internato em um convento de Reading. Quando ela visitou seu pai, que vivia e ensinava em uma comuna, teve um vislumbre do extremo oposto do espectro. Aos 18 anos, casou-se com o artista John Dunbar e, pouco depois, deu à luz Nicholas. "Eu queria ir para Oxford e ler literatura inglesa, filosofia e religião comparada. Esse era meu plano. Por alguma razão, não se realizou. Fui a uma festa e lá fui descoberta pelo maldito Andrew Loog Oldham."

Oldham, o primeiro empresário dos Rolling Stones, não tinha ouvido Faithfull cantar uma nota; apenas deu uma boa olhada para ela e decidiu que essa jovem loira estava destinada a ser uma estrela pop. Fez com que Jagger e Keith Richards escrevessem uma música para ela, a balada melancólica As Tears Go By. Foi, em suas palavras, "uma fantasia comercial que apertou todos os botões certos".

Isso quer dizer que ela não levou sua carreira pop acidental tão a sério, não no começo. Em sua turnê de estreia, sempre estava concentrada, lendo algum livro, "examinando minha lista de leitura de literatura inglesa como se eu estivesse voltando para a escola".

Mas isso não seria realidade. Na agitada Londres psicodélica, Faithfull era uma linda garota que se encontrava no centro de um furacão cultural. Ela conheceu todo mundo, deixou o marido e o filho para trás, e fez tudo que os homens faziam, sem olhar para trás. Ela e Richards tomaram ácido e foram procurar o Santo Graal. Em sua biografia, Faithfull escreveu que Bob Dylan tentou seduzi-la tocando seu último álbum, Bringing It All Back Home, e explicando em detalhes o que cada faixa significava. (Não funcionou. "Simplesmente o achei... assustador. Como se algum deus tivesse descido do Olimpo e vindo em minha direção", escreveu.)

Jagger teve mais sorte e, durante alguns anos aparentemente glamorosos, eles foram o casal representativo de toda uma geração. Mas houve tensões desde o início, e Faithfull não tinha certeza de ter sido talhada para o papel de esposa-musa que deveria desempenhar, mesmo nos círculos boêmios.

Ela não se destacou musicalmente até os 30 e poucos anos, com o lançamento de sua obra-prima punk, Broken English, em 1979. Nas décadas subsequentes, seu talento artístico apenas se aprofundou e ela conquistou o respeito do público ("Não sou mais vista apenas como uma garota sexy – afinal, tenho 74 anos!"). Sua raiva em relação à indústria e à mídia diminuiu bastante entre os livros de memórias que publicou em 1994 e 2007. O que aconteceu? "Foi o tempo, sabe? Tudo que sei da vida – o que provavelmente não é muito – é que você tem de superar essas coisas ou elas te devoram. Não vou deixar acontecer comigo. Por isso deixei pra lá. Não tenho mais ressentimentos com a imprensa. Mas é claro que não a deixo chegar perto de mim, de verdade!", disse, rindo cordialmente.

Faithfull tem uma atitude mais leve, mas não conseguiu sair de sua última batalha sem algumas cicatrizes persistentes. Perdeu seu querido amigo e colaborador Hal Willner para o vírus. E, depois de inicialmente se sentir melhor, alguns meses atrás ela começou a se sentir pior. Desde então, tem experimentado os sintomas persistentes da Covid de longa duração, que, no caso dela, incluem fadiga, perda de memória e problemas pulmonares.

"Estou me concentrando em melhorar, melhorar de verdade – e estou começando a conseguir. Certamente, nunca vou ser capaz de trabalhar tão duro quanto antes, e longas viagens não vão ser possíveis. Mas espero fazer talvez cinco shows. Não muito longos – talvez 40 minutos. Ainda tenho um longo caminho até chegar lá", admitiu.

Ellis comentou: "Se alguém pode fazer isso, é Marianne, porque ela simplesmente não desiste. Sempre te surpreende."

Às vezes até ela se surpreende. No início de nossa conversa, Faithfull havia me avisado, daquele seu jeito admiravelmente objetivo, que não tinha me ligado para bater um papo por diversão, mas porque tinha um álbum para promover. Porém acabou admitindo que acha estimulante falar de sua vida, sua arte, seu passado e seu futuro: "Para mim, é bom me lembrar de que, na verdade, sou mais do que apenas uma pessoa idosa e doente." "Claro. Você é Marianne Faithfull, caramba!", respondi. Ela refletiu sobre isso por um longo momento. "Sou, é verdade." Então, com uma onda inesperada de força, como um golpe de martelo, ela acrescentou: "Caramba!"

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