Sunna Ben via The New York Times
Sunna Ben via The New York Times

Após enfrentar o machismo local, grupo de rap feminista da Islândia parte para o exterior

Coletivo Daughters of Reykjavik foi ridicularizado online e na imprensa do país

Kate Hutchinson, The New York Times - Life/Style

29 de julho de 2020 | 05h00

Numa tarde de semanas atrás, os nove rostos do coletivo de rap feminista islandês Daughters of Reykjavik se organizaram numa tela de Zoom para uma entrevista em grupo. Uma das rappers amamentava um bebê de quinze dias. A fundadora do grupo se levantou para mostrar sua barriga de grávida. Outra disse que estava na casa da avó de 82 anos, que de vez em quando aparecia no fundo da imagem. As rappers tinham se acostumado com esse cenário em confinamento.

Depois que a pandemia forçou uma pausa na promoção de seu segundo álbum, Soft Spot, elas tentaram se animar gravando um vídeo para o single Thirsty Hoes, que traz uma apresentação sincronizada de vídeos gravados por cada rapper em seu quarto. Nesse clipe que parece mais uma reunião de Zoom, às vezes surgem umas coisas curiosas: uma delas dança em cima da cama; um cara sem camisa se contorce atrás de outra; uma terceira toma um gole direto da garrafa de champanhe.

Mas, ainda que esse caos organizado, que reflete a coreografia dos shows ao vivo, tenha conquistado o público de toda a Europa, o grupo tem causado cisões em sua terra natal. “A gente vem causando uma grande controvérsia na Islândia, basicamente”, disse Thuridur Blaer Valsdottir, fundadora do grupo e diretora do vídeo Thirsty Hoes – que, como disse outra integrante, Ragnhildur Holm, é o primeiro clipe “que não tem comentários negativos no YouTube”.

Então não é de surpreender que a banda agora tenha aspirações que vão além da minúscula cena de hip-hop da Islândia. As rappers se conheceram no início de 2010, numa noite de microfone aberto apenas para mulheres que uma das integrantes, Thura Stina Johannsdottir, havia ajudado a organizar. E, quando elas se reuniram em grupo, “rolou um sexismo horroroso”, disse Johannsdottir.

Os críticos disseram que elas eram bonitas, mas que sua música era um lixo. Uma das rappers, Steiney Skuladottir, reconheceu que, no começo, quando todas eram bem-vindas e o grupo tinha 21 integrantes indisciplinadas, elas não eram muito boas mesmo. Mas, até agora que o coletivo é mais profissional, a ideia de que elas são “péssimas cantoras e compositoras” ainda as assombra, disse ela. “É nossa marca registrada na Islândia”.

No momento da sua fundação, em 2013, o hip-hop nacional estava ficando popular na Islândia. Estavam surgindo muitos jovens MCs, principalmente garotos, adotando a percussão e os arranjos do rap americano, mas fazendo rap em islandês. A chegada de um grupo de mulheres com uma clara agenda feminista agitou as coisas. O grupo – então chamado Reykjavikurdaetur – imediatamente ganhou sua reputação de escandaloso quando conseguiu aparecer num programa de TV em rede nacional e Johannsdottir fez um rap cheio de palavrões sobre o primeiro-ministro da Islândia na época.

O que chocou os telespectadores, disse ela, não foi sua atitude negativa em relação ao primeiro-ministro, mas sim o fato de que uma mulher estava sendo vulgar. As pessoas disseram: “Elas são muito mais grosseiras do que todos os outros rappers”, disse Johannsdottir. “Mas não somos”, ela acrescentou. “Somos exatamente tão grosseiras quanto eles”.

Não foram apenas os meios de comunicação que fizeram comentários depreciativos sobre o grupo. Outros músicos islandeses aderiram às críticas nas redes sociais. Emmsje Gauti, um proeminente rapper, disse no Twitter que achava que elas não tinham talento: “Não é uma questão de gênero”, escreveu ele.

