Por que os pianistas sabem tão pouco sobre pianos?

Por que os pianistas sabem tão pouco sobre pianos?

Ao contrário de violinistas ou trompetistas, pianistas raramente conseguem tocar seus próprios instrumentos e devem ser adaptáveis

Anthony Tommasini, The New York Times - Life/Style

01 de janeiro de 2021 | 05h00

Meu piano precisava ser afinado em março, quando meu prédio, e toda a cidade de Nova York, entrou em lockdown. Qualquer trabalho realizado por "terceiros", como a faxina, foi proibido, a não ser em casos emergenciais. E um piano desafinado dificilmente poderia ser considerado uma emergência.

Os pianistas profissionais de toda a cidade se viram diante do mesmo problema: "Meu piano estava em uma situação deplorável", relembrou Conrad Tao. "Finalmente, saí em março e comprei um martelo de afinação", acrescentou, referindo-se ao instrumento básico de afinação que, na verdade, se parece mais com uma alavanca. Ao apertar várias cordas, ele se esforçou ao máximo para que os piores intervalos entre os tons ficassem "um pouco melhores", disse.

Jeremy Denk – que, como muitos pianistas, "não sabe nada sobre a tecnologia do piano", como admitiu em uma entrevista – preferiu usar todo o seu poder de persuasão. "Consegui convencer o síndico, mas foi difícil no começo. Expliquei que esse era meu instrumento de trabalho e que, portanto, o técnico era essencial". Por que os pianistas ficam tão perdidos em relação à mecânica do próprio instrumento? Essa falta de conhecimento os separa de praticamente todos os outros instrumentistas.

Violinistas, clarinetistas, harpistas e flautistas não apenas conseguem afinar o próprio instrumento e até mesmo alterar a afinação durante as apresentações, como é muito comum que também saibam muito mais sobre o funcionamento dele. Na escola de música, eu ficava maravilhado com os oboístas, que passavam o almoço todo conversando sobre os diferentes tipos de madeira que poderiam usar para fazer palhetas e as diversas facas que usavam para fazê-las à mão.

A maioria dos músicos possui o próprio instrumento, com o qual se apresentam. Se você é um jovem violinista talentoso, talvez não tenha um violino inestimável do século 17, mas é provável que tenha um bom instrumento pelo qual se sente apegado e com o qual sempre viaja. Contudo, quando os pianistas sérios saem em turnê, quase nunca levam o próprio instrumento, porque é preciso uma equipe profissional para fazer o transporte.

Desde quando são estudantes, os pianistas são impelidos a se adaptar. Depois de praticar uma peça em casa, os Taos e Denks devem se apresentar no instrumento que a sala de concerto tiver à disposição. E muitos são terríveis. Os pianistas jovens que estudam na Juilliard costumam trocar anedotas sobre quando tiveram de tocar em "verdadeiros OFPs" – "objetos em forma de piano". Pianos de alta qualidade variam enormemente em sonoridade, ação e resposta ao toque.

Até mesmo um espetacular Steinway de sala de concerto pode exigir um tempo de adaptação, e talvez não esteja de acordo com as preferências do pianista. "Boa parte do meu trabalho consiste em resolver exatamente esse problema para os pianistas", comentou Joel Bernache, técnico da Steinway & Sons em Nova York.

Há muito tempo, a Steinway tem um contrato para fornecer os pianos de cauda usados nos concertos do Carnegie Hall e fazer a manutenção deles. Atualmente, existem dois pianos prontos para uso no Stern Auditorium, o palco principal do Carnegie Hall: um Steinway americano, feito em Nova York, e um Steinway alemão, feito na fábrica da empresa em Hamburgo. Embora Bernache tenha dito que ambos são "claros e brilhantes", o piano feito em Nova York é um pouco mais alto e produz um tom mais fundamental. Já o fabricado em Hamburgo tem "um som mais claro e transparente. Você poderia dizer que ele é mais 'direto'. (Esses instrumentos duram apenas cinco ou seis anos, e, em alguns casos, dez, porque os pianistas de hoje não martelam as teclas como Rubinstein.)

O mecanismo do teclado de um piano de cauda é um sistema complexo de partes interconectadas, começando pela tecla de madeira recoberta de plástico e terminando com o "martelo" coberto de feltro, que bate contra as cordas.

Existem cerca de três dúzias de componentes ajustáveis no mecanismo de cada tecla, e o piano tem 88 teclas no total. Muitos pianistas que vêm ao Carnegie para experimentar os pianos pedem que pequenos ajustes sejam feitos antes de um concerto. Com frequência, Bernache é o responsável pela tarefa.

