Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Terra Fondriest/The New York Times
Terra Fondriest/The New York Times

Na região dos montes Ozarks, a pandemia ameaça uma frágil tradição musical

Os violinistas e guitarristas mais antigos não leem partitura de modo que suas sessões musicais semanais – agora interrompidas – são cruciais para a transmissão da sua técnica para a próxima geração

Jennifer Moore, The New York Times - Life/Style

05 de abril de 2021 | 05h00

McCLURG, MISSOURI – Numa loja de artigos em geral de uma rua praticamente deserta, Alvie Dooms, 90 anos, e Gordon McCann, 89, tocavam guitarra rítmica. Cerca de dez outros músicos, muitos também idosos, se juntaram a eles com seu violino, bandolim, banjo e contrabaixo e as músicas tinham nomes como Last Train Home, Pig Ankle Rag e Arkansas Traveler.

A música de dança dos velhos tempos – alegres e doces, ou mais lentas e nostálgicas – evocavam as apresentações musicais ao vivo dos pioneiros irlandeses que se instalaram nessa região escarpada há gerações atrás. Um precursor do bluegrass, a música que tocavam é típica deste recanto particular do Missouri.

A McClurgh-jam, como é conhecida a festiva reunião musical nas noites de segunda-feira, em que todos colaboram com um prato pronto, ocorre há décadas, a última desse tipo na zona rural de Ozarks. Mas a pandemia do coronavírus silenciou os instrumentos, pelo menos temporariamente, levando a uma preocupação: o que vai suceder com essa tradição musical singular?

“Como é música tocada de ouvido, ela é frágil”, disse Howard Marshall, 76 anos, professor aposentado da universidade de Missouri e também violinista.

Em outras palavras, os velhos violinistas e tocadores de banjo de McClurg aprenderam a tocar ouvindo um ao outro e não lendo partituras, passando a tradição de uma geração para a seguinte. Muitos dos músicos que conhecem melhor as músicas envelheceram e, pelo menos no momento, estão afastados.

“Sou um dos mais jovens e tenho 74 anos”, disse Steve Assenmacher, contrabaixista que vive na subida de uma ladeira perto da McClurg Store e é uma espécie de zelador.

Em anos normais a loja de artigos em geral, ainda repleta de caixas de sutiãs e sapatos femininos deixados há uma geração quando o negócio fechou, renasce uma vez por semana para essa reunião musical. Os músicos tomam conta do local, que fica cerca de 380 quilômetros distante de St. Louis,  nas noites de segunda-feira, se apresentando para amigos e esposas. Eles tocam sentados em círculo com os olhos fixos nos dedos calejados de Doom para acompanhar a batida da sua guitarra.

Na frente, as esposas dos músicos e um punhado de frequentadores regulares comem carne assada, quiches e tortas. Ocasionalmente alguns se levantam e vão dançar.

Chamada por alguns de música de montanha, esse gênero antigo sobrevive há centenas de anos por causa de reuniões como as de McClurg. Aqui a partitura é considerada “garrancho” e músicos formados em conservatórios correm um sério risco de serem vistos como “chatos”. As crianças com aptidão para música, há gerações escolhem um instrumento da família e tocam junto, em vez de terem aulas formais de música.

McClurg, que é mais uma encruzilhada do que uma cidade, é sede de um gênero particular de música antiga que não é tocada exatamente da mesma maneira em nenhum outro lugar. A uma centena de quilômetros dali, na região central do Estado de Missouri, os círculos de música antiga tocam mais valsas e o xote, dança que lembra uma polca lenta, por causa dos imigrantes alemães que se instalaram mais perto do Rio Missouri.

Assim, quando a pandemia levou as autoridades do Estado a limitarem as reuniões presenciais no ano passado, os músicos que se reúnem em McClurg procuraram uma maneira de continuar com suas sessões musicais. Em maio, Assenmacher limpou um estábulo adjacente à loja e colocou algumas lâmpadas. O jantar em que todos colaboram foi cancelado, com o pessoal se concentrando apenas na música, com os visitantes sentados na entrada do estábulo, ao ar livre.

As sessões musicais continuaram na maior parte do ano. Mas finalmente, em meados de novembro, quando os hospitais alertaram que suas dependências estavam com a capacidade quase esgotada e as temperaturas geladas começaram a ficar desagradáveis, os encontros foram suspensos por tempo indefinido.

David Scrivner, um jovem violinista de 38 anos, disse que a decisão provocou uma certa angústia. As reuniões de música oferecem uma variedade de músicas que não são ouvidas em outros lugares, afirmou. Mas a segurança dos músicos mais idosos, que ele chama de "tesouros", era primordial, acrescentou.

Scrivner já ganhou prêmios por suas atuações com seu violino. Mas ele não lê música e nem o seu mentor, o lendário violinista de Ozarks, Bob Hold, que morreu em 2004 aos 73 anos. A jam no McClurg foi a sala de aula onde ele aprendeu as histórias e as técnicas dos músicos mais antigos, especialmente Holt.

Ele lembrou de uma lição particularmente prática: quando e como bater o pé para manter o ritmo. “Não conseguia. E ele parou no meio de uma música para me dizer que eu tinha de ou bater meu pé direito ou não fazer nada”.

Essa sala de aula cessou de existir, pelo menos neste momento.

Mesmo antes da pandemia, os moradores mais jovens já não mostravam muito interesse nesses círculos de música mais antiga, levando Scrivner a se preocupar de que essa música poderá não mais sobreviver depois de algumas gerações. Agora ele teme que esse prazo seja encurtado.

McCann, que toca guitarra rítmica, deixou de fazer sua caminhada de uma hora da sua casa em Springfield até o local da reunião em McClurg porque contraiu o vírus.

“Minha mulher disse, ‘não traga o vírus para casa”, disse ele. “Estamos casados há 68 anos, portanto eu faço o que ela diz”. E observou que sua mulher havia deixado de assistir às sessões de música há anos, quando soube que uma família de serpentes residia na frente da velha residência ao lado da loja.

McCann doou centenas de horas de gravações para uma universidade local, e o áudio foi enviado para o YouTube.

Marshall, que deu aulas de história da arte na universidade do Missouri, disse que a Internet assegurou que muitas das músicas perdurarão. São as histórias por trás das músicas e o conhecimento institucional que desaparecerá se essas reuniões musicais como as de McClurg deixarem de existir.

Ele compreende a angústia com a decisão do McClurg de suspender a música. Mesmo se os músicos não foram atingidos pela Covid-19, uma pausa muito longa é um tempo precioso, porque eles podem ficar mais fragilizados com a idade.

E é exatamente o que vem ocorrendo com os velhinhos de McClurg à medida que eles procuram escapar da pandemia. McCann sofreu um AVC em novembro e vem tentando manter seus dedos calejados tocando guitarra sozinho no seu porão.

E Dooms, que sobreviveu a três ataques cardíacos, disse que “seus pulmões não estão nada bons”.

Assenmacher espera receber os músicos de volta no estábulo ao ar livre quando o inverno passar. Mas, afirmou, enquanto os músicos não forem vacinados e as autoridades de saúde pública não declararem uma imunidade geral, a velha loja de artigos em geral de McClurg continuará fechada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.