Kosuke Okahara/The New York Times
Kosuke Okahara/The New York Times
Giovanni Russonello, The New York Times - Life/Style

02 de abril de 2021 | 05h00

Seja tocando piano solo ou liderando um de seus vários conjuntos grandes, a pianista e compositora Satoko Fujii sempre chamará sua atenção para os detalhes.

Líder de uma variedade estonteante de conjuntos grandes e pequenos, Fujii é, sem dúvida, a pianista mais prolífica do jazz – embora também esteja entre as menos reconhecidas. Desde a década de 1990, lançou cerca de cem álbuns, principalmente por meio de seu selo, o Libra Records. Há dois anos, em comemoração ao seu aniversário de 60 anos – marco conhecido como "kanreki" na cultura japonesa –, ela lançou um álbum novo por mês, incluindo piano solo e obras para big band.

Fujii diz que tem a impressão de ouvir música em todos os lugares e se sente desafiada a canalizar as sensações do mundo da maneira mais direta possível. "Isso provavelmente parece estranho, mas, quando componho, sinto que a música já estava lá – simplesmente não a tínhamos percebido. Sinto que estou apenas procurando por algo que já estava lá, mas escondido. O som de um avião no céu, uma conversa, até mesmo o farfalhar das árvores podem servir de inspiração", afirmou durante uma entrevista recente diretamente de sua casa em Kobe, no Japão.

Sem poder participar de shows, jam sessions e sem acesso a um estúdio de gravação durante o lockdown, ela se sentiu desamparada. Caminhando por Kobe, Fujii era tocada pelo nervosismo misterioso da atmosfera, mas ela e o marido, o trompetista Natsuki Tamura, não tinham com quem tocar. "Tudo foi cancelado. Eu me perguntava: Quem sou eu?", contou ela.

Fujii decidiu equipar sua minúscula sala de piano, que mal tem espaço para seu querido Steinway Grand, com um estúdio caseiro. Então, continuou escrevendo, gravando e lançando música em um ritmo ainda mais acelerado do que antes.

Em toda a obra de Fujii, as contradições entram em equilíbrio; embora sua música seja abstrata e às vezes selvagem, cada elemento brilha com clareza. Em situações grandes e pequenas, a atenção aos detalhes é igualada pela capacidade de transmitir enorme amplitude e uma variedade de texturas. Ao ouvi-la, é tentador recorrer a metáforas das artes visuais: essas obras são tão complexas e cheias de detalhes como, digamos, uma tela de Mark Bradford, e em escala igualmente grande.

Desde o início da quarentena, Fujii lançou mais de uma dúzia de álbuns em sua página do Bandcamp, incluindo Prickly Pear Cactus, disco de trio que ela e Tamura fizeram com o músico eletrônico Ikue Mori, trocando arquivos de áudio por e-mail e um acrescentando gradualmente ao trabalho do outro; Beyond, série de duetos serenos com o vibrafonista Taiko Saito; e Hazuki, álbum solo de piano, agora disponível em CD, com composições que Fujii escreveu nos primeiros meses de quarentena.

Por e-mail, Mori disse que começou a colaborar com Fujii alguns anos atrás, depois de ter ouvido de outros músicos sobre uma pianista com um "estilo dinâmico e diversificado". O projeto Prickly Pear Cactus permitiu que colaborassem sem pressa. "Desta vez, tocamos no nosso tempo e pudemos desenvolver os detalhes; foi uma situação perfeita para nós dois", comemorou Mori.

Nascida em Tóquio, Fujii era obcecada por música desde a infância, mas não se destacou imediatamente. Ela se lembra de que não foi fácil aprender piano clássico e alguns professores ajudavam menos que outros. Contou que, quando era adolescente, um professor de música erudita disse: "Se você continuar tocando sempre, quando tiver minha idade, uns 70 anos, será uma ótima pianista. Qualquer pessoa pode ser boa pianista, é só não parar de tocar."

Depois do ensino médio, Fujii ganhou uma bolsa de estudos para o Berklee College of Music, em Boston, e se mudou para lá em 1985. Como jovem pianista, ainda estava descobrindo como se posicionar em relação à tradição do jazz, e não havia composto muito quando assistiu a uma master class de composição conduzida por Chick Corea: "Ele disse que, assim como praticamos o instrumento, também podemos praticar a composição. Isso era muito novo para mim naquela época. Decidi que poderia tentar fazer aquilo." Trabalhar incansavelmente talvez seja o mais importante – mesmo quando se trata de compor.

Depois de Berklee, Fujii voltou ao Japão por algum tempo, trabalhando como professora e pianista de estúdio, enquanto ganhava reputação em Tóquio como líder de banda arrojada. Então, em 1993, ela voltou a Boston para cursar a pós-graduação no Conservatório de Música da Nova Inglaterra. Lá, estudou com o influente pianista Paul Bley, conhecido por sua improvisação fluida e onírica. Fujii disse que ele percebeu em sua música algo que ela não havia desencadeado completamente, e a encorajou a se livrar ao máximo da ortodoxia do jazz. "Ele disse: 'Você não deve tocar como se fosse outra pessoa. Se tocar como você mesma, teremos um motivo para comprar seu CD.'"

Os dois mantiveram contato depois de sua formatura e, em 1995, gravaram Something About Water, dueto de piano impressionante que também foi um dos primeiros álbuns lançados por Fujii de maneira independente, pelo selo Libra. Pouco depois, ela receberia ligações para se apresentar na cena vanguardista de Nova York, cidade em que ela e Tamura moraram por um ano e meio.

Fujii acabou voltando ao Japão, mas não antes de lançar as bases para o que se tornaria a Orchestra New York, big band com alguns dos melhores improvisadores da cidade. Ela lançou diversos álbuns com o grupo, que vai comemorar 25 anos de existência no ano que vem. Ela também criou a Orchestra Tokyo, formada por músicos locais, e a Orchestra Berlin, fundada durante uma temporada de cinco anos na Alemanha, nos anos 2010. Cada orquestra tem uma relação diferente com a música de Fujii, e talvez ela escreva um pouco diferente para cada uma delas.

O saxofonista tenor Tony Malaby toca com a Orchestra New York desde os anos 90. Ele contou que as instruções de Fujii para o conjunto costumam ser extremamente simplificadas, e ela raramente grava mais de um take de cada música. Malaby disse que, muitas vezes, só percebe por completo a profundidade da música quando a ouve gravada. "A simplicidade está além da imaginação. Você acabou de gravar, entra no trem e pensa: 'Que diabo foi aquilo?' Depois, recebe o CD pelo correio e percebe como é poderoso", afirmou, descrevendo a experiência de sair de uma sessão de gravação com a orquestra.

Ele ficou impressionado com a habilidade de Fujii em aplicar a linguagem de seu piano solo a seus grandes conjuntos, nos quais raramente toca uma nota no teclado. "Ela transcendeu o piano com a orquestra, mas soa como se tocasse com um trio ou solo", explicou.

Fujii revelou que não pensa de forma diferente ao gravar um álbum solo ou com um grande conjunto. Em ambos os casos, trata-se de usar o som para tornar as complexidades da vida um pouco mais compreensíveis. "A energia que gasto em um projeto, seja solo ou com uma big band, é praticamente a mesma. Só me concentro nele, dedicando meu tempo e cem por cento da minha energia."

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