"Como técnico, sou tudo o que existe entre o pianista e sua apresentação", observou. Alguns solistas se queixam dos pianos do Carnegie Hall. "Eles dizem que o toque é muito duro", disse Bernache. Essa crítica, porém, pode ter sentidos diferentes para cada pianista. Bernache pode fazer os ajustes lubrificando as partes internas ou mudando ligeiramente a altura da tecla – ou seja, até onde a tecla vai para cima ou para baixo.

Com frequência, isso pode dar ao pianista a impressão de que é mais fácil tocar determinado instrumento, a sensação de que este emite mais som. Ele enfatizou que "o som e o toque são inseparáveis". Usou Daniil Trifonov como um exemplo de pianista com uma técnica tão excepcional que a adaptação a um instrumento desconhecido raramente é um problema; detalhes em relação ao toque "são muito menos relevantes para ele que o bom funcionamento do piano, o som que produz, o volume e a duração de cada nota".

Mas, no caso de um pianista famoso que o técnico não quis identificar, cada escolha gera "uma crise de decisão". Bernache contou que, em certa ocasião, quando o Carnegie ofereceu três pianos para que o artista escolhesse, este "não conseguia decidir qual odiava menos". Entre os maiores pianistas da atualidade, Mitsuko Uchida é famosa por seu conhecimento excepcionalmente detalhado da mecânica do piano e por seu elevado padrão de exigência.

Ela trabalhou com alguns dos maiores técnicos do mundo, mas, desde 1993, conta principalmente com a ajuda de Georg Ammann, da Steinway, a quem ela chamou, durante uma entrevista, de "o 'técnico de viagens' da fábrica de Hamburgo". Ele esteve ao lado da concertista em muitas apresentações importantes e em todas as suas gravações.

Em relação à ação das teclas, ela disse: "Gosto que a resposta seja rápida e leve, e não aprecio quando ela é arrastada e faz fricção em tudo." Enquanto descrevia suas preferências, o íntimo conhecimento de Uchida em relação à tecnologia do piano era vividamente perceptível. Segundo ela, com muitos instrumentos "você fica travado quando o peso é diferente em cada tecla, quando o piano foi preparado com desleixo, ou quando o amortecimento – ou a mola dos pedais – não foi ajustado".

Problemas podem surgir se "o pino que fica debaixo da tecla está sujo, ou se o outro pino no meio do mecanismo está sujo, travado ou engasgando", explicou. Sempre que possível, Uchida leva o próprio piano, o que não é comum entre os pianistas, mesmo os mais famosos. (Nos últimos anos de vida, Vladimir Horowitz costumava tocar o próprio piano, ou um instrumento reservado exclusivamente para ele pela Steinway; recentemente, Krystian Zimerman tem viajado quase sempre com seu instrumento e compreende seu mecanismo profundamente.)

Em casa, em Londres, Uchida tem três pianos de cauda e mantém outro "estacionado na Alemanha", para que seja mais fácil transportá-lo para salas de concerto e estúdios de gravação na Europa continental. Obviamente, os desafios logísticos de transportar um piano por grandes distâncias são consideráveis – sem falar no custo. As instituições costumam cobrir esses valores? Embora varie "caso a caso", geralmente não, informou Uchida.

Mas ela contextualizou esse gasto. "Não tenho outro excesso. Não exijo casas de campo, joias caras, carros de luxo ou coleções especiais de qualquer coisa", disse. No entanto, ela evita o envio para os EUA – a não ser uma vez, há alguns anos, quando fez uma turnê com a Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara, de Munique, pela América do Sul e por Nova York. "Os pianos da América do Sul não são recomendáveis", sentenciou. Por isso, ela levou o próprio piano, que também usou em um concerto no Carnegie Hall. Não é difícil imaginar por que os pianistas sonham com o luxo de sempre poder tocar o próprio instrumento.

Ainda assim, Tao argumentou de maneira contundente em favor da adaptabilidade: "Vejo a realidade de ser pianista como um dom, uma oportunidade que expande os limites da técnica musical. A ideia de que você ensaia uma apresentação até ficar perfeita em casa e depois repete isso em um concerto está fora de cogitação. Com cada novo instrumento, você precisa de humildade, e tem de desenvolver uma conexão com a lógica por trás da maneira como você toca."

De volta ao meu apartamento, o técnico finalmente fez uma visita, afinou meu piano e fez alguns ajustes mecânicos em outras teclas. Depois disso, ele soava muito melhor. Não faço ideia do que foi necessário para chegar até ali.

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