Yann Kebbi / The New York Times
Yann Kebbi / The New York Times

É preciso exaltar o talento de compositores negros em todos os gêneros

Não é que as mulheres e os homens negros não tenham escrito música, mas muitas vezes ela foi ignorada – e, portanto, presume-se que não exista

George E. Lewis, The New York Times - Life/Style

30 de julho de 2020 | 05h00

Um cone do silêncio – usado pelo agente Maxwell Smart na série Agente 86, dos anos 1960, para atrapalhadas conversas secretas com seu chefe – paira sobre o trabalho de compositores negros da África e sua diáspora. Não é que as mulheres e os homens negros não tenham escrito música, mas muitas vezes ela foi ignorada – e, portanto, presume-se que não exista. O trabalho dos compositores negros é ouvido com mais frequência nos gêneros que exemplificam "a experiência negra": jazz, blues, rap.

"No entanto, sabemos que existem diferentes tipos de vida negra e, assim, temos diferentes tipos de música negra. Porque a música negra surge da vida negra", definiu o compositor e pianista Muhal Richard Abrams. No fim dos anos 1980, os escritores caribenhos Jean Bernabé, Patrick Chamoiseau e Raphael Confiant se proclamaram "creoles" (crioulos): "Divididos entre várias línguas, várias histórias, presos em um mosaico de identidade ambígua e abundante."

Nessa perspectiva, ao contemplar um Dia da Independência diferente de qualquer outro em minha memória, quero destacar alguns dos modos pelos quais os compositores afro-americanos têm explorado o que significa – e poderia significar – ser americano, ajudando a promover uma nova música cosmopolita e crioula para o século XXI. Se realmente a vida dos negros agora importa mais do que nunca, também é importante ouvir a vivacidade deles na música clássica. A alternativa é um vício de exclusão que acaba, como costuma acontecer, em empobrecimento.

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O primeiro movimento da Sinfonia nº 1 de William Grant Still, The Afro-American (1930), desenvolve um blues de 12 compassos usando a forma clássica da sonata. Isso serviu ao propósito declarado de Still – afinado com os temas do Novo Negro, movimento de consciência racial da década de 1920 – de demonstrar como o blues "poderia ser elevado ao mais alto nível musical". Hoje, também ouço um prenúncio de duas culturas musicais colaborando em pé de igualdade.

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Um dia, em 1970, meu colega de quarto na faculdade, o violista Miles Hoffman, mencionou que estava realizando um trabalho insólito com a Orquestra Sinfônica de Yale que talvez eu gostaria de ouvir. Sem dúvida, a peça me cativou e fiquei surpreso ao ver um jovem estudante universitário afro-americano, Alvin Singleton – agora um dos compositores mais ilustres dos Estados Unidos –, subir ao palco para receber os aplausos. Creio que, até então, eu nunca tinha visto um compositor negro ou ouvido falar de algum deles. A obra Mestizo II é uma infusão exuberante de improvisação livre em uma orquestra clássica.

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Em 1999, Tania Léon criou Horizons para orquestra, um trabalho que é muito bem descrito pelo musicólogo Jason Stanyek como uma espécie de crioulização musical: "De repente, essa é a música das Américas, do mundo transatlântico, da diáspora cubana, da vanguarda europeia. É pan-latina, local, intercultural, cosmopolita, indígena, global, transcendente, fundamentada."

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Fanm d'Ayiti (Mulheres do Haiti), da compositora, flautista, vocalista e artista eletrônica americana com ascendência haitiana Nathalie Joachim, talvez seja o melhor exemplo da situação do crioulo. Joachim combina texto e canções tradicionais e modernas em kreyòl (língua crioula haitiana) com técnicas de cordas estendidas e eletrônicas que trazem de volta o minimalismo musical para a diáspora africana, na qual tanto se inspirou. Vivacidade negra, mulheres negras e espiritualidade negra chegam ao centro de atenção da música clássica.

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O projeto de Joachim combina com o espírito de Coin Coin, série de trabalhos da saxofonista, compositora e artista visual Matana Roberts, agora no quarto volume de um total de doze. Roberts usa textos, gravações de campo, voz, instrumentos e elementos visuais para explorar história, memória, legado, família, sexualidade e mito na diáspora afro-americana, exemplificando o poder criativo da artista de misturar história com espiritualidade.

