Chris Ramirez/The New York Times
Chris Ramirez/The New York Times

My Bloody Valentine está de volta aos estúdios

Famosa por desaparecer e reaparecer de novo, a banda está disponibilizando suas músicas nos serviços de streaming, relançando discos em vinil e gravando dois novos álbuns

Jeremy Gordon, The New York Times - Life/Style

23 de abril de 2021 | 05h00

Por quase quatro décadas, Kevin Shields, o líder da banda de rock muito barulhenta e de cabelo desgrenhado My Bloody Valentine, foi descrito usando sinônimos para "excêntrico" e "recluso". Mas a verdade é mais... qual é a outra palavra para trivial? Ele cozinha com sua esposa, Anna, e eles têm dois cachorros. Ele ouve música no Spotify e adora Frank Ocean. Ele pratica Wing Chun e gosta de fazer caminhadas por sua vasta propriedade na Irlanda, onde aprendeu algumas coisas a respeito da população local de cervos.

“Os mais confiantes têm essa coisa de gostar de se aproximar até 3 metros dos cachorros e fazer esse tipo de barulho estridente, como se falassem ‘O que você vai fazer a respeito?’”, disse ele em uma entrevista recente.

Shields não apareceu na câmera, e a banda não tirou novas fotos desde os anos 1990, mas ele estava dando essa entrevista para fazer um anúncio convencional: My Bloody Valentine está disponibilizando a maior parte de seu catálogo para serviços de streaming e está relançando o material em vinil. O grupo assinou com a influente gravadora independente Domino e planeja lançar dois novos discos.

“Nosso plano original era gravar os dois álbuns um após o outro e depois sair em turnê com ele”, disse. "E isso teria sido este ano, mas, você sabe, tudo realmente desacelerou."

A notícia, no entanto, ainda é extraordinária porque My Bloody Valentine realmente sempre fez as coisas do seu jeito. Às vezes, isso significa ligar para fábricas de vinil em diferentes países para ver quem fabrica o melhor e mais específico som. Outras vezes, isso significou deixar sua gravadora processar Shields em vez de lançar músicas que a banda não gostava. (Isso aconteceu em 2001, depois que My Bloody Valentine assinou com a Island Records, mas ficou sem lançar um novo álbum por quase uma década.)

My Bloody Valentine é mais famosa por tornar conhecido o shoegaze, um estilo de som de guitarra que tem esse nome pelo modo como mexe com a tecnologia - literalmente, olhando para os pedais de efeitos próximos aos seus sapatos - necessária para criar um som tão peculiar. A banda também é famosa por desaparecer: depois de lançar seu segundo álbum, Loveless, em 1991, ficou praticamente inativa por quase 20 anos, embora os rumores de uma retomada aumentassem e, em seguida, desaparecessem. Depois de se reunir para se apresentar ao vivo, a banda surpreendeu a todos em 2013 com m b v, um novo álbum que apareceu on-line no meio da noite sem aviso prévio, levando o site da banda a cair instantaneamente enquanto os fãs se aglomeravam para baixar as músicas.

Com a transição da indústria musical para um modelo de streaming na última década, m b v - junto com grande parte do catálogo anterior da banda - não estava disponível digitalmente, proporcionando um novo tipo de mistério em uma era em que se espera que músicas já gravadas sejam acessíveis com o clique de um botão.

“Meus sobrinhos - eles reclamavam comigo, porque quando tentavam mostrar aos amigos, não encontravam em lugar nenhum”, disse Shields. “Eles falavam: 'Por que você se esconde tanto de propósito? Sabe, não parece inteligente.' Esse tipo de coisa me fez pensar: 'Sim, acho que minha percepção do mundo não é o mundo'. Há um mundo inteiro lá fora, do qual não sei nada.”

My Bloody Valentine foi formada por Shields e o baterista Colm O’Ciosoig no início dos anos 1980. No começo, parecia com qualquer outra banda com som de guitarras temperamentais, mas alguns anos depois, Shields chamou a guitarrista e vocalista Bilinda Butcher e a baixista Debbie Googe, e isso mudou o som da banda por completo. O grupo ficou conhecido pelo volume de suas fisicamente arrebatadoras apresentações ao vivo e aprendeu como aproveitar esse ruído em uma série de lançamentos cada vez mais aclamados, explorando o potencial ambiental e sensorial da guitarra.

Questionada sobre como ela conseguiu lidar com a experiência de esperar para gravar a sequência de “Loveless”, Bilinda escreveu por e-mail: “Paciência é uma virtude nesta banda. Tive mais dois filhos e fiz muita dança flamenca”.

O catálogo anterior de My Bloody Valentine era gerenciado pela Sony, que herdou os direitos após comprar a Creation Records na década de 1990. Embora o relacionamento com a Sony não fosse hostil, a banda queria possuir os direitos de lançamentos futuros. “Sem dúvida, queríamos trabalhar com uma gravadora independente, em oposição a uma grande”, disse Shields.

A decisão de assinar com a Domino veio antes da amizade com seu fundador, Laurence Bell, que ele conheceu em meados dos anos 1990: “A Domino era o máximo das gravadoras independentes - eles têm tantas instalações quanto a maioria das grandes gravadoras, mas pertencem a apenas uma pessoa.”

Bell disse que a primeira vez que quis assinar com Shields foi no início de sua amizade, mas decidiu fechar o negócio em 2020, assim que o lockdown devido à covid-19 começou na Grã-Bretanha. “Ele tinha uma ideia muito, muito clara do que queria fazer”, disse a respeito dos planos de Shields. “Ele pode ouvir e ver coisas de uma maneira que poucas pessoas conseguem.”

Por anos, a ideia de My Bloody Valentine lançar músicas novas foi tratada como uma possibilidade distante. Bell reconheceu a incerteza inerente de contratar uma banda conhecida por respeitar seu próprio tempo. Mas Shields não tem intenção de passar mais 22 anos sem lançar nada. Ele mencionou artistas como Paul McCartney, que continuou gravando regularmente décadas após o início de suas carreiras, e disse que trabalhar com Brian Eno em alguns singles em 2018 o encorajou a adotar uma estratégia mais ágil para fazer música.

Quando era jovem, disse Shields, ele achava que precisava atingir o ponto máximo da carreira antes de completar 25 anos. Depois que My Bloody Valentine conseguiu algum sucesso, parou completamente de pensar no tempo, por isso o longo intervalo. Esses dias ficaram para trás.

“O tempo é um pouco mais precioso”, disse ele. “Eu não quero ter 70 e poucos anos querendo fazer o próximo álbum depois de m b v. Eu acho que seria mais legal fazer um agora.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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