“Música ruim é música ruim”. Seu comentário, disse Salka Valsdottir, produtora do grupo, “teve tantos retweets que as pessoas começaram a achar que era aceitável dizer coisas muito negativas e desrespeitosas sobre a gente”. A Islândia é uma nação pequena, com pouco mais de 350 mil habitantes, e sua indústria musical é muito unida. Então, os comentários de Gauti foram muito dolorosos – especialmente para uma integrante do grupo que é da sua família. “Ele é meu primo”, disse Johannsdottir. “Passamos o Natal juntos – então fica muito estranho”.

Mas ela disse que não ficou aborrecida por muito tempo. “Dei uma camiseta da Reykjavikurdaetur com meu autógrafo de presente para ele”. Uma das poucas mulheres do rap islandês é Ragna Kjartansdottir, que se apresenta como Cell7 desde os anos 1990. Ela disse numa entrevista que a cena do rap nacional ficou dividida em relação ao coletivo, que no ano passado mudou seu nome para Daughters of Reykjavik – algo mais fácil para os estrangeiros dizerem – e reduziu suas integrantes para as nove atuais.

“Algumas pessoas acham que é ótimo”, disse Kjartansdottir sobre o grupo, mas outras acham que tem menos a ver com música e mais a ver com a polêmica. As controvérsias vieram à tona quando o grupo tocou a música Disgusting [“Nojento”, em tradução livre] num programa de entrevistas em 2016. Skuladottir disse na entrevista que não haveria nada de extraordinário na apresentação daquela noite – embora uma das integrantes estivesse usando uma cinta com um brinquedo sexual.

Outra convidada do programa, a cantora Agusta Eva Erlendsdottir, ficou horrorizada e saiu do set. Tempos depois, numa entrevista ao site Nutiminn, Erlendsdottir disse que a experiência de compartilhar o palco com o coletivo era como ser “estuprada na televisão ao vivo”. A internet logo se incendiou de ódio pelo grupo, disse Skuladottir. “Quando cheguei em casa e olhei no computador, as pessoas ficaram tipo, ‘Oh meu Deus, elas são nojentas! Eles são a pior coisa que já aconteceu na Islândia’”.

Foi então, ela disse, que as integrantes decidiram se concentrar na ideia de partir para o exterior. “Estávamos com medo de fazer música, porque qualquer coisa que fizéssemos iria gerar muito ódio”, disse Skuladottir. “Mas, depois que mudamos nosso foco, ficamos muito mais livres”. Katrin Helga Andresdottir, outra integrante, disse que agora, fora da Islândia, o grupo era “muito maior do que qualquer um dos rappers do sexo masculino”.

Desde então, Valsdottir se mudou para Berlim, e as outras Daughters viajaram para lá no ano passado para gravar Soft Spot por mais de dez dias. Trabalhar num grupo tão grande pode ser um desafio, disse Johannsdottir. Quando as Daughters of Reykjavik tinham mais de vinte integrantes, todas escreviam seus próprios versos separadamente. Agora, com menos gente, é um processo mais colaborativo.

“Naquela época, éramos mais anárquicas – todas as vozes tinham que ser ouvidas e todas tinham opiniões muito fortes sobre tudo”, disse Steinunn Jonsdottir, outra integrante. Agora, ela disse, “sabemos quem é mais forte num aspecto do trabalho e quem é mais forte em outro, por isso não brigamos mais entre nós mesmas”. Para promover o álbum, a banda gravou um podcast que explora alguns dos temas abordados, como abuso online, masculinidade tóxica e imagem corporal.

O episódio 1 usa a música Sweets como trampolim para uma discussão entre as integrantes sobre sexualidade feminina. Uma das músicas do álbum, a faixa inspirada em Eminem, A Song to Kill Boys To, é um aceno direto ao “ódio que sofremos”, disse Johannsdottir. Mas, fora isso, as Daughters disseram que sua música fala sobre empoderamento e positividade. “É importante que as mulheres saibam que estamos aqui para apoiar umas às outras”, disse Valsdottir, e que vale a pena tentar o sucesso. Todas elas começaram no rap “só por diversão”, disse Skuladottir. Depois de tudo o que elas passaram, acrescentou, ainda é o que as impulsiona. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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