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Antes de George Floyd, houve Sandra Bland – e muitas outras pessoas. Em julho de 2015, Bland, de 28 anos, natural de Chicago, foi encontrada enforcada em uma cela do Texas, três dias depois de ser presa durante uma blitz de trânsito. Em um vídeo postado no Facebook, dois meses antes de sua morte, ela comentou: "Nas notícias que temos visto ultimamente, você pode ficar lá, se render aos policiais e ainda assim ser morto."

A essa altura, o Fórum de Políticas Afro-Americanas já havia criado a hashtag #SayHerName (Diga Seu Nome) no Twitter, justamente para chamar a atenção para a violência policial contra mulheres negras. A obra Yet Unheard (2016), de Courtney Bryan, para soprano, coro e orquestra, que estreou no aniversário da morte de Bland, foi uma resposta musical a esse chamado. Como sugere o libreto de Sharan Strange: "Meu povo, você não quer cantar o nome dela?"

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Nascido um homem escravizado na Geórgia, o compositor cego e pianista virtuoso Thomas Wiggins (1849-1908), popularmente conhecido como Blind Tom, foi promovido por seu proprietário como um "idiota" para aumentar seu valor de mercado. Willa Cather descreveu a performance de Tom em obras de Franz Liszt e Ignacy Jan Paderewski como "gênio que não tem base no intelecto", uma visão comum da humanidade negra debatida por personagens do romance Song of the Shank, de Jeffery Renard Allen, baseado em Tom e publicado em 2014.

Em The Battle of Manassas, de Blind Tom, de 1863, o som dos canhões é evocado por meio da improvisação que antecipa o início da obra de Henry Cowell. Criado por um compositor sulista escravizado em homenagem ostensiva à primeira grande batalha da Guerra Civil vencida pela Confederação, o trabalho pode ser ouvido hoje como uma antecipação do colapso do regime segregacionista – e também como uma trilha sonora para a destruição de estátuas confederadas, cujos hinos fazem menção direta a Jim Crow (o criador de leis que impunham a segregação racial), que remotamente lembram o que é história.

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Desde o fim da Grande Migração na década de 1960, a experiência afro-americana tem sido representada quase exclusivamente como urbana. Na obra America's National Parks (Parques Nacionais Americanos, em tradução livre), de 2017, o compositor e trompetista Wadada Leo Smith, filho de um bluesman do Delta do Mississippi, recupera as extensões do Oeste americano que a música clássica concedeu há muito a Aaron Copland e Roy Harris.

As seções de America's National Parks se referem a Yellowstone, Sequoia, Yosemite – como fundos sem fins lucrativos de preservação ambiental do país (mesmo que as pessoas ainda sejam perseguidas em caminhadas por serem negras). Outro movimento é nomeado pela musicóloga Eileen Southern, cujo livro histórico The Music of Black Americans (A Música dos Negros Americanos, em tradução livre), de 1971, é, como diz Smith, "um parque nacional literário".

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Ornette Coleman (1930-2015), figura importante no surgimento da nova música negra transgressora da década de 1960, se tornou um símbolo de uma ousada mobilidade artística, no gênero e na prática, com Skies of America (Céus Americanos, em tradução livre), obra orquestral de 1972.

O trabalho está estruturado como uma série de vinhetas representando aspectos da vida americana contemporânea: Holiday for Heroes (Feriado para Heróis), talvez uma referência ao Quatro de Julho; Sunday in America (Domingo nos Estados Unidos), um possível aceno para a observação de Martin Luther King Jr. de que "a manhã de domingo é um dos momentos mais segregados da América cristã"; e The Men Who Live in the White House (Os Homens que Vivem na Casa Branca), que lembra o acompanhamento de John Williams, à maneira de Aaron Copland, do discurso de despedida de Richard Nixon no filme de Oliver Stone intitulado Nixon.

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As óperas de Anthony Davis – que recebeu o Prêmio Pulitzer de música neste ano por The Central Park Five – são sonoramente audaciosas e politicamente pontuadas. Amistad (1997) diz respeito à revolta de 1839 em que os escravizados capturados assumiram o controle do navio e exigiram o retorno à África. Eles acabaram nos Estados Unidos, onde uma tentativa de escravizá-los novamente, agora de forma legal, falhou.

Tão surpreendente quanto a música de Davis é o libreto de Thulani Davis, que resume o argumento de 130 páginas de John Quincy Adams à Suprema Corte em algumas linhas potentes que ressoam neste verão boreal: "Aqui nossas leis permitem a escravidão, até mesmo a vingança brutal, dentro de nossas costas. Mas agora, com homens feitos reféns, procuramos negar até a lei da natureza. Isso não pode permanecer. Isso não pode ficar em nossa terra."

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